Leituras e Literatura


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Desde há pouco que acompanho no Facebook o fervilhante grupo “Mostra o que estás a ler...” (43 mil membros, e em crescendo) e tem sido interessante. Porque vem ao contrário da ideia feita, e tão propalada, de que “já ninguém lê”. Porque se vê uma heterogeneidade de gostos – na leitura de ficção, que outras áreas raramente são aludidas. E porque há imensas referências a autores portugueses, muitos dos quais desconheço. Vários destes são desvalorizados como literatura “lite”, por gente que decerto tem consumos “lite” nas artes plásticas e, em especial, na música. Mas que não percebe a contradição tida nas poses literárias altaneiras, e até acintosas, que decide assumir. 

Outra matéria interessante naquele grupo é a frequência de afirmações ou remoques normativos sobre o que é “literatura”, o “dever ser” do leitor, discussões que eu já não assistia há muito tempo. A este propósito lembro-me de uma sessão em Maputo sobre leituras e literatura, há cerca de uma década. O público era vasto, pejado de estudantes e jovens literatos. No debate final um dos jovens perguntou ao trio de palestrantes “o que se deve ler?”. Estes, sábios, evitaram emitir um cânone e elaboraram sobre os rumos das apetências e maturidades individuais. Do fundo da sala pedi para intervir. E disse que isto é como a alimentação, um tipo deve comer de tudo, e insistir um pouco para se habituar a alguns alimentos que tenha estranhado. E deve variar o cardápio, não ficar agarrado a uma dieta estreita. Isto tudo sem manias de grandeza – e exemplifiquei esta abrangência virtuosa com o facto de eu adorar as singelas omeletes (simples, mistas de tomate e cebola, com queijo e/ou fiambre, de camarão) do célebre restaurante Piripiri. Ou seja, podia comer um prato excêntrico, rico, uma matapada moçambicana ou um rebuscado pitéu lusitano. Mas depois, mais dia menos dia, lá ia eu à omelete (e imperial…). Um dos palestrantes, ainda muito recente em Moçambique, um excepcional professor de Português e que acabara de publicar o seu primeiro romance, gostou do que ouviu. E fomos os dois jantar ao Piripiri. Omelete, claro…

Nada disto implica que não possamos “catalogar” e mesmo “desqualificar” o que comemos. Afixar os nossos gostos, anunciar uma bela receita, propagandear um bom restaurante. Ou avisar de um péssimo serviço ou jurar que “não como pezinhos de porco”. Tal como com os livros. Mas é muito difícil, e espúrio, “definir” o que é bom. Por mais que os profissionais o queiram fazer e os amadores atrevidos também… Tem mesmo a ver com os rumos de cada um.

Ontem fui surpreendido por uma encomenda postal, remetida por uma querida amiga que há décadas vive no estrangeiro. Há meses faláramos ao telefone, também sobre bons “livros de viagens” – eu estava a reler o magnífico “Desmedida“, o Brasil de Ruy Duarte de Carvalho e tinha sido ofertado com o esplêndido “Magdalena: Historias de Colombia” de Wade Davis. A esse propósito a minha amiga recordou alguns livros do “género” que tinha apreciado. E enviou-me estes “From the Holy Ground: a Journey in the Shadow of Byzantium“, do britânico William Dalrymple, e “The Sign of the Cross: Travels in Catholic Europe“, do irlandês Colm Tóibín. Acompanhados de um postal, fazendo votos de que “os livros não tenham envelhecido”, pois lera-os já há bastante tempo (são de 1997 e 1995, respectivamente). Eu desconhecia os autores – fui pesquisar, constatando que são renomados (e muito premiados). 

É óbvio que nesta véspera das omnipresentes Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa, e ainda que ateu, não deixei de sorrir diante do “The Sign of the Cross” de Tóibín, anunciado como relato de 4 anos de viagens pelo catolicismo europeu… De imediato o encetei, para ver se me agradava. E na inicial página 2 apanho isto: “I was an altar boy there and I accompanied the priest with a patten as he gave out communion to the faithful. And thus I got to see everyone’s tongue at close range. Some stuck it out with great force as though it was a leather strap; others were timid about sticking it out as though it was as intimate part of their body which they preferred to keep hiden. Some had broad flat tongues, the shape of a piece of sole or plaice; others had narrow, thick tongues. And each tongue had a different texture – small wrinkles and indentations filled the surface – and each person had a different colour tongue, pink, for example (some were pure pink), with eddies of brown and grey. Some people had trouble keeping their tongue stuck out, despite their best intentions, and would draw it back in, as though someone was going to commit some ofence against it, and the priest would stand and wait until it ventured out again. And I would stand there too, watching.” (2-3).

E logo fiquei sem dúvidas. Este é mesmo o material literário de que eu gosto, a refeição que me saciará – mesmo que me venha a desiludir com o livro. Nem sei ter argumentos sobre isso: é o seu olhar e o seu ritmo, feitos odor. E o tacto, moldando, acariciando ou ferindo. E isto, o gosto, tem a ver com cada um de nós, o rumo próprio feito sensibilidade. No qual se devem ouvir os doutores, os da liberdade, que não querem impor “gostos”. E abominar os “doutores” normativos.

9 comentários em “Leituras e Literatura”

  1. O postal vale sempre 300 paus.
    Agora em que ficamos: omoleta ou omolette.
    Omolete é para ementas do estilo costoletas na brasa ou nero no forno.

    1. V. agora apanha-me descalço, no sentido em que nunca havia pensado no assunto. Mas assim confrontado face à minha adesão à empiria, ao uso corrente condigno a nós-povo, fui informar-me junto dos doutos: não estava nem estou mal – https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/a-pronuncia-de-omeleteomeleta/32752

          1. também digo omelete. mas uma omelete não é uma coisa simples se não acredita, pergunte ao poirot , especialista em omelette aux fines herbes..a omelete perfeita é com ele!
            nesse grupo às vezes andam à batatada, não consigo perceber como se zangam por gostos. e também não conheço grande parte dos autores portugueses. .

          2. tem razão, marina, a vontade, o afã mesmo, das pessoas em protestar uns com os outros é pujante. Mas pelo menos ali a grande maioria está entusiasmada a mostrar o que está a ler…

  2. Dizes bem. Leitura é matéria propícia a ademanes pseudo-culturais, no fundo mera pose social. De gente que noutras áreas não tem pejo em confessar apreço condescendente por aquilo que designa de “baixa cultura”, sem esperança de remissão revolucionária – ocorrendo aqui uma espécie de luta de classes invertida, em que os poderosos esmagam sempre os ‘sans-culottes’ (vai em francês para me associar ao espírito).
    Mas alguns, mais intransigentes, dir-te-ão que só escutam Bach ou Bartók e alambazam-se com caviar (‘la divine gauche’) abominando sardinhas assadas ou franguinho no churrasco. Ou, em década já remota, diriam ouvir apenas Pink Floyd porque os Abba eram “p’ra gente rasca”. Disso fazem senha de identidade, batendo no peito à Tarzan – ou amparando a testa com a mão, simulando reflexão profunda.

    Quanto a gostos, obviamente discutem-se – contrariando o adágio. Aqui, conforme os dias, oscilo entre o ultraliberalismo (tudo quanto vem à rede é peixe, tudo quanto surge em letra tipográfica é defensável por estimular hábitos de leitura) e o combate ao relativismo extremo (sou incapaz de equiparar Eça de Queiroz a Rodrigues dos Santos). O cânone ajuda a abrir trilhos e é útil na separação do trigo do joio, sábia metáfora bíblica.

    Quanto a Tóibín: merece vénia. Até já o recomendei aqui.
    https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/leituras-10365596
    Soberbo romance, justamente laureado, sobre o choque cultural sentido por uma emigrante da Irlanda rural na metrópole novaiorquina. Que gerou magnífico filme homónimo:
    https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-226-9940640
    Com a talentosíssima Saoirse Ronan, pertencente a minoria que urge preservar, havendo já ONG criada para o efeito no DELITO DE OPINIÃO:
    https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/solidario-com-as-minorias-15954683

    1. Pois concordamos. É evidente que todos nos encenamos – e por definição um bloguista é um encenador de si mesmo. Mas é fastidiosa esta fúria de (a)parecer “culto”, gritando contra tipos de literatura “inaceitáveis” (ainda por cima quando há décadas que se escreveu sobre a relevância da antiga “literatura de cordel” e quando “toda a gente” lê como “literatura” “clássica” os folhetins de XIX….). E, como ambos dizemos, depois vão ouvir rock ou cantautores ou quejandos. Ou gostam (e até têm reproduções afixadas em casa) de umas paisagens ou de abstraccionistas de trazer por casa… E nem sequer percebem a contradição.

      De facto podemos gostar de (quase) tudo – posso ficar em “loop” (como se diz) na Spotify com Bach, Berio ou Satie (ainda que alguma deste me atire para os abismos da depressão, perigoso masoquismo) e depois saltar para Lou Reed, Smiths ou Brel, ou Madredeus (este grupo “lite” assumido). Se eu publicar isso em blog (ou no FB) ninguém me dirá “inculto”. Mas se eu fizer o mesmo com literatura logo assomam os “doutores” das palmatoadas…

      Claro que não temos de gramar com tudo. Eu dou sempre o exemplo do Miguel Sousa Tavares. Quando foi a vaga do “Equador” a minha mulher leu. Quando acabou perguntei-lhe o que lhe parecera: “gostei”, disse, sem grande entusiasmo, “mas não leias”, “Porquê?”. “É muito flat para o teu gosto…”. Assim fui ler o “Sul” desse autor. Logo o larguei – não gostei da escrita. Agora isso não é repudiá-lo, invectivá-lo. Pura e simplesmente não me “veste bem”. O que abomino mesmo é o “não li e não gosto” obscurantista – por razões de cagança “não gosto do José Rodrigues dos Santos e nunca li” (eu nunca li porque pelo que ouvi falar presumo que não vá gostar mas não digo que é mau, pois desconheço) ou de antipatias, pessoais ou ideológicas “não li nem leio Saramago porque não gosto”….

      1. Raro dizer-se de um autor “consagrado” que alternou livros excelentes com medíocres.
        Impõem-se as aspas em “consagrado”, dado ser conceito muito volátil: o escritor mais laureado em 1923 era Guerra Junqueiro, que até tem direito a Panteão, mas ninguém hoje lê.

        Por exemplo, li há pouco os Contos Completos de Pessoa. Uma chuchadeira, quase todos. Aliás quase todos… incompletos.

        Por exemplo, li excelentes livros do Saramago (‘Ensaio Sobre a Cegueira’, certamente a obra que lhe valeu o Nobel, merece ser classificada assim) e outros tão pedestres e rudimentares que nem li até ao fim (por exemplo, ‘A Caverna, a que já aludi no blogue).
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5743379.html

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