
Como relatei aqui, tracei como uma das minhas metas de leitura para 2023 a visita, já tardia, a este monumento literário que é Guerra e Paz. Cumprindo, como patamar mínimo, um capítulo por dia: assim chega-se lá.
Pelo menos a meio já cheguei. A meio do romance, o que significa também a meio do segundo dos três volumes. Mais de 600 páginas ficaram para trás. Com 109 personagens até ao momento, se as contas não me falham. Entre elas, o próprio Napoleão Bonaparte – além do imperador russo, Alexandre.
Como também já assinalei aqui, é um romance que exige ser cartografado. Temos de ir elaborando um quadro com as figuras principais e secundárias, que vão entrando e saindo: só assim evitamos perder-nos no imenso emaranhado do enredo.
Regresso ao tema só para assinalar um trecho que ontem li, na página 215 deste segundo volume, a propósito da brutal ofensiva napoleónica contra os russos em 1812. Mesmo à entrada do Livro Três (são quatro no total, com 15 partes).
É o que passo a transcrever – com a devia vénia à memória do tradutor, o filósofo José Marinho:
«No dia 12 de Junho, os exércitos da Europa Ocidental atravessaram a fronteira e a guerra começou: quer dizer que se deu um acontecimento contrário à razão e a toda a natureza humana. Alguns milhões de homens cometeram uns contra os outros quantidade tão considerável de crimes, enganos e traições, roubos, pilhagens, incêndios e morticínios, como a história de todos os tribunais do mundo não comporta durante séculos; e, entretanto, as pessoas que cometiam esses crimes não os consideravam como tais.»
É espantoso, o poder sugestivo da grande literatura. Podemos ler estas linhas, escritas há 160 anos, como se retratassem a guerra que desde 24 de Fevereiro de 2022 dilacera a fronteira oriental da Europa. Com a diferença de que os russos, em vez de agredidos, são desta vez os agressores.
Num acontecimento contrário à razão, como Tolstoi tão justamente escreveu.
O escritor chegou a pensar num título muito diferente para esta obra-prima: Tudo Está Bem Quando Acaba Bem era o que tinha em mente. Optou pela versão mais concisa e solene, sem pista alguma para o desfecho.
Da ficção para a realidade, anseio para que possa ser este o título de um futuro romance em torno da dramática guerra de libertação que os ucranianos hoje travam na sua própria terra. Tudo está bem quando acaba bem.
E que o fim demore menos do que o da Guerra e Paz.

levei imas férias
LA GUERRA E LA PACE
— Ebbene, principe, Genova e Lucca son divenute appannaggio della famiglia Bonaparte. No, vi prevengo, se mi direte ancora che non avremo la guerra, se vi permetterete di assumere le difese di tutte le turpitudini, di
tutti gli orrori perpetrati da quell’Anticristo, – chè per tale lo tengo, in fede mia!
Prefiro ler em português. Já que não sei ler em russo.
“…. guerra que desde 24 de Fevereiro de 2022 dilacera a fronteira oriental da Europa……” ?
Dilacera a fronteira oriental?
A guerra devido à invasão russa é na Ucrânia e longe de ser a fronteira oriental da Europa.
A não ser que se queira encolher a área do Continente Europeu.
Há quanto tempo você não consulta um mapa? A fronteira entre a Ucrânia e a Rússia é a última entre um país inteiramente europeu e um país maioritariamente não-europeu.
A menos que para si a Europa termine na antiga cidade chinesa hoje denominada Vladivostoque.
Não arranje tergiversaçõs, para fugir à “…dilacera a fronteira oriental..”
O assunto é a fronteira oriental da Europa, que como você sabe acaba nos Urais.
A Rússia, no continente europeu, faz fronteira com vários países além da Ucrânia.
Três quartos da Rússia é na Ásia e toda a política externa recente da Rússia tem sido virada para Oriente.
Essa treta dos Urais vale tanto como a Trácia para a Turquia. Que é também, em larguíssima medida, um país asiático.
OK, fica a treta dos Urais.
Agora, como jornalista, é escrever um artigo para milhares de compêndios de geografia irem para lixo, e convencer os geógrafos internacionais que o assunto não é para rir.
Slava Ukraini!
“as pessoas que cometiam esses crimes não os consideravam como tais.»” E os que cometem esses crimes são considerados heróis
Assim é, aos olhos de alguns. Nem precisamos de sair desta caixa de comentários para os encontrar.
não sei se o meu herói Tolstoi ,sabendo que retiraram seu nome de ruas ucranianas e que proibiram guerra e paz nas escolas , gostaria muito deste post associanfo-o à Ucrânia.
A Ucrania enfrenta hoje uma guerra a sério. Não uma “Guerra” literária.
A Paz ainda vem longe.
“Muy significativo es este pasaje del primer capítulo del epílogo de Guerra y paz: “La historia moderna ha situado en sus finalidades, o sea el bien del pueblo, francés, inglés o alemán, y en la abstracción más superior, el bien del género humano, entendiéndose generalmente como tal los pueblos que ocupan un pequeño espacio noroccidental de un gran continente”. El escritor parece decirnos que Occidente no sólo no comprende la civilización rusa, sino que pretende moldear a Rusia a su manera. “
https://www.realinstitutoelcano.org/blog/t olstoi-para-analistas-internacionales/
Ainda não cheguei lá.
Estou a umas 600 páginas do epílogo. Vai passo a passo, capítulo a capítulo.