«Gostaria de ser actor da transformação, da reforma do mundo. É o que me esforço por ser desde sempre, tanto aos 86 anos como aos 20. A experiência e a vontade revolucionárias do século XX foram, de maneira evidente, marcadas pelo comunismo. Mas o facto de essa experiência ter fracassado, e de forma sangrenta, não torna a sociedade actual suportável e justa. Trata-se de uma sociedade insuportável para uma boa parte, senão mesmo para a maioria dos cidadãos do mundo. O desejo de a reformar, de a melhorar, seria também meu se tivesse 20 anos, como ainda o é não obstante a minha idade avançada [86 anos].»
Jorge Semprún, A Linguagem é a Minha Pátria
Bizâncio, 2013. Tradução: Maria Carvalho


Gostei bastante de ler este livro. Li-o porque conheço Semprún dos argumentos que escreveu para os filmes do Costa-Gavras nos anos 60 e 70, filmes que eu amo, e adorei descobrir novos detalhes sobre eles. Mas ler sobre a vida dele, nos campos de concentração, na resistência anti-franquista, na Espanha democrática, foi também muito interessante.
Tenho uma enorme admiração pelo Jorge Semprún. Pela figura de resistente. Por ter sabido dizer não a todos os totalitarismos. Por ser um sobrevivente de Buchenwald. Por escrever muito bem. Por ter sido argumentista de dois filmes da minha vida: ‘A Guerra Acabou’ (realizado por Alain Resnais) e ‘Z – A Orgia do Poder’ (realizado por Costa-Gavras).
Fiquei a admirá-lo ainda mais por este livro de entrevistas feitas a um ano da morte dele e publicado postumamente. Já tão perto do fim e ainda a falar da vida e do mundo e do futuro como se tivesse todo o tempo à sua frente.
Um exemplo para todos nós.