Leituras


Pedro Correia,

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«Envelhecer é um crime.»

Robert Alley, O Último Tango em Paris (1973), p. 95

Ed. Editores Associados (Portugália e Civilização Brasileira), s/d. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Colecção Unibolso, n.º 73

14 comentários em “Leituras”

  1. Não é verdade.
    Posso ter saudades de mim há 30 anos, na altura em que era fisicamente leve, lépida, flexível e vigorosa, mas gosto mais de mim no presente.
    Toda a elasticidade que o corpo possa perder pela erosão dos anos, ganhamos em contrapartida em sabedoria, calma, ponderação e argúcia. Tornamo-nos muito mais ágeis em perspicácia e raciocínio.
    É o prémio supremo que compensa a decadência que antecede o cair do pano.
    Tantas vezes cai o pano muito antes do final da peça… é por isso que devemos sempre deixar entrar toda a claridade enquanto temos luz.

    1. Não será um crime mas é uma desgraça. D. Dulce: o que está a dizer é o que me dizem a mim (que já tenho bastante idade) para me consolar. Em que eu não acredito e nem acredito que quem me diz isso acredite no que diz. São banalidades que ouvi há muitos anos dirigidas à minha avó e que agora ouço dirigidas a mim. É claro que perder forças, mobilidade, capacidade sexual e intelectual não tem a menor graça. Mas devemos dizer que tem aos idosos, não é? Ou mesmo a nós próprios para disfarçar a decrepitude.

      1. Também já tenho alguma idade.
        Lamento que o Anónimo se sinta assim, tão amargo. Ninguém me conta histórias de embalar. Vivo e sinto exatamente como escrevi. Tive avós, mãe e pai, que perdi cedo demais, mas será por isso um exemplo de tenacidade que não excluo nunca.
        Aceitar a derrota do corpo sem luta não é coisa que tome como perdido à partida. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e os hábitos. Desde que a centelha brilhe – e brilha agora mais, do que alguma vez brilhou – estarei cá, pronta para enfrentar todos os medos ( que são bastantes) e será então como eu quiser e Deus concordar.

        1. Não me sinto nada amargo, antes pelo contrário. O que digo acima não traduz amargura, é mesmo verdade. Espere que os anos passem e verá que é assim, o resto é conversa fiada.

      2. Anónimo, nunca, enquanto houver vida há-de a velhice aparecer de surpresa. Tenho 40 anos e todos os dia me treino para ela.
        Vejo na velhice, oxalá, o descanso merecido da vida.

        1. Quero muito acreditar que será mesmo Vlad. Pelo menos é minha filosofia de vida que, depois de trabalhar insanamente tantos anos quantos os que tem de idade, tenho direito a um merecido “pote de ouro” no fim do arco iris, com alguma qualidade de vida também.

          1. Lamento, Dulce! Mas vejo no “trabalhar insanamente” uma lamentável perda. Nunca acreditei que o único sacrifício merecido fosse ao Deus trabalho. Nem que os sacrifícios de hoje se justificassem pelos prémios de amanhã. Já vi a ironia da vida. Quando se espera pelo pote na recta da meta o destino, não raras vezes, prega-nos uma partida.

          2. Eu sou uma pessoa estranha, Vlad. Isso do Deus trabalho não é para mim. Sempre gostei de trabalhar e de me dedicar a vencer todos os desafios ou obstáculos com que me deparei. Não deixei por isso de fazer quase sempre o que quis. Estudei até onde me apeteceu. Casei como e com quem quis. Tive os filhos que me apeteceu quando os quis ter. Vou onde me apetece ir, como o que me apetece comer, faço o que me apetece fazer, tudo isto sem nunca descorar o meu lado de trabalhadora briosa e reconhecidamente profissional.
            Estou ansiosa pelo momento em que possa parar e ter tempo para só mim e para todas as minhas idiossincrasias mais íntimas. O meu grande problema, é que não me vejo parada… tem que ser por etapas e sem cotra-relógio, a começar lá para o final de 2018. É mais uma adaptação entre muitas, mas garntidamente uma das mais difíceis.
            Nunca me considerei sacrificada a coisa alguma. O único “pote de ouro” que espero encontrar é a chamada idade dourada, o merecido descanso do guerreiro, antes da recta final

          3. Então Dulce, tudo há-de correr bem. O segredo, se o topei já , é mesmo o de não parar.Dobrar a vontade do corpo, cansado. Seguir sempre pelas escadas e nunca pelo elevador. Fazer do sacrificio uma boa vontade. Que tudo lhe corra bem!

  2. Crime é fazer da velhice não um motivo de orgulho mas de vergonha. E a vergonha maior surge dos dias inconsequentes somados e sonhados duma juventude perdida. E para perdê-la, basta que façamos em esquecimento a velhice que há-de chegar.

  3. O maior crime é fazer da juventude o nosso maior desperdício, ao julgarmos que a velhice só acontece aos outros. Se os ouvissemos, aos velhos que não se fazem de novos, quão mais novos chegaríamos a velhos….

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