
«Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.»
José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira (1995), pp. 96-97
Ed. Diário de Notícias/Caminho, 2003. Colecção Prémio Nobel

«Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.»
José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira (1995), pp. 96-97
Ed. Diário de Notícias/Caminho, 2003. Colecção Prémio Nobel
Grande verdade.
Não sei… Parece-me uma tirada sem grande substância, que recorre a uma dicotomia que é resolvida com um chavão.
E em boa verdade não quer dizer nada.
Nunca consegui entender o culto da falta de pontuação.
Se uma pessoa lesse um livro do Saramago respeitando a pontuação, de certeza que iria chegar ao segundo capítulo com falta de ar.
Para mim, um escritor tem de escrever para o leitor, e não para uma massa amorfa supostamente intelectual.
Para não falar dos livros publicados após a sua morte, cujo tipo de escrita não tem nada a ver com os publicados em vida.
É um escritor que não aprecio.
Para mim, um escritor tem de escrever para o leitor
Para quê? Ele tem de é de escrever o que é necessário e que não poderia ser dito de outro modo. Que se foda o leitor, que raio de tirania seria essa?
Então? Já não posso ter opinião?
Eu disse para mim, não disse para si.
Você leu o que escreveu? Acha mesmo que o escritor se deve estar marimbando para o leitor?
Um escritor de livros para crianças deve escrever o que lhe apetece, ou deve escrever para o seu público alvo?
Já não posso ter opinião?
Não percebo este início de argumentação. Em que parte do meu comentário está alguma indicação de que não pode ter a sua opinião? E eu também posso ter a minha que pelos vistos é mesmo contrária à sua. Os livros para crianças são de facto um problema: trata-se de adultos a escrever coisas estúpidas para as crianças continuarem estúpidas e impingir-lhes “ideias” que os adultos acham que as crianças devem ter. Só falta ser numa ortografia balbuciada, com tracinhos entre as sílabas, como decerto os proponentes do acordo acabariam por defender dado que segundo eles se deve escrever como se fala.
Não se trata de o escritor se estar nas tintas para o leitor — trata-se de que o leitor não é um elemento constitutivo do acto de escrever. E nem sequer é esse o sentido das teses semióticas sobre a obra aberta. A escrita é um exercício estético, não é um texto publicitário. Romances, contos, poemas, etc existem como objectos estéticos — não são objectos de marketing com um público-alvo. Quer dizer, para alguns são (como José Rodrigues dos Santos e muitos outros escritores de supermercado) e é por isso que são maus.
Estamos os dois a falar o mesmo.
Se calhar é melhor definirmos o que é que se entende por escritor.
Para mim um escritor é aquele que obtém rendimento com as suas obras. Não é aquele que escreve o que lhe apetece e guarda na gaveta.
Um escritor que obtém rendimento com as suas obras, antes de começar a escrever e escolher o género de escrita, ou o que gosta mais de escrever; romance, policial, terror, poesia, etc, tem de escolher sempre um público alvo e identificar o escalão etário.
Escrever livros para adultos não é a mesma coisa que escrever livros para adolescentes. A linguagem é diferente. Escrever um livro técnico também tem um público alvo, e uma linguagem específica.
Esta liberdade de poder escolher é sua se for um escritor/editor. Se depender de uma editora, deixa de poder escolher, e passa a escrever para preencher lacunas de mercado.
Para mim um escritor é aquele que obtém rendimento com as suas obras.
Ok. Eu não estou a usar uma definição tão alargada. No limite toda a gente que escreve pode ser intitulada de escritor, mas tal como nem toda a gente que pinta é um artista plástico com uma prática de pesquisa nem toda a gente que escreve trabalha para a literatura, no sentido em que o texto tem interesse para a análise literária. O livro em si (a edição) nem conta muito actualmente, dado a falta de critério pavorosa nas capas e no desenho das páginas onde o objecto em si não se distingue muito de uma porcaria qualquer comercial e não é feito com um critério artístico.
E por isso que a Leya e as editoras que cederam à pressão do marketing no desenho dos seus livros e aos acordos ortográficos são, para mim, inimigos directos da literatura e os primeiros responsáveis pela sua irrelevância actual. A esses só lhes desejo a morte.
Não seja tão terra a terra, todos precisam viver, cabe aqui ao leitor a responsabilidade de fazer a diferença.
E é aqui que entra a regulação de mercado. Por isso é que temos escritores que ganham muitos prémios mas as suas vendas são residuais, e escritores que não ganham prémio nenhum e têm muitas vendas.
E é esta linha muito ténue que divide a verdade da fantasia que nos remete para a definição filosófica da função de escritor.
E o que é então um escritor?
Será aquele que ganha muitos prémios mas não vende livros nenhuns?
Ou será aquele que vende muitos livros mas não ganha prémios nenhuns?
Para não falarmos dos escritores do regime, ou dos anti-regime, ou os da literatura de cordel, ou os populares, ou os eruditos, ou…
Seja o escritor o que for, é sempre o leitor que faz a diferença, pois sem leitor não há escritor.
Um dos meus livros, em conjunto com o Ensaio sobre a Lucidez. Ainda sonho com o dia em que vamos todos sair de casa, num dia de eleições depois das 4 da tarde, e encher as urnas de votos em branco, utilizar a voz que temos, em vez de sermos furiosamente ofensivos atrás de um teclado.
Este, da Cegueira, mostrou-me uma realidade que julguei exagerada, mas que a pandemia e as vacinas açambarcadas pelos presidentes de qualquer coisa vieram demonstrar ser bem real.
Ler Saramago é deixar-se embalar. Confiar e deixar-se levar.
Já não consigo responder sem violência. São demasiadas as irritações nesta república sub-desenvolvida federada na ditadura fiscal europeia.
Quando li o Ensaio sobre a Cegueira, pensei que, apesar de de debruçar sobre um realidade terrível, esta não era de todo inverosímil. Espelha a natureza humana, no bom e no mau. Nesta pandemia, o que mais me custou foi a maneira como muitas pessoas morreram, independente da causa da morte. Sem visitas. Sozinhas numa enfermaria de hospital. Tratadas por enfermeiros e médicos com o rosto tapado.
Por muito que nos custe aceitar, é verdade. Em situações limite as fronteiras tendem a esbater-se.