Leituras


Pedro Correia,

 

«Churchill compreendia e respeitava de Gaulle; no que dizia respeito às concepções de história (e também da natureza humana) de ambos, Churchill e de Gaulle, dois líderes nacionais da direita, tinham mais em comum do que Churchill e Roosevelt. Isso é o que a maioria dos intelectuais não conseguiu  entender: que em 1940 os verdadeiros antagonistas do hitlerismo eram homens da direita, não da esquerda. Churchill e de Gaulle, cada um representando uma certa espécie soberba de patriotismo, não internacionalismo.»

John Lukacs, Churchill.

Jorge Zahar Editor, RJ, 2003. Tradução: Claudia Martinelli Gama.

22 comentários em “Leituras”

  1. Interessante, também, é a biografia de Churchill, escrita por Chris Wrigley, da editora Texto.
    Penso até que é a única biografia que tenho…

    1. Churchill é um dos políticos mais biografados de todos os tempos. Uma biografia que recomendo – biografia essencialmente política – é a de Roy Jenkins, que foi presidente da Comissão Europeia, um dos dirigentes máximos do Partido Trabalhista britânico e líder do efémero Partido Social-Democrata britânico na década de 80.

    1. Questão de dimensão e poderio industrial.

      Claro que quando alguém ousa balbuciar algo de diferente dos cânones das esquerdas e, pior, interrogar a legitimidade da apropriação pelas esquerdas de certos dogmas a elas muito queridos, desde logo o da sacrossanta superioridade moral, arrisca-se a levar pela medida grande.

      Mas vão muito contidos, até ver, os comentários…

      Costa

      1. A tese de John Lukacs parece-me acertada. Diz ele neste livrinho que sem a resistência praticamente isolada de Churchill, no biénio 1940/41, Hitler teria conquistado a Europa. Nessa altura, recorde-se, Roosevelt intitulava-se neutral e Estaline era aliado de Hitler.

  2. Na Direita (não aquela que por cá a tuguice nacional imagina (recondutíveis a socialismos light, ultra-light, ou hardcore)) rejeita-se a tese do “paraíso na terra”, a realizar por socialismo, nacional-socialismo, fascismo.
    Na Direita cultiva-se o pessimismo adveniente da natureza volátil e imperfeita da humanidade (única certeza). Não há Messias, nem Estados Perfeitos nem ideologias perfeitas. Daí que toda a promessa dever ser feita, não em utopia (raça, estado, sociedade sem classes), mas na estreiteza do que existe.

    Há um caminho, sem paragem certa. A virtude é o caminhar consciente da incerteza do futuro mas mediatizada pela certeza do passado.

    Autores que reflectiram sobre isto de forma aprofundada Hume, Burke, De Maistre, neste séc. Chesterton, Oakeshott, Poppper.

    Jaime Nogueira Pinto na Polis resume tudo isto de forma magistral no seu artigo sobre “Direita”

    1. O mais significativo é que ambos, De Gaulle e Churchill, enfrentaram no início a barbárie nazi praticamente isolados. Churchill foi ridicularizado durante toda a década de 30, no Reino Unido, ao alertar para o risco de uma Alemanha sob o domínio de Hitler muito antes de este chegar ao poder: no próprio Partido Conservador encaravam-no (a ele, Churchill, não a Hitler) como um louco. De Gaulle, por sua vez, chegou a ser condenado à morte pelo regime colaboracionista de Pétain por ter apelado em 1940 à resistência contra o invasor.

    2. Pois, mas há um poema do “rojo” Antonio Machado que poderia servir de divisa da democracia e que diz:

      Caminante, son tus huellas
      el camino y nada más;
      Caminante, no hay camino,
      se hace camino al andar.
      Al andar se hace el camino,
      y al volver la vista atrás
      se ve la senda que nunca
      se ha de volver a pisar.
      Caminante no hay camino
      sino estelas en la mar.

      Ou esta outra sua divisa que arruína igualmente todas as certezas do passado e nos declara responsáveis pela nossa própria história:

      Todo pasa y todo queda,
      pero lo nuestro es pasar,
      pasar haciendo caminos,
      caminos sobre el mar.

      E, por fim, outra irredutível adversária da direita, Sophia, escreve, denunciando a incompreensão profunda do passado que cultivam os que o reduzem a certezas e exercícios de cópia, acolhendo-se à sombra de “Não discutimos” vários e carcerários:

      Navegavam sem o mapa que faziam
      (Atrás deixando conluios e conversas
      Intrigas surdas de bordéis e paços)
      Os homens sábios tinham concluído
      Que só podia haver o já sabido:
      Para a frente era só o inavegável
      Sob o clamor de um sol inabitável
      Indecifrada escrita de outros astros
      No silêncio das zonas nebulosas
      Trémula a bússola tacteava espaços
      Depois surgíram as costas luminosas
      Silêncios e palmares frescor ardente
      E o brilho do visível frente a frente

      Portanto…

      msp

      1. Excelente comentário, Miguel, e muito bem documentado. O pragmatismo da direita manifesta-se quase sempre numa descrença no ser humano e na negação da utopia. Nisso estou, inteiramente, com os ideais de esquerda. Navegar é preciso, muitas vezes sem mapa e abrindo estradas sobre o mar. É assim que a humanidade evolui, foi “tacteando espaços” que chegámos já até aqui.

        1. Não é para aqui chamado? Essa agora… E eu que pensava que ele tinha celebrado certo pacto (pouco falado, claro) com o regime Nazi e que, como líder de uma das potências beligerantes, havia participado decisivamente, e nessa condição, no conflito.

          Ou eu aprendi tudo mal, ou há para aqui um exercício de reescrita da História. E então há-de haver desde logo uns milhares de fotografias por retocar, meus senhores.

          Nada que fosse estranho para ele (Estaline).

          1. Vou tentar explicar devagarinho.
            O tema deste post é Churchill e a sua biografia, não é Estaline nem sequer a Segunda Guerra Mundial.
            No contexto desse tema, eu procurei salientar que Churchill não era nenhum santinho, pelo contrário, era um racista maldoso que não hesitou em utilizar a força mais brutal para esmagar raças que ele desprezava – nomeadamente no Iraque em 1919.
            Este é um passo importante da vida de Churchill, que certamente terá sido focado nesta sua biografia. A vida de Churchill não começa e acaba na Segunda Guerra Mundial.

          2. Não vale a pena, creia, incomodar-se com cuidados de particular vagar na sua exposição, prezado, pois que por aqui nos correspondemos em forma escrita e não verbal. Ora eu leio-o, e com muito gosto, a uma velocidade que, bem vê, é necessariamente a minha e não a sua.

            Isto escrito, e porque tem você todo o direito de me achar menos dotado nas coisas da simples e mediana inteligência (facto de que esse seu cuidado é um claro, ainda que menos explícito, sinal), como eu de reciprocar, permita-me sugerir-lhe que releia – devagarinho – o trecho que, dessa biografia, é invocado no “post “.

            Dele se conclui que, para o autor, o antagonismo perante o hitlerismo – evidentemente não limitado ao período da Segunda Guerra Mundial, mas de que este período é, digamos, o cume, invocando-se mesmo e expressamente o ano de 1940, período dessa guerra e terrível fase para a causa Aliada, como saberá – se sustentou bem mais em homens ditos de direita do que por homens ditos de esquerda.

            Segunda Guerra Mundial, veja; homens de direita. Staline teve papel de relevo nessa guerra. E pelos interesses do momento ficando do lado desses homens de direita, depois de ter estado do lado daquele que esses homens combatiam.

            De acordo, Staline não seria um homem de direita (mas pior ditador do que muitos de direita; e saberá que mandou matar mais gente do que Hitler). Mas sustentar que neste post , e a pretexto da obra em causa e dos comentários anteriormente deixados, não há lugar para invocar a Segunda Guerra Mundial ou suscitar a figura de José Staline, enfim…

            Costa

  3. Pois não sei, ando por acaso a ler as memórias de Churchill, inicialmente de Gaulle não merecia-lhe algumas reservas… mas ao menos assume que ele nunca foi complacente nem subserviente a Hitler.
    Sobre Estaline, é evidente que este só foi contra Hiltler após o ataque deste e quando chegou ao momento de ter de lutar pela sua sobrevivência , antes, foi o pacto de não agressão para o nazimo destruir as democracias ocidentais que vigorou.

    1. Estaline só combateu Hitler quando os tanques alemães invadiram a URSS. Antes disso celebrou o pacto germano-soviético, brindou com Ribbentrop, enviou Molotov a Berlim em missão de amizade e cooperação sovieto-nazi, engoliu os estados bálticos, anexou parte da Finlândia e repartiu a Polónia com Hitler.
      Mais um pouco e teria merecido o Nobel da Paz.

  4. Luis, isso é um resultado do pensamento como o contrário.
    No campo da metalinguagem de Direita, há um amplo campo relativista, e realista. Há um amplo campo do “vamos ver, mas a experiência diz que…”
    Sou de Direita, e defendo com unhas e dentes a imigração p. ex.. Gente que não se reproduz, mas pensa no imediato da fruição merece ser colonizada (algo que a História comprova). (Aliás, Portugal só cresceu demograficamente e na área 24/55 anos por causa de imigrantes pois o descalabro bem poderia ser pior).

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