Ler (18)


Pedro Correia,

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Escrevi aqui, no primeiro dia de 2023, qual era o meu projecto de ano novo em matéria de leituras. Aparentemente simples – ou complexo, depende do ponto de vista. Ler enfim dois monumentos da literatura que tantas vezes vim adiando: Guerra e Paz e Em Busca do Tempo Perdido. Adiantando que o primeiro romance seria minha leitura de Inverno e o segundo seria minha leitura de Verão. 

Só duas obras literárias, portanto. Parece pouco.

O problema é que o romance de Tolstoi tem três volumes, nenhum deles com menos de 400 páginas, e o de Proust é maior ainda: seis volumes. Embora, como especifiquei aqui, do À La Recheche à partida apenas me interessem os primeiros dois – “Do Lado de Swann” e “À Sombra das Raparigas em Flor”.

 

Passo hoje por cá para dizer que tenho cumprido o plano. Graças, em larga medida, a um dos truques que fui aprendendo como leitor já calejado: chova ou faça sol, todos os dias vou lendo um capítulo, não menos que isso. Quase sempre concluo a leitura ao fim desse capítulo, é quanto basta. 

Assim li os 30 capítulos iniciais. Cheguei à segunda parte, eis-me na página 142. Devagar se vai ao longe, apesar de ter percorrido apenas cerca de um terço do primeiro volume. Quase todo decorrido em atmosfera de paz: a guerra (napoleónica) só começa nesta secção do romance onde hoje me encontro. 

Outro aspecto fundamental – que mantive desde o primeiro dia – é acompanhar a leitura com uma espécie de ficha onde identifico as personagens à medida que entram em cena. Tantas princesas e condessas e tantos generais e viscondes baralham-nos de imediato se não tomarmos esta precaução. Fiz isso com vários outros livros – Moby Dick, Mau Tempo no Canal, O Milagre Segundo Salomé – e sempre me dei bem com este processo. Evita que nos baralhemos com tanto nome a irromper página após página.

Os nomes russos confundem ainda mais pois desdobram-se em apelidos diversos e diminutivos íntimos ou familiares.

 

Quando fiz a primeira leitura integral da Bíblia, na segunda metade dos anos 90, segui o mesmo processo: um capítulo diário. Demorei quatro anos, mas valeu a pena.

Ando a revisitá-la agora, em simultâneo com a Guerra e Paz. Mas desta vez recomecei pelo Novo Testamento. O livro do Génesis pode esperar.

É uma excelente forma de mergulharmos em obras que nos parecem inexpugnáveis. Conquistá-las assim – passo a passo, dia a dia.

 

Claro que outras leituras ficam para trás. Excepto as dos meus “livros dos transportes”, para uso exclusivo no metro ou no autocarro. O que anda na rua permanece na mochila, não transita para a mesa de cabeceira. E acreditem: é impensável ler a Guerra e Paz em transportes públicos.

Outros livros vão aguardando oportunidade cá em casa: O Tambor (Günter Grass), A Consciência de Zeno (Italo Svevo), O Príncipe Negro (Iris Murdoch), O Templo da Aurora (Yukio Mishima), Isso Não Pode Acontecer Aqui (Sinclair Lewis), Varanda de Pilatos (Vitorino Nemésio).

Agora percorro Moscovo e Petrogrado – numa era longínqua, em que a Rússia não invadia: era invadida. Ao tempo que isso foi.

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10 comentários em “Ler (18)”

  1. Bom método.
    Muitos anos atrás li o Exodus do Leon Uris entre as 2 da tarde e o nascer do sol do dia seguinte…fiquei de cama e às escuras em todo esse dia!

    1. Acredito. Também li esse livro de uma assentada. Um livro com sopro épico sobre a fundação de Israel – o regresso tão aguardado durante mais de um milénio à Terra Prometida. Com um grito unânime: Holocausto nunca mais.

  2. Eu sou uma apaixonada pela Recherche, que já li três vezes de fio a pavio, e volto lá, com frequência, para reencontrar certas pessoas, para reviver certos momentos. Entro em salões, ouço música, vejo o mar, e mais e mais… Toda aquela atmosfera é inesquecível Não sei o que determina a sua escolha mas, para mim, Do Lado de Swann e À Sombra das Raparigas em Flor são daqueles livros da obra os que mais revisito, juntamente com o terceiro, mas para chegar à explosão de génio que é o reencontro final com o tempo, temo que seja preciso o esforço, que às vezes o é, de ler todos os outros, e depois chega-se lá. Quanto à Gerra e Paz, tal como a Recherche, é obra em que o génio divino tocou o homem. Nem um nem outro se lêem no metro ou no autocarro, nem sequer numa qualquer sala de espera. Escuso de dizer que também lá volto para reviver certos momentos. Como volto aos Maias todos os Invernos e não há Verão em que não vá até à Casa de Ramires, nem que seja numa rápida passagem.
    Pedro Correia, desculpe tantas palavras, entusiasmei-me com as suas leituras. E já agora, vem a propósito, agradeço todas as sua valiosas e generosas sugestões de livros a ler e de autores a conhecer, como agradeço, e muito, tudo o que vem escrevendo no seu blog, de que sou fiel acompanhante.

    1. Muito obrigado pelas suas palavras tão inspiradoras, caríssima Margarida.
      Há muito me habituei a fazer planos de leitura. É a única forma de conseguirmos vencer a inércia, a preguiça, a dispersão, o vazio que se apodera com facilidade do nosso quotidiano.
      Aquelas pessoas que dizem só ler quando têm tempo ou quando lhes apetece são pessoas que simplesmente não lêem.
      Infelizmente 61% dos nossos compatriotas não leram um único livro em 2021. São números que nos envergonham, ainda mais em comparação com os nossos parceiros europeus: essa percentagem, no mesmo ano, foi de 38% em Espanha e apenas de 8% em França.
      Quem não lê coloca-se de imediato num patamar inferior, indigno de um legado cultural de milénios que nos serve de matriz: não esqueçamos que somos herdeiros e tributários da civilização do Livro.

      P. S. – Esse é o Eça que me falta. Quero muito conhecê-lo também este ano, talvez entre Tolstoi e Proust.

  3. Em Busca do Tempo Perdido é altamente deprimente , suponho que foi um êxito na altura por estar cheio de lésbicas e gays.
    Li guerra e paz para aí com 17 anos . Natasha,, Andrei e Pierre , a personagem principal..

    1. Vou agora, só agora, quase a terminar o primeiro dos três volumes.
      Ler assim, à ração mínima de um capítulo diário, corporiza aquele ditado tão português: devagar se vai longe.

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