Ler (14)


Pedro Correia,

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Não sei o que se ensina nos cursos de escrita criativa que agora proliferam como cogumelos. Sei, sim, como se prende a atenção de um leitor – pela experiência de quatro décadas a escrever em jornais, revistas e blogues. Além da minha própria experiência enquanto autor de livros e leitor atento dos mais diversos géneros literários – romance, conto, poesia, teatro, ensaio, biografia, diário…

A frase de abertura deve suscitar-nos a atenção por algo insólito, divertido ou inquietante. Imagine-se que eu inicio um texto com esta, inventada agora, ao correr da pena: «Três horas antes de morrer, da forma mais inesperada, Marcelo K. tomou um pequeno-almoço rápido, como sempre fazia, e desceu à rua cantarolando uma ária de ópera que lhe recordava as remotas tardes do Verão da infância rural no solar da avó.»

 

Está introduzido desde logo um elemento de suspense: vai ocorrer uma morte súbita. Temos essa certeza desde as primeiras palavras. Surge uma personagem com a qual tenderemos a identificar-nos – apresentada pelo nome próprio, o que lhe confere uma sugestão de intimidade, embora com apelido oculto.

Em poucas frases, diz-se muito. Sobre a idade aproximada da figura em causa (elemento que nos é fornecido pelo “remoto”), o seu nível de instrução (referência à ópera), o seu meio social (alusão ao “solar” de família), a sua aparente inserção num meio urbano (por contraposição implícita ao adjectivo “rural”). 

O que sucederá a Marcelo K.? A narrativa posterior deverá enquadrar-se nos parâmetros iniciais para manter dois elementos necessários à ficção literária: a verosimilhança (que não deve confundir-se com “realismo” ou naturalismo) e uma certa coerência interna, na medida em que o exercício de escrita se destina, no essencial, a ordenar um caos.

A letra K não surge por acaso. Levando os mais atentos e esclarecidos a uma associação imediata ao universo kafkiano, com a sua teia concentracionária, polvilhada de inimigos invisíveis. É um elemento suplementar de sedução do leitor, elevando a fasquia da exigência.

 

A escolha de uma frase para abrir qualquer texto, longo ou curto, nunca deve ser deixada ao acaso ou aos supostos caprichos da “inspiração”. Requer experiência, traquejo, “oficina”. Tal como um título.

Tomemos três exemplos de títulos: “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Este País Não é Para Velhos”, “Crónica de uma Morte Anunciada”. Fortes e sugestivos, todos eles. Mas passaram a servir de mote até à náusea para os mais variados e disparatados títulos de imprensa neles inspirados. O que era engenho e surpreendia pela novidade tornou-se enjoativo lugar-comum.

Um título pode ser poético (“O Imenso Adeus”) ou insólito (“A Rosa Púrpura do Cairo”) ou nostálgico (“A Colina da Saudade”) ou perturbante (“O Lugar do Morto”) ou sombrio (“Crime e Castigo”) ou retumbante (“Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”). Mas precisa de fugir à banalidade: só assim capta realmente a atenção do leitor.

 

Há uma semana deparei com uma crónica do jornalista Jorge Bustos, na sua coluna da última página do diário El Mundo. Intitulava-se “50 segundos” e começava assim: «Um homem aguarda num carro. O homem é chefe do Governo e o carro é o Audi blindado que o transporta quando não segue de avião ou helicóptero.»

Li de rajada. Técnica literária num texto jornalístico que nada tinha de rotineiro ou previsível. Só no fim ficamos a saber o motivo daquele título. Pode o cronista sentir-se satisfeito: o leitor foi conquistado à primeira vista.

22 comentários em “Ler (14)”

  1. Interessante. Aprendi algo semelhante, quando estudei publicidade. Fui aconselhada a não seguir a profissão. Tenho tendência, natural, a fugir de prisões mentais e sinto desconforto em “prender”.
    Leio, textos ou livros, pela questão abordada. Escrevo sobre questões impopulares. Li a sua publicação por “ler”.

    1. Escrever sobre “questões impopulares” não significa que não queiramos ou não saibamos chamar a atenção de quem possa vir a ler-nos.
      Não se trata apenas de técnica de escrita. Tem a ver com estilo, com vocabulário – e, claro, com ideias. Tudo junto.
      Erros ortográficos, frases intermináveis, orações subordinadas encaixadas na oração principal, muitas vírgulas em vez de pontos finais. Eis alguns condimentos que podem contribuir para que ninguém nos leia.

        1. Pode ter, mas não é por aí que me interessa ir.
          Interessa-me apenas centrar na escrita, não nos nomes de quem escreve.
          Qualquer pessoa anónima pode escrever de forma muito competente ou até irrepreensível.
          Daí não ter recorrido a nenhuma citação de um romancista consagrado, português ou estrangeiro.

  2. Bom post. Agora que o jornalismo foi chão que já deu uvas, o Pedro Correia pode dedicar-se ao ensino de escrita criativa.

    1. Nem sempre sai bem à primeira, Cristina. O que parece espontâneo por vezes resulta de muito trabalho.
      Mas é um trabalho que vale a pena. Por poder fazer a diferença para que um texto nosso atraia quem lê. Seja em que suporte for.

  3. Muito bom, Pedro.
    Sem nunca ter pensado muito nisso, sempre pensei que os cursos de escrita criativa tenderiam a prejudicar o estilo de cada um, sacrificando a originalidade e colocando todo o mundo a escrever do mesmo jeito.
    Provavelmente, estarei enganada, penso agora. Achei o seu post muito interessante e verdadeiramente útil para quem se propõe escrever. Parabéns!

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