![thumbnail_20210218_222325[3].jpg thumbnail_20210218_222325[3].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2021/22022872_LEZly.jpeg)
«Morre um sonho – outro nasce. Para o construir basta um simples nada – mas sem essa atmosfera é que ninguém pode viver.»
Raul Brandão, A Farsa (1903), p. 181
Ed. Amigos do Livro, 1986. Colecção Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, n. º 4
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«Morre um sonho – outro nasce. Para o construir basta um simples nada – mas sem essa atmosfera é que ninguém pode viver.»
Raul Brandão, A Farsa (1903), p. 181
Ed. Amigos do Livro, 1986. Colecção Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, n. º 4
Neste mundo só os pobres se podem dar ao luxo de sonhar, os ricos, esses coitados, só têm pesadelos.
Palavras sábias.
Brandão fala em ninguém.
Sem sonhos ninguém pode viver.
Não fala de ricos, não fala de pobres, não fala de pesadelos (não será o pesadelo um sonho, também?).
Acho que Gedeão apreendeu bem a ideia de Brandão.
“Sempre que um Homem sonha o mundo pula e avança”
Brandão até escreveu um livro dedicado aos pobres, nesta edição de ” A farsa ” por acaso na página 60 está lá bem explicita a condição social da Joana.
E não podemos confundir o sono com o sonho.
O sonho é a realização de um desejo mas um pesadelo é uma perturbação do sono.
O sonho é a realização de um desejo?
Há sonhos que temos a dormir e outros acordados.
Aqui falamos de sonhos que temos acordados, nesse sentido, sonho é sinónimo de desejo.
Um desejo ou um sonho realizado deixam de o ser, transformam-se em realidade.
Por exemplo, desejo beber água, ao bebê-la, ao realizar esse sonho, ele extingue-se, portanto, não concordamos, o sonho não é a realização de um desejo.
Para esclarecer se o sonho é ou não a realização de um desejo talvez seja melhor ler o capítulo 3 do livro ” Interpretação dos sonhos ” de Sigmund Freud.
Ele explica muito melhor que eu.
Na frase… basta substituir “sonho” por “pobre”.
Fé, portanto.
Que nada mais é do que a expectativa de uma, ou várias, probabilidades concretizadas.
Por outro lado, quem porfia alcança.
Exemplificando: vinte anos a sonhar, (Fé) e finalmente parece que agora é que é.
Ao chamar “A Farsa”… talvez seja uma crítica política ao “sonho”.
No sentido de R.Debray e P.Ricoeur.
De que o “sonho” transporta a solução, automaticamente, ao enunciar-se. Oferece a ilusão de que, a priori, é a solução.
Desse modo, o “sonho” remeteria para a função xamânica do discurso. No qual, de modo teatralizado ou metafórico, os Políticos dirigem a lógica de inculpação para eles próprios (para quem enuncia; aqui, para quem “sonha”). Para depois, se apresentar a solução em formato de Promessa.
Como referiu P.Ricoeur “o específico da promessa é construir, no dizer-se, o fazer da promessa. Prometer é colocar-se a si próprio na obrigação de fazer o que se diz hoje, que se fará amanhã”.
Esta cerimónia mágica da «arte de fazer com o dizer», talvez tivesse sido uma crítica de Raul Brandão à dimensão política do uso do “sonho”.
Sem dúvida. E o resto são tretas. Só acreditando no que está por vir se consegue fazer alguma coisa pela vida, por mais tropeços que sucedam. É curioso que as palavras venham de um autor tão sombrio (que conheço muito mal ou quase não conheço, para ser rigorosa).