Ler (4)


Pedro Correia,

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Neste 10 de Junho, apetece-me escrever sobre escritores portugueses. Para mencionar os romances do século XX escritos no nosso idioma que captam as luzes e sombras da portugalidade. Do ponto de vista histórico, social e até geográfico.

Conjunto de romances capazes de proporcionar ao leitor uma visão abrangente da nossa Psicopátria. Ignoro se já foi tema para tese de doutoramento, mas a ideia aqui fica.

 

Entre as melhores narrativas portuguesas do século passado constam obras que descrevem o homem enquanto ser introspectivo – é o caso de Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Ou o definem como membro da sociedade – sucede com Nome de Guerra, de Almada Negreiros. Ou o projectam no mundo e aí o entregam à sua sorte – temos como expoente A Selva, de Ferreira de Castro. Ou retiram coordenadas espaciais e temporais para exporem o ser humano na sua nudez elementar perante um cataclismo global – acontece no emblemático Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.

Mas a Psicopátria surge noutros romances que nos desvendam enquanto povo neste concreto chão que nos coube em sorte e foi moldando um carácter colectivo.

Se me pedirem para indicar dez, são estes: Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca, Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, A Sibila (1954), de Agustina Bessa-Luís, A Casa Grande de Romarigães (1957), de Aquilino Ribeiro, Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol, A Torre da Barbela (1964), de Ruben A., O Delfim (1968), de José Cardoso Pires, O Milagre Segundo Salomé (1975), de José Rodrigues Miguéis, Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena, e O Esplendor de Portugal (1997), de António Lobo Antunes.

Cada qual no seu estilo, constitui uma ode em prosa à portugalidade. Num tempo e num espaço muito precisos.

 

Escrevo com a satisfação de saber agora reeditado, na histórica Bertrand, esse monumento à língua portuguesa que é A Casa Grande de Romarigães.

O autor, com excessiva modéstia, procurou desvalorizar esta obra chamando-lhe «crónica romanceada». É definição que desconsidera um dos melhores romances escritos neste idioma de Camões, Vieira e Pessoa. Romance sobre o apogeu e decadência de um solar brasonado no Alto Minho e da família que o foi habitando ao longo de sucessivas gerações. Na peculiar sintaxe barroca de mestre Aquilino, semeada de coloquialismos e neologismos da sua lavra. Com diálogos saborosíssimos e episódios exemplares que nos perduram na memória.

Romance que ironiza sobre o País mas sente imensa ternura por ele. Como muitos de nós fazemos, afinal.

14 comentários em “Ler (4)”

  1. Boa tarde Pedro Correia.
    É também a minha opinião, um belo livro, que em breve irei reler.
    E, por muitos episódios que me revoltam, e critico, para mim continua a ser o meu País, o meu Portugal, e não gosto da expressão “este país”. E é no regime em que quero viver, em democracia. Infelizmente, algumas vezes, em certos sectores da nossa sociedade, uma democracia quase só formal, pouco real.
    Um bom 10 de Junho. Saúde.
    António Cabral

  2. De Aquilino, até Janeiro passado, lera apenas Mónica e A Batalha sem Fim, ambos os romances em edição da Bertrand, comemorativa do centenário do nascimento do autor. Li-os há muito tempo, há 22 e 20 anos, conforme as anotações que neles deixei, e pelo menos ao segundo tenho que regressar em breve. Por razões de afinidade geográfica, de raízes familiares. Pela própria obra, evidentemente.
    A Casa Grande de Romarigães foi leitura das primeiras semanas deste ano. Um verdadeiro, inesquecível, monumento, de facto. Bertrand, também, em edição de 2013 e preservando – milagrosamente (vindo da Bertrand) – a correcta ortografia. Que essa reedição a que agora alude a mantenha, pois a “peculiar sintaxe barroca de mestre Aquilino”, como escreve, desfigurada pela perversão do AO90 seria (será) um espectáculo penosíssimo. Um insulto insuportável. Mas que na verdade, a concretizar-se, em nada surpreenderia.
    Há cá por casa um exemplar das Lápides Partidas, esperando a sua sempre adiada vez (o mesmo se aplica a Almada e ao Nome de Guerra; e dos outros que elenca não esqueço A Sibila, O Delfim, Mau Tempo no Canal e, de uma forma absoluta – se assim os posso invocar – Para Sempre e Sinais de Fogo).
    O Malhadinhas será uma minha muito séria lacuna. E na verdade, conheço tão pouco da obra de Aquilino. Foi um incentivo, este seu postal.

    1. Conheço bem seis livros de Aquilino, um dos quais até já mencionei aqui com algum pormenor. “O Malhadinhas”, obra-prima absoluta da língua portuguesa.
      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/grandes-romances-35-12639586

      Além deste e da “Casa Grande”, gostei muito de “Terras do Demo” (1919) – romance de referência sobre a pobreza endémica no Portugal serrano do início do século XX, que em pouco se distinguia dos séculos anteriores; “Volfrâmio” (1943), escrito em tempo real sobre a nossa não-beligerência na II Guerra Mundial, quando alemães e britânicos aqui disputavam o cobiçado minério; e “Quando os Lobos Uivam” (1958), corajoso libelo contra alguns dos aspectos mais aberrantes do Estado Novo, a propósito das reivindicações populares nas Beiras pelo cultivo de baldios. Este romance, que valeu um processo judicial ao autor quase já no fim da vida, contém cenas inesquecíveis, nomeadamente uma carga violentíssima da GNR sobre os camponeses e uma longa audiência no Tribunal Plenário do Porto com páginas em discurso directo que parecem relatos jornalísticos (quando os jornais não podiam escrever sobre tal tema).
      Só “Mónica” (1938) me decepcionou. Talvez não por coincidência, o único destes romances que é ambientado em Lisboa e arredores. Tem uma trama folhetinesca inverosímil.

      1. Grato pelas impressões de leitura. Pistas bem úteis, creia. De “Mónica”, miseravelmente, guardo bem poucas memórias. Por minha falha, entenda-se. Não terei – longe disso -a ousadia de dizer que assim é por demérito do autor. Mas recordarei o que escreve quando a ele regressar.
        Por estes serões tenho em mãos, como ficção, A Capital (a que se referiu em recente postal), num precioso exemplar da segunda edição, de 1926. Vale pelas duas coisas: a obra e o “suporte”.

        1. Bom dia, meu caro.
          “Mónica” é uma tentativa falhada de construção de um «romance urbano» por parte de um autor que estava muito mais à vontade na atmosfera rural, a dos anos da sua infância e juventude.
          É a história de uma adolescente nascida em família da burguesia endinheirada, em Lisboa, que se deixa seduzir por um indivíduo com mais do dobro da idade dela, sem fortuna, apenas vago activista intelectual e militante da oposição ao ainda incipiente salazarismo.
          Às tantas, a jovem – menor de idade – é raptada pelo sujeito. E a partir daí tudo se torna ainda mais inverosímil.

          Mas, tirando este, todos os títulos de Aquilino merecem leitura ou releitura atenta. Prosador inigualável, soube criar atmosferas muito próprias e um vocabulário inconfundível.

          Aprecio-o ainda porque nas obras dele se come e bebe sempre bem: a arte de refeiçoar não é deixada por mãos alheias.
          Ao contrário do que sucede em grande parte da literatura portuguesa do século XX, onde nunca se celebra a arte culinária.

          Existem autores que parecem sentir repugnância pelo acto de comer. Quase todos os neo-realistas, por exemplo. Costumo designá-los pelos autores da «côdea de pão».
          O mais que por lá se petisca é uma velha côdea de pão, por vezes acompanhada por um naco de toucinho quase bolorento.
          Esta fórmula é repetida obra após obra, capítulo após capítulo, página após página.

          1. Agradeço-lhe por estes elementos que com efeito reavivam memórias. A côdea de pão e o toucinho bolorento de facto integram-se num, digamos, “património descritivo” neo-realista. E como tudo aquilo de que se abusa tendem a perder o seu valor, a tornar-se lugar-comum. Uma mera e inevitável fórmula consagrada.

          2. Qualquer dia, quando arranjar paciência, farei aqui uma antologia dessa literatura da côdea de pão.
            Fica prometido. É capaz de valer a pena.

  3. Não é a ternura que sentimos por ele, é a ternura que queremos para nós.
    Nós semos bons, e se outros o são também, que o digam, para serem como nós.
    E se não o disserem? E se não o disserem …

  4. Obrigado por esta referência, Pedro. Como courense de nascimento, conheci bem a Casa Grande, infelizmente em ruinas. Pois vai ter que ser desta que leio o livro; conheço pouca coisa de Aquilino, algo deste romance, das antigas “selectas literárias”, mas nunca o li completo.

    1. Meu caro, como courense terá mesmo de ler a Casa Grande, de mestre Aquilino. E ouso antecipar que vai deliciar-se com a leitura.

      Infelizmente o nosso património vai-se arruinando de lés a lés. Em Caminha, a já decrépita casa natal do Presidente Sidónio Pais estava há poucos anos em “restauro”; quando lá voltei, tinha ruído, sem restauro algum.

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