Leituras para o resto do ano


Pedro Correia,

 

Numa das últimas passagens de ano, decidi que nos meses seguintes leria apenas clássicos da literatura. Foi uma boa resolução de Ano Novo, que de algum modo me disciplinou o habitual fluxo anárquico de leituras, canalizando-o numa direcção muito precisa.

Para 2014 voltei a impor uma regra a mim próprio: este ano praticamente só lerei autores galardoados com o Prémio Nobel. É uma forma eficaz de colmatar várias das minhas lacunas neste domínio. E de que tive consciência há cerca de meio ano, a partir de um diálogo a três vozes travado com uma leitora e um colega de blogue numa caixa de comentários do DELITO DE OPINIÃO.

Falava-se precisamente de escritores premiados com o Nobel quando me lembrei de contabilizar quantos destes autores já eu conhecia como leitor (valendo, nesta contabilidade, não simples trechos mas obras lidas do princípio ao fim). Apenas 27: tinha a noção de que seriam mais. No diálogo que então se estabeleceu fiquei a saber que ele já tinha lido 34 e ela 42.

Esta informação funcionou para mim como um incentivo suplementar. Daí à resolução de Ano Novo, foi um curto passo. Aliás iniciado ainda em 2013.

 

De então para cá li nove obras de autores que receberam o Nobel: Genitrix e Teresa Desqueyroux (ambas de François Mauriac), O Meu Século (Günter Grass), O Anão (Pär Lagerkvist), Platero e Eu (Juan Ramón Jiménez), A Oitava Mulher do Barba-Azul (Anatole France), A Noite (José Saramago), O Falecido Mattia Pascal (Luigi Pirandello) e Uma Questão Pessoal (Kenzaburo Oe).

Vários outros estão já em lista de espera: o ano promete ser de muitas e variadas leituras. Entretanto, os 27 nomes que constavam daquela minha lista aumentaram para 34.

E tudo começou com uma descontraída troca de impressões aqui no blogue. Às vezes é quanto basta para concretizarmos uma intenção que só aguarda afinal um bom pretexto para se tornar realidade.

20 comentários em “Leituras para o resto do ano”

  1. Pedro, estou agora a ler o ‘Mistérios’ do Knut Hamsun e tenho o ‘Sino da Islândia’ do Laxness em lista de espera, bem como o ‘Vidas de Raparigas e Mulheres’ da Alice Munro.
    Mas não prometi ler só autores galardoados com o Nobel, por aqui reina a mais completa anarquia, e também o desespero de não conseguir ler tudo o que gostaria de ler…
    Estou agora a olhar para o Barril Mágico, do Malamud e para o ‘Além da Literatura’ do João Bigotte Chorão, já para não falar (mas falando) do ‘Génio’ do Bloom.
    Enfim, o que é preciso é calma (e dias com mais de 24 horas, claro).
    Óptimas leituras!
    🙂 Antonieta

    1. Viva, Antonieta. Nem de propósito, pois é uma das pessoas a que faço referência.
      Reservei de facto 2014 para os Nobeis, mas das intenções à prática às vezes vai alguma diferença. Apeteceu-me entretanto reler ‘A Guerra Civil de Espanha’, de Hugh Thomas: já terminei, apesar de ter mais de 500 páginas. Gostei tanto como da primeira vez.
      Mas em fila de espera lá estão os Nobeis: Oe, Munro, Kawabata, Vargas Llosa, Laxness, Canetti, Mahfouz, Anatole France, Le Clézio, Pamuk, Isaac Singer, Cholokov, Shaw, Sartre, Angel Asturias…

      1. Olá, Pedro.
        Realmente pensei que talvez se estivesse a referir a mim…
        Com o Hamsun vou chegar aos 51.
        Do Bashevis Singer li (e tenho) o ‘Inimigos, uma história de amor’, e também vi o filme com a Anjelica Huston e a Lena Olin.
        De Canetti, Cholokov e Asturias nunca li nada.
        Quanto às Senhoras Nobel (apenas 11) nunca li Gabriela Mistral (1945) nem Nelly Sachs (1966).
        Tudo isto começou com um folheto da Fnac a comemorar os 100 anos do Nobel, que resultou na separação de todos os meus livros destes autores para uma estante separada e ordenados cronologicamente.
        Mas acho que tenho mais autores favoritos entre os que nunca receberam este prémio.
        Bom domingo!
        🙂 Antonieta

      2. Uma rectificação, Pedro, afinal as Nobel Ladies foram 13. Escaparam-me a Grazia Deledda (1926) e a Sigrid Undset (1928) e destas, confesso, não só não li nada como nem sequer ouvi falar.
        🙁 Antonieta

  2. Também tenho uma lista de livros (e autores), o próximo é «Os Filhos da Meia-Noite» de Salman Rushdie. Dos que referiu estão lá alguns, mas com obras diferentes: (1) «O Tambor de Lata» de Gunter Grass; «Seis Personagens à Procura de um Autor» de Luigi Pirandello; e (3) «Ensaio Sobre a Cegueira» de José Saramago. Destes só li Saramago. Nunca pensei numa lista ligada aos prémios Nobel. Tive curiosidade em ver quantos tinha lido. Poucos: Faulkner, Hemingway, García Márquez, Golding e Saramago. Dos que ganharam o Nobel e que quero definitivamente ler: Selma Lagerlof, Thomas Mann, Albert Camus, John Steinbeck, Samuel Beckett e Heinrich Boll. O problema destes prémios é o seu presente carácter político. Duvido que queira alguma vez ler muitos deles. Existem outros grandes escritores que nunca receberam o prémio e que depois de os ler entraram no meu «panteão literário». Para mencionar apenas alguns: Fernando Pessoa, Virginia Woolf, Somerset Maugham, Hugo Pratt e Tolkin.

    1. Sim, Miguel. Tenho escrito muito sobre este tema da falta de pontaria da Academia Nobel para consagrar alguns dos melhores escritores do século XX. Borges é talvez a omissão mais chocante. Mas há muitos outros – de Graham Greene a Nabokov, de Joyce a Marcel Proust, de Conrad a Henry James, de Cortázar a Jorge Amado.
      Estas resoluções de ano novo funcionam para mim como meio de disciplinar e organizar leituras. Aconteceu naquele ano em que decidi ler apenas autores clássicos. E está a acontecer este ano, em que decidi ler somente escritores que tenham sido galardoados com o Nobel.
      No fundo é um truque, como qualquer outro, para estimular ainda mais o gosto pela leitura. Comigo funciona. Talvez com outras pessoas não funcione. Cada um saberá.

    2. Caro Miguel R, de facto a Academia ignorou muitos grandes escritores, mas convém sabermos distinguir entre fortes candidatos e candidatos que, não obstante o seu talento, nunca tiveram grandes oportunidades de o receber. Fernando Pessoa? Ele morreu praticamente desconhecido em Portugal, porque haveriam os suecos de o conhecer em 1935? Somerset Maugham, por cujo Da Servidão Humana tenho grande estima, foi sempre considerado um escritor comercial, um bom contador mas não um génio literário, estigma que não lhe fez favores. Tolkien, idem, mais o facto de ser um escritor de fantasia. E o Hugo Pratt, cujos livros de Corto Maltese amo, teria sido um formidável pioneiro se tivesse recebido um galardão como o Nobel por uma obra de banda desenhada, que sofre de terríveis preconceitos.

      A Virginia Woolf, a meu ver, foi o único da sua lista com boas hipóteses. Mas como não nutro qualquer amor pela sua obra, não me incomoda nada a omissão.

      1. Não foi minha intenção referir que a Academia os devia ter galardoado. Eu como leitor é que sigo outros critérios. Melhor, há bastante mais para lá dos prémios Nobel. Desde que não fiquemos aí, nem tenhamos preconceito para com eles.

  3. Também tenho vários projectos literários, entre eles justamente ler pelo menos um livro de cada laureado Nobel, tarefa árdua posto que alguns não estão disponíveis em nenhuma das línguas que leio. Este post levou-me a actualizar a minha lista, pois lembrei-me que este ano li Ivo Andric. Assim, em jeito de me pavonear, apraz-me declarar que já li 57 laureados Nobel, cada um com uma obra lida de cabo a rabo.

    E ainda que não seja um número avultado, não tenho pejo de dizer que as escolhas da Academia, na sua maioria, pouco me dizem. Para cada Saramgo, Vargas Llosa, Fo, O’Neill, García Márquez, há um Saint-John Perse ou Pearl S. Buck ou Ivo Andric ou Nelly Sachs ou Gao Xingjian que me deixa estabanado com a fraca qualidade da sua escrita.

    1. Eu gosto destas trocas de impressões sobre livros, para mim sempre estimulantes.
      Você ganha-me claramente neste ‘campeonato’, Miguel. Mas no fim do ano a diferença entre nós, julgo eu, já não será tão grande.
      O seu apontamento fez-me reflectir sobre os autores galardoados com o Nobel de que mais gosto. Alinhei-os assim, por ordem cronológica (há muitas outras possíveis, mas agora apeteceu-me esta):
      Anos 1900 – Rudyard Kipling
      Anos 1910 – (não li nenhum)
      Anos 1920 – Knut Hamsun
      Anos 1930 – Sinclair Lewis
      Anos 1940 – William Faulkner
      Anos 1950 – Albert Camus e Ernest Hemingway
      Anos 1960 – Samuel Beckett
      Anos 1970 – Aleksandr Soljenitsine
      Anos 1980 – Gabriel García Márquez
      Anos 1990 – Kenzaburo Oe
      Anos 2000 – V. S. Naipaul
      Anos 2010 – Mario Vargas Llosa

      1. Pedro, se continuar a ler os laureados durante o ano, é bem provável que me ultrapasse, até porque segundo a minha lista de livros para ler não há nenhum à vista. Talvez me muna na Feira do Livro, ando para comprar a edição de bolso do romance de Juan Ramón Jiménez, o tal com o burro.

        1. ‘Platero e Eu’: conhecia trechos de um livro escolar, lidos há muitos anos, mas só há meses li a obra completa, numa boa edição Livros do Brasil (ainda pré-aborto ortográfico).
          Prosa poética, essencialmente.
          J Ramón Jiménez, Nobel de 1956. A década com mais autores premiados pela Academia sueca com obras que já pude ler. Sete em dez: Russell, Lagerkvist, Mauriac, Churchill, Hemingway, JRJ, Camus.

          1. As minhas décadas mais fecundas são os anos 80, 90 e a primeira deste jovem século. Deixo aqui a lista:

            1905: Henryk Sienkiewicz
            1907: Rudyard Kipling
            1909: Selma Lagerlöf
            1913: Rabindranath Tagore
            1921: Anatole France
            1923: William Butler Yeats
            1925: George Bernard Shaw
            1929: Thomas Mann
            1932: John Galsworthy
            1934: Luigi Pirandello
            1936: Eugene O’Neill
            1938: Pearl S. Buck
            1946: Hermann Hesse
            1947: André Gide
            1948: T.S. Eliot
            1950: Bertrand Russell
            1957: Albert Camus
            1958: Boris Pasternak
            1960: Saint-John Perse
            1961: Ivo Andrić
            1962: John Steinbeck
            1963: Giórgos Seféris
            1964: Jean-Paul Sartre
            1966: Nelly Sachs
            1967: Miguel Ángel Astúrias
            1969: Samuel Beckett
            1970: Alexander Soljenítsin
            1971: Pablo Neruda
            1972: Heinrich Böll
            1974: Harry Martinson
            1976: Saul Bellow
            1978: Isaac Bashevis Singer
            1980: Czesław Miłosz
            1981: Elias Canetti
            1982: Gabriel García Márquez
            1983: William Golding
            1984: Jaroslav Seifert
            1986: Wole Soyinka
            1988: Naguib Mahfouz
            1989: Camilo José Cela
            1990: Octavio Paz
            1992: Derek Walcott
            1993: Toni Morrison
            1995: Seamus Heaney
            1996: Wisława Szymborska
            1997: Dario Fo
            1998: José Saramago
            1999: Günter Grass
            2000: Gao Xingjian
            2001: V.S. Naipaul
            2002: Imre Kertész
            2003: J.M. Coetzee
            2004: Elfriede Jelinek
            2005: Harold Pinter
            2006: Orhan Pamuk
            2007: Doris Lessing
            2010: Mario Vargas Llosa

          2. Olá, Miguel.
            Gostei muito desta sua lista e nela constam muitos autores que eu nunca li, a saber: Pirandello, O’Neill, Russell, Andric, Seféris, Sachs, Astúrias, Böll, Martinson, Milosz, Canetti, Seifert, Soyinka, Walcott e Heaney.
            Por outro lado, eu já li Hamsun, Laxness, Jimenéz, Kawabata, Nadine Gordimer, Kenzaburo Oe, Le Clézio, Herta Müller e Alice Munro.
            Já sei que não gostou da Nelly Sachs mas, só por curiosidade, o que é que leu dela?
            O meu projecto agora é ler todas as autoras laureadas, talvez mais facilmente concretizável, uma vez que só me faltam 4.
            Óptimas leituras!
            🙂 Antonieta

          3. Ainda bem que o tema continua, Pedro.
            Da década de 50 li 6 em 10, faltam-me Russell, Lagerkvist, Churchill e Quasimodo.
            Mas os anos mais fecundos para mim são os últimos 16 – desde o nosso Nobel em 98 apenas não li Tranströmer (só poemas dispersos) e Mo Yan.
            Em contrapartida, de alguns destes autores (Pamuk, Lessing, Le Clézio, Müller, Llosa e Munro) li várias obras.
            Agora vou analisar a lista do Miguel, até agora o nosso campeão.
            🙂 Antonieta

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