
Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo é assim: chego a 1 de Janeiro sempre com um plano de leituras. Numa espécie de desafio comigo próprio.
Houve um ano em que me propus ler quase em exclusivo escritores galardoados com o Prémio Nobel. Outro, em que só li obras de autores portugueses publicadas entre 1901 e 2000. Mais recentemente, e com relativo sucesso, imaginei-me a eleger o melhor livro de ficção estrangeira de todos os anos do século XX – o que me forçou a canalizar as leituras nesse sentido, a partir de tal meta imaginária, e quase consegui concretizar o meu propósito (faltam-me três ou quatro anos).
De caminho, fui fazendo descobertas de títulos e até de autores que jamais havia lido ou de todo desconhecia. Tenho na mesa de cabeceira, por exemplo, um candidato a melhor livro de 1923: A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Hoje comecei o dia – e o ano – a ler Jó, de Joseph Roth, possível melhor livro de 1930. É sempre assim: umas obras puxam outras, no seu conjunto vão compondo um quebra-cabeça imaginário.
Questão de método. Ajuda a concentrar, não a dispersar.
Para 2023, o meu objectivo é mais modesto. Contentar-me-ei se concretizar este plano muito sucinto: só tenho dois livros na minha lista. É verdade que ambos se desdobram em vários volumes. Mas são marcos da literatura mundial que até agora me passaram ao lado: Guerra e Paz (vi o filme mas não li o livro) e Em Busca do Tempo Perdido.
Com prioridade absoluta na minha agenda. E até já os dividi por estações do ano: o agreste Tolstoi para o Inverno, o lânguido Proust para o Verão.
Alimento há muito a convicção de que existem obras literárias adequadas a cada ciclo anual: é absurdo lermos O Doutor Jivago, ambientado em extensas estepes geladas, no sufocante estio de Agosto; ou O Deserto dos Tártaros, que decorre em cenário de tórrido calor, à lareira do Inverno. Tal como existem livros próprios para ler de dia ou de noite. Tal como existem livros adequados a transportar connosco e outros que devem permanecer em casa.
Cá os tenho, portanto. Prioridade absoluta para Guerra e Paz: três volumes da extinta Editorial Inquérito, com tradução do filósofo José Marinho. Seguem-se – quando o calor apertar – os seis volumes do Tempo Perdido, com chancela Relógio d’Água e tradução do poeta Pedro Tamen, há pouco falecido. Neste caso, confesso, parto apenas com a ambição de ler os dois primeiros, aqueles que realmente me interessam: “Do Lado de Swann” e “À Sombra das Raparigas em Flor”.
Será preciso tempo: meia hora diária, pelo menos. E concentração – dom cada vez mais raro e precioso. E o tal método. Sem aquele péssimo hábito muito português que leva tantos a dizer «só leio quando me apetece» ou «só costumo ler quando preciso de relaxar» enquanto se dispersam em inutilidades sem préstimo algum. E relegam o nosso país para um dos piores índices de leitura no continente a que pertencemos: 61% não abriram um livro em 2022.
Números que deviam envergonhar-nos enquanto europeus. Sou capaz de apostar, porém, que alguns por cá até se riem destas estatísticas. Prestam tributo à ignorância e fazem gala disso.

«só costumo ler quando preciso de relaxar»
Um Nostradamus, para fazer jus ao nome, só precisa de ler nas estrelas. Nada mais.
quando deixei de trabalhar para aquecer desatei a ler tudo o que sempre desejei e mão pude por falta de tempo. poucos romances e muitos contos.
prefiro temas greco-romanos. publiquei 7 livros sobre vários temas: 2 irão para a Net muito provavelmente.
abri há dias a excepção de reler «o asno de ouro de Lúcio Apuleio» por ser actual
Faz muito bem. Ler também é actividade, ao contrário do que muitos supõem. Importa estimular as células cerebrais em todas as fases da vida.
Bom dia e bom ano.
Depois ds leitura do texto, acho (lá estou eu a “achar”) que vou voltar aos Lusíadas para descansar a cabeça e o espírito dos “heróis” actuais
Um livro que todos os portugueses deviam ler ao menos uma vez na vida. Camões praticamente inventa a identidade nacional e molda todo um imaginário que chegou aos nossos dias e ultrapassará o nosso tempo.
Um dos livros que tenho sublinhados do princípio ao fim.
Bom ano, António.
A identidade nacional já existia desde 1384 e Camões não inventou nada dela. Quando muito, deu-lhe uma versão erudita.
Bom Ano Novo para si também.
(Chega aqui com a linguagem velha de sempre. Sem cumprir os mínimos de civilidade.)
aos portugueses faltam: civismo, persistência, disciplina
Sim, mas não só a nós. Aos povos latinos em geral.
Não possuo a disciplina necessária para um plano de leitura, mas tenho como objectivo para 2023 ler mais do que em 2022. É um objectivo muito modesto – foi um péssimo ano de leituras. Preciso de recuperar o ritmo.
Votos de bom Ano Novo, Pedro!
Viva, João.
Bom Ano para ti também.
Se cada um de nós “roubar” meia hora diária para a leitura, sacrificando outras tarefas muitas vezes menos gratificantes, tenho a certeza de que 2023 será um ano melhor para todos.
(Infelizmente, verifico cada vez mais à minha volta que o chamado tempo livre é consumido na partilha de anedotas e vídeos palermas nas redes sociais.)
Havia o hábito de leitura diário, ler o jornal, principalmente o da tarde que trazia notícias actualizadas.
Criava-se o hábito de ir para o Café, antes do jantar, ler o jornal. Depois, com a mudança de morada, o hábito passava para o transporte público, principalmente o comboio.
Como hábito da leitura do jornal, comprava-se livros.
Eu, em média, ando cerca de hora e meia diária em transportes. Uso esse período quase sempre para ler um livro. Aquilo a que chamo “livro dos transportes”. Só anda na mochila.
De três em três semanas, está um livro lido.
Enquanto à minha volta não falta gente a ver vídeos de gatinhos e a ler ‘chats’ com anedotas do tempo da Maria Cachucha.
Nos inquéritos, estas pessoas são capazes de dizer que não abriram um livro durante um ano inteiro por “falta de tempo”.
Julgo que foi em 1971, algumas pessoas apareceram na rua, em andamento ou simplesmente paradas, nas paragens e nos transportes públicos a proceder como agora os viciados nos telemóveis.
Essas pessoas, embrenhados na leitura de um livro riam-se à gargalhada. Tal como eu, andava a ler “O Valente soldado Chveik”, dos livros de bolso da Europa América.
Melhor romance universal de 1921, na minha lista.
Levo 10 minutos de metro até ao trabalho; normalmente aproveito para ouvir música. Li imenso no 742 quando vivia na Boa Hora e tinha de o apanhar todos os dias. Hoje em dia, leitura em transportes só no comboio quando visito a aldeia, e mesmo isso terá os dias contados, espero, que vai sendo tempo de me deslocar por mim mesmo (terei saudades das duas horas de leitura, mas não dos atrasos, das greves, das supressões).
Mas sim, meia hora por dia para começar é a excelente ideia.
É quanto basta, João. Depois, se aquilo que lemos nos interessa mesmo e nos envolve cada vez mais, esse tempo pode aumentar naturalmente.
O filósofo José Marinho era licenciado em filologia românica. Ele traduziu Guerra e Paz do russo ou do francês?
Bom Ano para si também. Boas investigações no IST.
O meu plano de leituras (planos, melhor dizendo) é anárquico. E é quantitativo – muito me ajudam as “redes sociais” bibliófilas em que estou inscrito (Goodreads, a nova StoryGraph e a francófona Babelio). As duas primeiras têm mesmo um “desafio de leituras” anual -. colocamos um número de livros para ler no ano e isso dá um incentivo para irmos completando as leituras. Normalmente fico um pouco abaixo do que me propus. Hoje mesmo estabeleci a fasquia quantitativa para o 23, aumentando-a ligeiramente em relação aos anos transactos: 130. Claro que isso inclui opúsculos, breves ensaios, colectâneas colectivas das quais só alguns artigos me são interessantes (mas os outros ficam identificados), banda desenhada (agora dita “romances gráficos”), coisas de conclusão mais rápida, ou cartapácios como estes que aqui anuncias… Mas neste teu registo tenho duas “obrigações” para 23: “A Guerra dos Judeus” de Flávio Josefo (meu homónimo), que já prometera para o ano anterior, e a “Divina Comédia”, idem.
Pois, assim – com esses incentivos – é que se vai lá.
Durante anos também fui anárquico nas minhas leituras. Sempre li muito, o que vinha parar à mão, o que calhava, o que dava jeito, a primeira coisa que aparecia. Enfim, à portuguesa.
Com o rodar do tempo fui percebendo que convém planificar minimamente aquilo que lemos. Começando por fazer uma pequena lista daquilo que gostaríamos de ler sem que isso tenha acontecido. Fiz assim com a Bíblia, há mais de 20 anos: um capítulo por dia. Seis anos depois, estava toda lida.
Uma boa biblioteca pública – há muitas, felizmente, em Portugal – resolve em grande parte tais lacunas. Sem gastos adicionais. Sou cliente da biblioteca do Palácio Galveias, ao Campo Pequeno (Lisboa), e abasteci-me em 2022 com bons livros, escolhidos cirurgicamente lá. Além disso o mercado de livros em segunda mão, e não me refiro apenas aos alfarrabistas, está em expansão crescente. Com preços imbatíveis. A ‘Guerra e Paz’ custou-me o equivalente a mês e meio de edições do ‘Expresso’.
Vale a pena? Claro que vale.
Boas opções, as tuas para 2023. Mais vale assim. Poucas mas consistentes.
a ver se blogarei mais sobre os livros que lerei – pois, mesmo sem cair na tentação de sobre tudo fazer recensões, é uma forma de adensar a leitura.
Pois é. Também estimula.
Bom ano, Pedro Correia e restantes delituosos.
Iniciei 2023 com o 2° volume de O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. Tão bom como o 1° e a prometer o 3° . Cá continuamos, agora que a reforma me permitiu mais tempo, a fazer do livro um companheiro constante. Abraço
Fernando Antolin
Viva, caro Fernando. Você já é um “delituoso” honorário.
Bom ano, boas leituras, muita saúde no ano que agora começa.
Abraço.
Os dois livros que escolheu também já foram minhas escolhas noutros natais. O primeiro comecei com uma folha de papel ao lado para não me esquecer dos personagens. Mas desisti. A minha tradução era má e a edição ainda pior. Mas já tenho quem me empreste a versão de que fala. Quanto ao Proust, li o primeiro volume e parte do segundo. Tenho essa edição de que fala e vou reciclar a anterior. Interrompi por preguiça mental e indisciplina e porque foram surgindo outros apetites. Mas um verão nao chega para 6 volumes.
Tenho a certeza que não chega. Mas como saliento no texto, interessa-me sobretudo ler os dois primeiros volumes. Mesmo assim são cerca de 800 páginas. E Proust não é nada fácil de ler: tem frases muito extensas e parágrafos enormes.
Sim. Por exemplo para descrever as folhas de chá numa chávena temis um extenso parágrafo de várias linhas. É preciso paciência e querer mesmo ler. Mas é surpreendente como nos reconhecemos ou a alguém nas suas descrições. Não sou perita gosto apenas de ler.
Também por isso, para mim é um objectivo de Verão. Os dias são maiores, o tempo avoluma-se, a disponibilidade também.