Memórias de uma Menina Bem Comportada, de Simone de Beauvoir, Da Mão para a Boca, de Paul Auster, A Louca da Casa, de Rosa Montero, e A Criação do Mundo, de Miguel Torga, têm em comum o facto de serem obras autobiográficas, um género que persigo desde que li a primeira, ainda adolescente (As Palavras, de Sartre). Claro que uma autobiografia não deixa de ser uma obra ficcionada, mas por mais desleal que possa ser essa narrativa representa sempre um desejo genuíno de partilha e exposição. Com a vantagem de que não nos leva, como nos romances, a procurar pateticamente entre personagens e situações descritas pistas para decifrar o ego dos autores, pelo menos aqueles que mais admiramos e, a partir de certo momento, gostamos de presumir que já conhecemos um pouco.
Aplicado aos homens, cujo código de comportamento é de contenção e até elisão de tudo o que é matéria íntima e sensível da comunicação com terceiros, esse desejo é, ao mesmo tempo, uma violência. O registo diarístico, embora com mais possibilidades de defesa, pois pode limitar-se à descrição de factos, também se presta a esta devassa que tanto atormenta os homens. Sobre o seu diário Conta-Corrente, Vergílio Ferreira escreveu: "Que me leiam um romance não me perturba, mas não que me leiam a mim". Esta ambivalência que os leva a expor-se mas sempre em esforço torna tudo muito mais interessante.
Não me é, pois, indiferente enquanto leitora que uma autobiografia seja assinada por um homem ou por uma mulher. Se é verdade que a persona do autor é que determina a decisão de o ler, o seu género (ou deverei dizer sexo?) irá condicionar a forma como o leio.
Matéria habitualmente reservada a diários com cadeado ou empregados de bar, as confissões dos homens são compreensivelmente mais apaixonantes. Não só porque nos revelam material classificado, mas também porque no-lo oferecem com uma pudicícia encantadora, patente nas palavras secas que escolhem para descrever humores e afectos ou nas elipses que usam para evitar embaraços narrativos.
Será porém a matéria confessional que os embaraça ou o acto da confissão? Socorro-me mais uma vez de Vergílio Ferreira, um autor injustamente esquecido: "O desejo de desabafar", diz ele, "não é propriamente sublime". Et voilà! Fica explicado. Eduardo Prado Coelho chamava à escrita diarística "um devir feminino". A escrita confessional não é, pois, coisa de machos, dizem eles. Tanto melhor para nós. Porque quando eles cedem são irresistíveis.


Teresa: gostei muito deste teu texto, que é quase um pequeno ensaio. Excelente reflexão, subscrevo na totalidade. É um facto: nós, homens, temos uma escrita menos confessional. Não por ser uma característica específica da escrita mas porque isso está inserido no nosso código de conduta. Duas mulheres que mal se conhecem, numa sala de espera, podem começar a conversar sobre assuntos da vida privada com relativa facilidade. Dois homens na mesma situação falarão de política, de futebol, de tudo – menos da vida privada.
Estas diferenças percebem-se também nos blogues. E é extremamente interessante analisar isso.
Tens razão, Pedro. É muito fácil as mulheres começarem a falar da sua vida privada. Fácil demais. Nós pecamos por excesso, vocês por defeito.
E não é só o falar, é também o ouvir. Homens e mulheres ouvem de formas diferentes. E isso passa muitas vezes para a música da escrita.
É curioso falares nisso. Também acho que ouvimos de formas diferentes, embora não seja assim tão fácil de aferir semelhante coisa.
Toda a razão, Teresa: os homens são de facto mais renitentes à confidência e isso reflecte-se na escrita, mesmo aquela que é declaradamente autobiográfica. Mas quando o fazem são irresistíveis, é verdade, porque o fazem com maior elegância e contenção do que nós. Se tivessem consciência disso, acredito que cederiam mais vezes. E lá se ia o encanto da surpresa!
Belo texto, belo tema.
Já vocês, pelo contrário, conseguem ser irresistíveis mesmo quando não fazem confidências.
Isso é que é charme, Pedro! 🙂
:))
Absolutamente irresístiveis, Teresa, também por ser tão raro e quase sempre inesperado. Já leste A língua posta a salvo do Canetti?
Não li, Leonor. Mas já tomei nota 🙂
Eu cedi a este seu “Lê-los”, Teresa. 😉
:))