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«A roupa na mulher é função da sensualidade. Vestir-se, quando se é casto, parece-me obsceno.»
Joseph Kessel, Bela de Dia (1929), p. 16
Ed. Publicações Europa-América, 1979. Tradução de Sampaio Marinho. Colecção Livros de Bolso Europa-América, n.º 185

Penso o contrário. A roupa serve apenas para disfarçar o que não se tem. Vestir-se, ocultando, quando se é belo, parece-me obsceno. Obscenidade comparável ao atrevimento da fealdade numa praia de nudistas.
E eu penso que cada um é como é, sem culpa ou mérito do que o corpo lhe tem. E, sem negar a beleza que aprecio ou a fealdade física que deploro por conhecer que, sendo isentos de responsabilidade, os portadores a carregam tanta vez como doença que lhes perturba o estar – e perturba mesmo que o mundo se joga nas aparências -, digo que seria coisa cuja importância os humanos deviam elidir; além disso, quando as mulheres bonitas se queixam de assédio e desejam, quem sabe, ser feias, julgo que não avaliam o bem que carregam sem mérito e desconhecem o estigma da feiúra. Tudo que na sua natureza ultrapassa a norma traz problemas ao utente, mas quem é humano tem muito mais por onde agradar.