Leituras


Pedro Correia,

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«Morre um sonho – outro nasce. Para o construir basta um simples nada – mas sem essa atmosfera é que ninguém pode viver.»

Raul Brandão, A Farsa (1903), p. 181

Ed. Amigos do Livro, 1986. Colecção Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, n. º 4

10 comentários em “Leituras”

    1. Brandão fala em ninguém.
      Sem sonhos ninguém pode viver.
      Não fala de ricos, não fala de pobres, não fala de pesadelos (não será o pesadelo um sonho, também?).
      Acho que Gedeão apreendeu bem a ideia de Brandão.
      “Sempre que um Homem sonha o mundo pula e avança”

      1. Brandão até escreveu um livro dedicado aos pobres, nesta edição de ” A farsa ” por acaso na página 60 está lá bem explicita a condição social da Joana.
        E não podemos confundir o sono com o sonho.
        O sonho é a realização de um desejo mas um pesadelo é uma perturbação do sono.

        1. O sonho é a realização de um desejo?
          Há sonhos que temos a dormir e outros acordados.
          Aqui falamos de sonhos que temos acordados, nesse sentido, sonho é sinónimo de desejo.
          Um desejo ou um sonho realizado deixam de o ser, transformam-se em realidade.
          Por exemplo, desejo beber água, ao bebê-la, ao realizar esse sonho, ele extingue-se, portanto, não concordamos, o sonho não é a realização de um desejo.

          1. Para esclarecer se o sonho é ou não a realização de um desejo talvez seja melhor ler o capítulo 3 do livro ” Interpretação dos sonhos ” de Sigmund Freud.
            Ele explica muito melhor que eu.

  1. Fé, portanto.
    Que nada mais é do que a expectativa de uma, ou várias, probabilidades concretizadas.
    Por outro lado, quem porfia alcança.
    Exemplificando: vinte anos a sonhar, (Fé) e finalmente parece que agora é que é.

  2. Ao chamar “A Farsa”… talvez seja uma crítica política ao “sonho”.
    No sentido de R.Debray e P.Ricoeur.

    De que o “sonho” transporta a solução, automaticamente, ao enunciar-se. Oferece a ilusão de que, a priori, é a solução.

    Desse modo, o “sonho” remeteria para a função xamânica do discurso. No qual, de modo teatralizado ou metafórico, os Políticos dirigem a lógica de inculpação para eles próprios (para quem enuncia; aqui, para quem “sonha”). Para depois, se apresentar a solução em formato de Promessa.

    Como referiu P.Ricoeur “o específico da promessa é construir, no dizer-se, o fazer da promessa. Prometer é colocar-se a si próprio na obrigação de fazer o que se diz hoje, que se fará amanhã”.

    Esta cerimónia mágica da «arte de fazer com o dizer», talvez tivesse sido uma crítica de Raul Brandão à dimensão política do uso do “sonho”.

  3. Sem dúvida. E o resto são tretas. Só acreditando no que está por vir se consegue fazer alguma coisa pela vida, por mais tropeços que sucedam. É curioso que as palavras venham de um autor tão sombrio (que conheço muito mal ou quase não conheço, para ser rigorosa).

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