Leituras


Pedro Correia,

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«Ninguém sabe, exactamente, quando deixa de se amar alguém. Deve haver um rumor qualquer, algumas discussões triviais sobre assuntos também triviais; depois o rosto que julgámos que iria habitar ao nosso lado, para sempre, deixa de ser apenas um rosto e passa a ser uma presença, por vezes indesejável, muitas vezes desnecessária, na maior parte das vezes apenas uma coisa que nos oprime.»

Francisco José Viegas, Crime em Ponta Delgada (1989), p. 105

Ed. Publicações Europa-América, 1989 (2.ª ed)

5 comentários em “Leituras”

  1. 1. Pergunto-me, se o que Francisco José Viegas escreve, também o sentirão os nossos descendentes. Ou aqueles (ou aquilo), a que no futuro será designado por «Humanos».
    2. Sentirão isso, aqueles que estão prestes a casar com as “RealDolls” de Matt MCCullen?
    3. Sentirá isso, o que sente Joey Morris com a sua namorada? A Robotroll (inspirada na série “BattleTrollz”) com quem namora desde maio 2019, em Maryland, e aparece em público. Joey, desde que dura o namoro, luta desesperadamente para que o casamento de faça numa igreja, mas os padres teimam em resistir. Perguntaram-lhe, como se tinha apaixonado. Respondeu, que foi “pelo sorriso e pelo cabelo”.
    4. Sentirão isso Zheng Jiajia e Yingying, que, na China, em 2016 contraíram matrimónio? Zheng (de 31 anos, engenheiro em IA, quadro da multinacional Huawei, e professor na universidade), pressionado para que se casasse, fabricou a sua esposa-robot Yinging. O casamento cumpriu toda a tradição das bodas da cultura chinesa (incluiu banquete, presentes e véu vermelho). Diz, que espera viver com Yinging… “até que a morte dele, ou a bateria dela, os separe”.
    5. Sentirão isso, Yuki Kashiwagi e Frois? O primeiro casal de robots no mundo a casarem oficialmente em 18julho2015.
    6. Nesses casamentos garantem, haver envolvimento emocional, lágrimas, pele com a mesma textura da humanoide, inteligência, memória, e até o mesmo reconhecimento pelos sentidos e pelo cérebro, do resto dos prazeres carnais. Até se podem selecionar, numa consola, o tipo de personalidade, a cor-de-pele, o género, e a beleza que cada qual mais aprecia.
    7. Isto tudo, já em 2050… garante David Levy.
    8. Re-leio outra vez as palavras de F.J.Viegas. E sinto-as cada vez mais longe…

  2. Gostei muito deste livro ainda juvenil de FJV, mas onde já se perspetiva o tom introspetivo do que será depois o seu inspector Jaime Ramos, sobretudo pelo retrato que faz da minha ilha do Faial e das gentes da Horta, além dos aspetos históricos nele contidos sobre o início da autonomia nos Açores

    1. Li com muitos anos de atraso este livro de FJV, que é um romance sólido, bem urdido e com uma escrita muito ágil. Sem deixar de ser uma obra “ainda juvenil”, como bem sublinha, Carlos.
      Foi também um livro que me fez redobrar a vontade de viajar novamente para os Açores. Não apenas a São Miguel e Faial, que já conheço, mas sobretudo a Santa Maria, que ainda não visitei.
      Só o coronavírus, no ano passado, me fez alterar os planos. Agora sabe-se lá até quando.

  3. Li o comentário sobre esses estranhos amores – nem sei se podemos chamar-lhe tal nome – entre humanos e robots e robots entre si. E não creio que o que diz Francisco José Viegas se lhes aplique. O amor como o conhecemos e sentimos é coisa humana. E os casos citados são excepção e não regra. Felizmente.

  4. Bem, eu confesso que a frase «depois o rosto que julgámos que iria habitar ao nosso lado, para sempre, deixa de ser apenas um rosto e passa a ser uma presença» me incomoda. Independentemente do facto de essa presença passar a ser indesejável, desnecessária ou opressora, desejaria o narrador apenas um rosto a seu lado? Apaixonou-se por um rosto, não por uma presença? Quando o rosto se transforma em presença está o caldo entornado? Um pouco estranho. E preocupante.

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