«O Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o carácter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o sofredor por um destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho – porque nos sentimos escolhidos e destacados para a Infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo – se toda a humanidade coxeasse?»
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (1901), p. 182
Ed. Bertrand, 2013. Colecção 11×17, n.º 93

![9789722521376[1].jpg 9789722521376[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2016/20028960_4zbvp.jpeg)
O melhor livro do Eça.
Acabei de o reler e novamente me deu uma satisfação imensa. Ninguém diria que é um livro que já não conseguiu rever por inteiro – tão consistente e ‘definitivo’ nos parece.
Brilhante, esta citação!
Um dia destes volto a ele, para o reler com olhar de adulta.
Tem várias, excelentes. Entre outros méritos, o Eça é um grande frasista. Um dos nossos melhores de sempre.
Todos os livros dele estão cheios de aforismos. Alguns ascenderam até a provérbios populares (ao povo “sobe-se”, como ensinou Pedro Homem de Mello).
Um exemplo:
«É um dos três grandes actos sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem. Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.»