«É um dos grandes problemas do nosso mundo moderno, sabe? O esquecimento. A vítima nunca esquece. Pergunte a um irlandês o que os ingleses lhe fizeram em 1920 e ele dir-lhe-á o dia do mês, a hora e o nome de todos os homens que eles mataram. Pergunte a um iraniano o que os ingleses lhe fizeram em 1958 e ele dir-lhe-á. O seu filho dir-lhe-á. O seu neto dir-lhe-á. E quando tiver um bisneto, também ele lhe dirá. (…) Ignorar a história é ignorar o lobo à porta.»
John Le Carré, Um Homem Muito Procurado, pp. 299-300
Ed. Dom Quixote, 2008. Tradução de Isabel Veríssimo
ADENDA: como um leitor confirma, e eu já suspeitava, onde se lê “1958” por lapso da edição portuguesa deve ler-se “1953”, ano que consta do original.

![image[1].jpg image[1].jpg](http://2.fotos.web.sapo.io/i/Ba114522a/18269698_8PTRG.jpeg)
Oportuno.
“Ignorar a história é ignorar o lobo à porta.” Grande frase. Poderia citá-la apenas, sem mais. Mas julgo que ganha ainda mais relevância acompanhada das linhas que a precedem.
A História (aqui uso o h maiúsculo) é fascinante. Mas é também um peso que carregamos, como Sísifo. Um peso de que jamais nos libertaremos.
(Saúdo o seu regresso a esta casa, caro Vento)
É sempre um prazer estar convosco, Pedro. Sísifo retracta bem o curso da história.
Mas hoje vê-se tanta ignorância nesta matéria e disciplina que não me estranha absolutamente nada ver tantos lobos com pele de ovelha a despertar instintos animais que deviam ser reprimidos.
Mas, como diz o Apocalipse, “E se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto” (são frases dispersas), fico com a sensação que estamos a viver outro momento em que os lobos já estão a postos.
E como nós sabemos a besta é capaz de seduzir os ignorantes. E esta besta tem um novo chifre, o domínio financeiro.
A vítima esquece ou é obrigada a esquecer. E John Le Carré é um dos contribui para os esquecimentos. Só no Irão temos uma mão cheia de povos obrigados a esquecer. E dentros desses dos povos idem.
Pelo contrário, Le Carré é um escritor com memória (e haverá escritores sem memória?).
Julgo que há erro – do original ou da tradução – no ano referente ao Irão. Não terá sido 1958 mas 1953, ano do derrube do primeiro-ministro Mossadegue. De qualquer modo, deixei estar. Para o caso, é irrelevante.
https://books.google.pt/books?id=unG7Nwr KtkUC&pg=PA265&lpg=PA265&dq=le+carre+ask+an+iranian&source=bl&ots=H8GSA1Ha9s&sig=dLxXPs1tLODaNslg8oz–Xp1w0g&hl=pt-PT&sa=X&ei=C7IzVYjUFO7e7AbIxIC4AQ&ved=0CEAQ6AEwBA#v=onepage&q=le%20carre%20ask%20an%20iranian&f=false
Muito lhe agradeço, meu caro. Faltou-me paciência e disponibilidade para dar esse passo destinado a confirmar o que a intuição já me dizia.
É, de facto, um erro da versão portuguesa que não consta do original. Darei nota disso em adenda.
Abraço.
Não não tem memória ao dizer que o centro do que acontece no Irão foi o derrube de Mossadegh – para começar o seu derrube não aconteceria sem muitos Iranianos.
Existiram muitos mais Iranianos violentados por outros Iranianos, esses não têm memória? Depois boa parte dos Iranianos se estão nas tintas para Mossadegh.
Veja-se como não deixou nada a não ser um mero pretexto para ser utilizado quando conveniente.
John Le Carré é um eurocentrista de esquerda e considera que quase tudo o que acontece é devido ao homem branco. O Ocidental obviamente. Com isso os outros são sempre vistos comop países com o racismo das baixas espectativas.
Uma frase que define um dos grandes escritores do nosso tempo.
Frase que casa na perfeição com uma outra ,” Onde não há pessoas não há problemas” da autoria de um conhecido, precavido e ,ainda hoje, estimado humanista georgiano…
E , por falar em Le Carré : sou eu que imagino coisas, ou Ângela Merkel poderia , de pleno direito, pertencer ao universo da gente de Smiley – à totalidade desse universo ( e não só o livro ou a trilogia)?…
Esse “humanista georgiano”, ao qual a sua bem-humorada alusão aponta, é responsável por várias outras pérolas de sabedoria, que merecem reflexão (com ou sem ironia, conforme as circunstâncias). Nomeadamente estas, que cito de cor:
– “Quantas divisões armadas tem o Papa?”
– “Um morto é uma tragédia. Um milhão de mortos é uma estatística.”
John Le Carré é mesmo um dos escritores com mais memória que hoje temos, sem facilitismos nem políticamente correctos.
Mas sendo o seu herói dos primeiros tempos (George Smiley) um sujeito discreto, normal no sentido de pouco brilhante, mais sujeito às infidelidades da mulher do que ela às dele, quase que diría o anti- Bond, noto que um número considerável de pessoas que precisam de se identificar com símbolos fortes o renegam fácilmente.
Talvez por isso “Um espião perfeito”, um livro perfeito, não é apreciado como devia, o subconsciente das pessoas é lixado e não gostam daquele misto de amor-ódio filial, algo que muita gente nunca ultrapassou nem alguma vez ultrapassará.
O próprio Le Carré disse “Although I’ve never been to a shrink, writing A Perfect Spy is probably what a very wise shrink would have advised me to do anyway.”
Continuo em carteira com a 3ª leitura nos últimos 35/40 anos de “A trilogia de Karla”, agora numa tradução francesa comprada recentemente pelo preço de 3 bicas e em estado novo naquele alfarrabista de que temos falado.
Sem políticamente correctos?!
Basta o políticamente correcto de todos os gatos são pardos.
Mas nem a isso consegue chegar.
E não são todos pardos aí na vida real, na da “rua” ?
Confirma-se que o seu “mundo” não é decerto o meu.
Desde “Call for the dead” e “A murder of quality”, escritos em 1961 e 1962 e que eu li na altura (e ainda tenho os exemplares da “Livre de Poche” comprados na Livraria Barata), que não estou bem a ver onde é que ele não consegue chegar.
Mas onde ele consegue chegar há muito, segundo o que vejo, é no confrontar as pessoas como indivíduos ou em grupo com as suas imensas misérias e as suas muito poucas grandezas.
E isso incomoda quem vive de interessantes teorias porque a vida não lhe deu desgastantes práticas.
Agradeço no entanto o seu comentário, não destoa do pessimismo militante que por aí vai.
Por razões que não vêm ao caso, eu não me posso dar ao luxo de ser pessimista nem a brincar.
Uma boa tarde para si
Em tempo.
Só agora li o seu comentário das 05.28, não tinha reparado nele, distracção minha.
Pelo último parágrafo confirmo que não falamos das mesmas coisas (o que sendo saudável se torna por vezes complicado).
Eu refiro-me ao John Le Carré que fala das pessoas porque a mim só me interessam pessoas concretas, vivo rodeado delas na rua, no café, na esplanada do miradouro em frente a minha casa, conheço toda a gente do bairro e falo com todos, do coleccionador de carros antigos ao arrumador de carros apenas velhos.
Como também vivo rodeado delas nos restaurantes onde almoço todos os dias na Baixa, nos liveiros e alfarrabistas que frequento, nos telefonemas de amigos e conhecidos que me ocupam todos os serões, nos desabafos e cumplicidades com filhos, filhas, netos e netas.
As grandes teorias pouco me entusiasmam para além dos seus aspectos históricos própriamente ditos, ainda há dias citei Zizek dizendo algo do tipo de que a Humanidade é porreira mas 99% dos humanos são uns chatos (estou nos 99%, teoria das probabilidades pura).
Isto tudo não impede que concorde com o que diz no tal seu último parágrafo mas, repito, não é isso que me interessa nele, analisá-lo sob esse ponto de vista apenas não me serve de nada.
John Le Carré põem-nos a cada um de nós ao espelho e, como disse atrás, para muita gente isso é insuportável.
Ando arredado há uns tempos das lides blogosféricas Pedro, mas nem com atraso posso deixar de saudar a frase que citas.
A falta de memória é um enorme problema, um que curiosamente existe de forma muito forte nos povos latinos (cito de memória
). Já noutros povos (os irlandeses do texto, nos balcãs, os eslavos em geral, em parte da Ásia) faz parte quase do presente.
E aí entramos noutro aspecto: quando a memória é ela própria um problema. Porque a memória pode ser pessoal ou colectiva. E se a memória pessoal (daquilo que se passou connosco) já é relativamente pouco fiável, a colectiva ainda o é menos. E quando dois indivíduos/povos com longas memórias colectivas falam do mesmo acontecimento, as diferenças podem ser enormes.
Precisamente por isso, caro Pedro Correia, todas as grandes tragédias s(er)ão farsas!! (uma quase citação bem conhecida elevada à potencia, sempre actual e reiterada, por vezes, em tragédias do quotidiano e, de outras mais vezes, em tragédias que ocorrem quotidianamente apesar de não preencherem o conceito de quotidiano.)