«Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que estimamos. Família, amores, amigos. Lugares, livros, memórias até. Conservar e desfrutar são dois verbos caros aos homens que ainda estimam alguma coisa. E, em alguns espíritos, esses verbos são declinados com maior intensidade e frequência, a ponto de se transformarem na sua gramática essencial.»
João Pereira Coutinho, Conservadorismo, p. 33
Ed. D. Quixote, 2014

![1507-1[1].jpg 1507-1[1].jpg](http://3.fotos.web.sapo.io/i/Bbc14dc1f/19206861_IjS9p.jpeg)
Um pequeno e muito recomendável livro. Evidentemente, o seu título e a identificação do autor bem podem arrepiar muitas cabeças alegadamente bem pensantes, por cá, e que rapidamente alertarão para os perigos da sua leitura e o classificarão de fascista. Pelo menos como reaccionário.
Sendo certo que nele – no livro – até se faz uma simples, clara e utilíssima distinção substantiva entre isso e conservadorismo (mas esses são preciosismos de má-fé, coisa de neo-ultra-liberal-fascizante; uma contradição de termos muito na moda e consagrada no léxico deste tempo novo, ou novo tempo, ou lá o que é).
Costa
Gostei. E recomendo. É uma boa introdução ao pensamento conservador.
Sem a menor dúvida. A questão é que, todo este tempo depois de 1974, a simples admissão pública – e talvez mesmo íntima – de se ser outra coisa que não “de esquerda”, é por cá, e para muita gente, anátema. E consagradíssima a ideia de que sendo-se de esquerda se é, sem mais, “progressista”. E que o progressismo, sempre e só, é bom
Não se sai neste país – e se algo a campanha para as eleições presidenciais demonstrou foi isso mesmo – da velha divisão esquerda (virtuosa)/direita (viciosa). Essa simplista e anacrónica divisão – ela própria abrigo do mais acirrado conservadorismo esquerdista – estigmatiza à partida a leitura de um livro como este e a disponibilidade de olhar para o conservadorismo (no sentido anglo-saxónico) com outros olhos que não os da repulsa.
Dogmas, enfim. E onde os há mais do que à esquerda?
Costa
O campo parece inclinado porque só a “esquerda” se assume como tal. Quem não é de “esquerda” não necessita de proclamações ideológicas ou identitárias.
Acontece que esses rótulos estão condenados à extinção. Porque já não explicam nada de relevante no mundo actual. Como ficou bem patente nas transferências directas de voto em França do moribundo Partido Comunista para a Frente Nacional. Ou com o fascínio simultâneo que Putin exerce hoje sobre um espectro largo de nacionalistas e soberanistas europeus, da “extrema-esquerda” à “extrema-direita”.