«Vemos o tempo a desaparecer ao nosso lado pelas caras descoradas dos moribundos; as nossas colheres metem os alimentos nos nossos corpos, comemos, atiramos granadas, fazemos fogo, matamos, estendemo-nos não importa onde, estamos extenuados e embrutecidos e apenas uma coisa nos sustém: é haver ainda mais extenuados, mais embrutecidos, mais desamparados que, com os olhos muito abertos, nos têm na conta de deuses, a nós que, às vezes, podemos escapar à morte.»
Erich Maria Remarque, A Oeste Nada de Novo (1929), p. 98
Ed. Publicações Europa-América, 1971. Colecção Livros de Bolso Europa-América, nº 4. Tradução de Mário C. Pires


Um parágrafo poderoso, do tipo que gostava de saber escrever.
Este livro está cheio de frases como esta, Miguel. Uma obra-prima a todos os níveis. Pelo tema, pela autenticidade, pela força das personagens – e pela escrita.
Na disciplina de francês no 11.º ano o livro de apoio tinha alguns extractos desta obra. Nunca mais me esqueci deles. Penso que, por ser em francês e por termos lido outros textos em que os “partisans” eram protagonistas, fiquei com a ideia de que se tratava de um relato de um soldado francês na Segunda Guerra Mundial. Só mais tarde percebi que se tratava de um alemão na Primeira Grande Guerra. Seja como for, é um documento intemporal. O livro completo li-o há pouco mais de um mês, numa edição em francês, que comprei muito barata.
Um belíssimo romance, que reli este Verão com a mesma emoção da primeira vez. Ao mesmo tempo, um extraordinário documento sobre o carácter destruidor de todas as guerras – contrariando a lógica de época, que enaltecia o pseudo-romantismo dos conflitos bélicos.
Quem conhece uma guerra por dentro pode sobreviver. Mas regressa de lá sempre amputado.