Uma das melhores livrarias de Lisboa, de que fui durante anos visitante e cliente habitual, era a Bulhosa, situada no extremo sul do Campo Grande, já quase em Entre-Campos. Um dia, há pouco mais de um ano, encerrou “para inventário”, como rezava o letreiro. Não voltou a abrir: morreu assim, ingloriamente, perante o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura.
Há dias passei por lá. Onde morou a Bulhosa está agora um desses estabelecimentos pindéricos que prometem “depilação total nas axilas e nas virilhas” em letras garrafais estampadas à entrada. É uma actividade em expansão, ao que parece. A malta preocupa-se com a fachada e marimba-se para o intelecto: os neurónios não propiciam fotos giras no Instagram.
Lamento, claro. Mas não estranho. Ainda há pouco, numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um. «Li por obrigação quando andava na escola, felizmente hoje já não preciso disso», respondeu um, sem sombra de ironia. Daí as livrarias – que também eram um espaço de convívio, de socialização, de buscas e descobertas – irem fechando, umas atrás das outras, por esse país fora. Pobre e frívolo país, tão mal instruído e tão bem depilado.

Passo regularmente em frente à antiga Bulhosa e notei logo que ela fechou, e muito estranhei nunca ter visto neste blogue um post sobre o assunto. Este post vem bastante atrasado. (Mas mais vale tarde que nunca.)
A malta preocupa-se com a fachada
Em matéria de depilação de axilas e virilhas, questiono em que é que isso é “fachada”, dado que as pessoas raramente mostram as axilas e as virilhas umas às outras.
Eu no verão corto os pelos nas axilas mas não é porque ache que são feios, somente porque acumulam mau cheiro do suor; sem pelos nas axilas quase que não se cheira mal.
perguntei-lhes quantos livros tinham comprado em 2018. Zero, nada: nem um.
A minha mulher é uma pessoa muito culta e farta-se de ler, mas também não compra um único livro – todos os livros que lê são clássicos, que ela requisita na biblioteca pública do bairro. Ela farta-se de me criticar por eu comprar livros, diz que é um desperdício disparatado de dinheiro (embora no meu caso não seja, porque em geral compro livros acabados de editar e que ainda não existem na biblioteca, se é que alguma vez lá virão a existir).
Sr Lavoura
Segundo a lei vigente: – A Biblioteca Nacional recebe um (ou mais) exemplar editado em Portugal.
Boa Leitura
Amendes
Aumentámos a nossa cultura geral ao ficarmos a saber que você “corta os pelos nas axilas”.
Antes isso do que cortar os pulsos.
O lavourismo está cada vez melhor
Quanto pior, melhor.
Sabes que nestes últimos meses me brotou uma verdadeira paixão pelo nosso Luís Lavoura, até com requebros eróticos (exponenciados agora por este seu comentário)? E até com ele já tenho arrufos e tudo …
Ó diabo, apanhaste algum vírus marado aí em Bruxelas?
Sei lá, deve ser isso …
Essa dos pelos causarem mau odor é de cabo de esquadra. O tempo que gasta em irritar a pele, gaste-o a lavar-se: l-a-funcao-do-cabelo-no-sovaco/
https://diariodebiologia.com/2010/09/qua
Eu não tenho tempo para depilações. Faz-me falta o tempo das depilações para ler e comprar livros.
Cortar os pelos das axilas não irrita a pele; eu faço-o com um aparador de cabelos, que nem chega a tocar na pele.
Lavar-se com sabão, isso sim, é que prejudica a pele, pois elimina a gordura natural dela.
Quanto à eliminação do cheiro, trata-se de um facto que você pode comprovar experimentalmente. Não é de cabo de esquadra, é um saber de experiência feito.
E a propósito da depilação de fachada, parece-me que Portugal ainda não está tão mal como, digamos, o Líbano, no qual, segundo li há pouco tempo na Economist, uma coisa que está muito em voga são cirurgias estéticas à vulva. Para pôr os lábios mais assim ou mais assado e para “rejuvenenscer” esse tão importante – e, sobretudo, tão visível! – órgão.
Também fui visitante e cliente habitual da Bulhosa quando trabalhava nas proximidades, Pedro. Era um espaço enorme, convidativo e com uma oferta muito interessante. E na altura muito frequentada (cheguei mesmo a cruzar-me com o Presidente da Comissão Europeia em exercício). Já tinha era o irritante sufixo “Books and Livings”. Tal como tinha a Leitura, do Porto, que também encerrou definitivamente no ano passado. No outro dia passei em frente: agora é um bar tipo “pub”, mais apropriado para o tipo de consumidores que a Baixa portuense recebe hoje em dia.
A Bulhosa não era, em minha opinião, muito convidativa: por ser muito funda, tinha pouca luz na parte de trás. Eu não me sentia lá confortável a ler partes dos livros.
Supondo que a Baixa portuense recebe o mesmo tipo de gente que a de Lisboa, livrarias ainda podem ser lá úteis, pelo menos eu no outro dia visitei a Bertrand do Chiado e, para minha surpresa, vi lá montes de estrangeiros com aspeto de turistas a pesquisar livros.
Abaixo a badana, viva a bezana: podia ser um ‘slogan’ para esta tendência (não só portuense) de abrir um bar onde havia uma livraria, João Pedro.
Isso era muito bom anúncio para uma actual livraria: secção “degustação” (como agora se diz o estar na tasca) “Abaixo a bezana, viva a badana”, e do outro lado secção “estantes” com o anúncio inverso. Descontos no preço do vinho e petisco consoante as badanas adquiridas, e vice-versa. Ou vive-versa
O bar em questão chama-se, salvo erro, Romanoff (passe a publicidade). Se alguma vez voltarem ao negócio original, podem aproveitar para uma secção de literatura russa pré-soviética.
Também fui cliente da Leitura, embora nunca a tivesse visitado.
Uma vez comprei o #4 da Revista Periférica numa Feira do Livro aqui na Beira. Achei interessante e liguei para a Leitura pedindo se eles me conseguiriam arranjar os 3 primeiros números.
E arranjaram!
E foi assim que passei a conhecer melhor a escrita do Rui Ângelo Araújo.
E fiquei cliente (via CTT) da Livraria Leitura.
Fiz o que pude, mas ela fechou na mesma.
⚘
Maria
Também aprecio muito a escrita dele. Aliás, já escreveu no DELITO. onvidado-rui-angelo-araujo-9220351
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/c
Passei muitas horas sentada nas escadas da Leitura, em criança, enquanto a minha mãe procurava o que queria ler. E foi por lá que comecei a procurar também.
Tudo virou bar ou café. Não posso negar que o Porto está cuidado e atraente. Todo bem depilado, como diz o Pedro Correia, deixou de ser o meu Porto.
Num Domingo de Novembro tive que fazer horas para uma visita no Sto. António, quis tomar um café. Piolho, Ceuta e Aviz fechados. E neguei-me a entrar nas várias montras de neon ikea onde suponho se tomem brunches acompanhados de batidos com uma folha de hortelã. Tenho sempre medo de entrar nesses sítios; o meu inglês é mau, pelo que posso ser mal interpretada.
Salva-se uma Bertrand na rua da Fábrica, onde comprei em Dezembro um Peter Pan e um Feiticeiro de Oz.
Isabel
Eu também era “cliente” com onze, doze anos, mas preferia a secção da BD franco-belga, de que havia às carradas, no primeiro andar, que dava para a rua de Ceuta (precisamente a que encerrou mais cedo).
Pela minha experiência recente, há alguns cafés mais “tradicionais” que por ali estão abertos ao Domingo, na zona de Carlos Alberto.
“o alheamento quase total desta cidade que anda de costas ostensivamente viradas para a cultura” esta frase tocou no ponto e fiquei triste com o post… Lisboa tornou-se demasiado fútil de repente (é claro que como reflexo de tudo no geral), e por isso é que agora, passados doze anos lá, me vim embora. Perdeu-se a essência da cidade (que era mais do que cultural), mas também as pessoas perdem valores a cada dia que passa, e por opção. Vão exclusivamente aonde se tirar a fotografia mais ‘fashion’ para exibir, e é óbvio que o tempo a publicá-la e a trabalhar o seu “fake self” online será prioridade em relação a ler um livro. É claro que cada um sabe de si e tem o direito a gastar a vida como entende, mas os resultados ficam à vista enquanto sociedade. E acho que ainda nem se viu nada… Também lamento, para dizer o mínimo.
Toca no ponto certo, Isabel. Vou destacar o seu comentário.
Muito gentil. 🙂
Merece.
Das livrarias (mais ou menos) “mainstream” frequentáveis, restam a Almedina, as Bertrand (em equilíbrio instável) e a Barata (asfixiada pela Leya). À Bucholz (também em abraço de urso da Leya) já não vou há algum tempo. A Bulhosa era, de facto, um dos últimos portos de abrigo, tanto em Entrecampos como nas Amoreiras.
Revejo-me por inteiro no espírito e na letra da breve digressão que aqui deixa, meu caro João. vraria-ferin
Permito-me acrescentar esta, que ainda resiste com indisfarçável orgulho:
http://www.lojascomhistoria.pt/lojas/li
A Ferin, claro.
Infelizmente, a devastação não é só por cá. Da última vez que fui à Foyles, em Londres, nem a reconheci. O que deixa também bastantes londrinos infelizes: http://lishbuna.blogspot.com/2015/03/blo g-post_96.html
Bem observado. E é como diz: está muito longe de ser um fenómeno lisboeta: é uma tendência geral.
A lenta e triste morte das livrarias…
Em Londres gosto muito da John Sandoe Books, ali à beira de Kings Road, em Blacklands Terrace. Mais ao fundo, a WorldsEnd bookshop é outro tesourinho, há uma outra em Fulham Road igualmente óptima, escapa-me agora o nome.
Abraço
Bem a propósito, esta evocação.
Abraço.
“…A lenta e triste morte das livrarias…
Em Londres gosto muito da John Sandoe Books, ali à beira de Kings Road, em Blacklands Terrace. Mais ao fundo, a WorldsEnd bookshop é outro tesourinho, há uma outra em Fulham Road igualmente óptima, escapa-me agora o nome.
Abraço…” não sei por que razão fiquei anónimo
abraço renovado
Agora ficou bem claro, meu caro Fernando. Segue outro abraço.
Acontece o mesmo em alguns dos mais reputados campus universitários norte-americanos. Paris vai resistindo um pouco melhor. E na Escandinávia, alguém sabe?…
Na Escandinávia desconheço.
Pobre e frívolo país. Portugal resumido em dois adjectivos.
Infelizmente, Ricardo, cada vez mais é assim.
A Bertrand está num bom local. Lembro-me de percorrer todas. começando cá em cima ao lado esquerdo, depois a Bertrand, a Portugal etc.
Tantas vezes fiz esse circuito também…
Poucos dias antes do Natal, numa livraria onde havia um movimento assinalável, reparei que a esmagadora maioria das pessoas que estavam na fila para pagar tinham na mão o tipo de livros que agora as editoras fazem como pipocas: de receitas de chefes famosos, sobre clubes de futebol, sobre pequenas curiosidades, típicas da cultura de almanaque. É o que se vende: livros de supermercado. E é por isso que os supermercados andam a matar as livrarias.
Lamento discordar: são as pessoas que matam as livrarias
Eu concordo com a Teresa.
Agora quando entro na Bertrand (única livraria a sério aqui numa cidade da Beira Interior) dou de caras com os mesmos livros que vejo no Modelo ou no Jumbo quando vou comprar batatas e cebolas. Nunca têm os livros que eu quero (geralmente de editoras independentes), é preciso encomendar tudo… e eu gosto de ver o que compro, de folhear antes de comprar.
E alguns livros nem é possível encomendar, tenho que pedir directamente às editoras.
Enfim, uma tristeza.
⚘
Maria
Editoras independentes numa cidade da Beira Interior, deve ser de facto muito difícil.
Livrarias independentes que são de facto deliciosas de visitar, conheço a Utopia no Porto e a Tigre de Papel em Lisboa. Nelas vê-se coisas que não se encontra em mais lado nenhum.
Ai Lavoura, o senhor nem lê, desata logo a responder como se não houvesse amanhã.
Eu disse que não encontrava livros de editoras independentes à venda na Bertrand.
E até cheguei a ligar para a Tinta da China e para a Cavalo de Ferro (2 exemplos) a pedir para eles enviarem as novidades aqui para o Burgo.
Haben Sie verstanden?
Posto isto, quando vim para cá viver até havia uma editora independente: a “Alma Azul”(alô Elsa Ligeiro, beijinho se por acaso passares por aqui).
Para terminar, caro Lavoura, gostei de saber que compra livros!
⚘
Maria
Acontece-me isso cada vez mais, Maria. Mesmo com livros que foram editados há relativamente pouco tempo.
Muitos livros são hoje vendidos no Continente, no Pingo Doce, na Galp e na BP, Teresa. Sinal dos tempos.
E o mesmo irá acontecer a todas as outras livrarias, incluindo as grandes FNACs e similares. É só uma questão de tempo. E não é necessariamente por falta de consumidores, tal como o Pedro apregoa. É uma actividade (livros em papel e respectiva venda) que tem naturalmente os dias contados com o normal progresso tecnológico. A música vai mais à frente neste aspecto, porque também é tecnicamente bastante mais fácil essa transição. Não é muito difícil de prever um mundo daqui a menos de uma década, sem livrarias e mesmo sem editoras, com os autores a publicarem directamente em plataformas digitais. Diria mesmo que isso só ainda não aconteceu em Portugal por um motivo: a própria língua Portuguesa, e a ainda relativa dificuldade em encontrar literatura digital em Português. Mas vai ser inevitável.
Espero bem que o seu vaticínio não se comprove, Ricardo.
E aproveito para divulgar algumas livrarias que ainda não se transformaram em depiladoras:
http://www.lojascomhistoria.pt/lojas/li vraria-ferin ia-bertrand-do-chiado
https://www.bertrand.pt/template/livrar
https://www.livrarialello.pt/pt-pt/
O progresso tecnológico não é um destino. Repare por exemplo que já há dezenas de anos que se inventaram as mudanças automáticas para automóveis, que constituem indubitavelmente um progresso tecnológico que facilita a vida do condutor, mas elas nunca passaram de uma exceção na Europa. Apesar de as mudanças manuais darem muito mais trabalho ao condutor, os condutores europeus parecem continuar a preferi-las.
Em música, atualmente está na moda editar discos em vinil, uma tecnologia claramente ultrapassada e incómoda mas que algumas pessoas voltam a preferir.
Em livros a coisa fia ainda mais fino: muitas pessoas gostam de ler pedacinhos de um livro antes de o adquirirem. E isso só se pode fazer numa livraria.
Ao passo que com o forno eléctrico aconteceu o contrário.
Os livros digitais são incontestavelmente mais práticos, sobretudo quando falamos de calhamaços de 700 páginas. Sou fã
Depilados mas tatuados …
Até ao tutu. Ou até ao tutano.
O texto está uma maravilha. Mas é uma triste ironia que prolifere certo tipo de lojas no lugar de antigas livrarias.
Lembro-me de Jaime Bulhosa fazer o post de despedida no blogue.
A livraria fechou vai fazer dez meses, confirmei agora: inal-de-marco-1804809
livraria-po-dos-livros-fecha-portas-no-f
É um facto, mas a verdade é que já muita oferta online. Apesar de gostar de me perder dentro de uma livraria ou alfarrabista eu compro a maioria dos meus livros online (livrarias e alfarrabistas). É mais prático e mais rápido
Qualquer dia as pessoas já não saem de casa senão para irem à depiladora e ao tatuador.
A sua depiladora não faz domicílios?
‘Tão…
A do Lavoura faz.
Isso não tem nada a ver. Tenho um kobo e leio onde quiser, dando um jeitasso quando os livros têm centenas de páginas. Leve, prático, com iluminação própria, conforme o grau de luz ambiente….também era um purista , mas rendi-me às evidências. Era apenas uma questão de preconceito. Depois passou-me.
Tem depiladora, como o Lavoura?
Pedro,
Também já tinha dado pelo encerramento da livraria.
Lembro-me bem da Baixa Lisboeta repleta de livrarias…
Para alguém que como eu trabalhou numa das livrarias mais conhecidas da “nossa” Almada, ver fechar estes estabecimentos é como se eu morresse mais um pouco.
Percebo que a forma de aceder virtualmente a um livro através de equipamentos electrónicos torna-se mais fácil do que andar com ele debaixo do braço.
Mas eu ainda prefiro a segunda opção.
Daqui a cem anos os livros serão obras somente de museu. E as bibliotecas deixarão de existir.
Abraço.
É, meu caro. O encerramento de algumas livrarias doeu-me bastante. A Portugal, na Rua do Carmo, por exemplo. Felizmente resiste a Férin, na Rua Nova do Almada – agora com o distintivo “Loja com História” (como a Trindade e a Bertrand do Chiado).
Descansem:
A roulotte biblioteca da Gulbenkian vai voltar ao serviço.
Primeira paragem: – Bairro da Lapa.
Amendes
Gostei de saber, caro A. Mendes.
Gostei muito do texto, Pedro. Foi lá que apresentei o meu livro e, talvez também por isso, nutria por essa livraria verdadeiro apreço.
É caso para isso, Catarina. Eu por acaso nunca lá apresentei livros, mas assisti a apresentações. É sempre mais um elo que se ganha – e que se perde, neste caso.
(Dentro de pouco tempo enviar-lhe-ei um convite.)
Fico à espera 🙂 Obrigada.
Ler e escrever passou de moda quando acabaram com os cigarros. Aquilo estava tudo ligado, pá.
Em compensação, há cada vez mais formigos.
Só uma notinha: depois do Borges ainda não apareceu ninguém a escrever de modo a que um gajo tem mesmo de ler aquilo. É só jana. O Mexia ainda obrigou meia dúzia de carolas a comprar umas coisas do Ambrose Bierce razoavelmente traduzido mas depois disso acabou tudo e agora, tirando a Adília Lopes, não há mais nada para ler.
Finito.
Pum.
E o Chagas Freitas? Já experimentou?
Por acaso não — mas lembrei-me agora de Daniel Jonas que também tem uns poemas muito catitas, embora aquilo às vezes se embrulhe um bocado. A grande potência plástica (verbal, neste caso), quando se apaixona por si própria, pode ser um problema.
Daniel Jonas, sim. E José Miguel Silva. E Beatriz Hierro Lopes. E Filipa Leal. E José Alberto Oliveira.
Vou, quase sempre, à mesma Livraria (uma Bertrand num centro comercial). Longe vão os tempos em que ia à Baixa para o efeito. Mas o que interessa, salvo em véspera de Natal, altura em que os portugueses desatam a ler furiosamente (só pode, tamanho é o burburinho que sinto por lá nessas alturas), tem sempre poucos clientes, para não dizer que está às moscas.
Devo dizer que tem um lado positivo. Ser bem atendida e com tempo por dois funcionários simpáticos; daqueles livreiros (uma e um) à moda antiga que sabem o que estão a fazer apesar de, coitados, sempre chegar o momento em que têm que impingir o livro da semana, como quem vende as cautelas da lotaria nos correios.
E isto é uma Bertrand num local movimentado.
Mas, apesar de tudo, e ao contrário do que sempre me dizem, não acho que se leia menos do que há 30 anos. Ah, contrapõem-me, mas ‘lê-se pior’.
Não sei. Quando me lembro dos colegas de liceu e dos pais dos colegas de liceu, lembro-me que a grande maioria não lia, salvo jornais desportivos e tv guias. Alguns jornais diários e um ou dois livros que, claro, os marcariam para a vida (um clássico era o Fernão Capelo Gaivota).
Claro, que havia gente que lia e gente que lia muito, mas era o minoria. E hoje em dia? Mal ou bem, pouco ou muito, a grande maioria lê as notícias online (sei, não é a mesma coisa que papel), a grande maioria passa algumas horas e escrever (sei, com kapas e muitos smiles ou emojis e muitos migas e bros e coisas desse tipo) e, quanto a livros, a maioria, continua a ler um ou dois. Salvo os que foram obrigados a ler no liceu, em rigor, os resumos dos ditos.
Enfim, não acho que as coisas estejam piores do que eram.
Isabel
Também não acho que se leia menos, embora considere que se lê pior. A dispersão é um mal da nossa época. Toda a gente lê a todo o momento diversas coisas ao mesmo tempo, com várias janelas abertas. Com reflexos inevitáveis na capacidade de concentração e de reflexão.
Outro problema é a falta de hierarquização: esbateram-se ou extinguiram-se os graus de relevância. Vivemos hoje num imenso plano horizontal, onde tudo quanto vem à Rede é peixe, do óptimo ao péssimo. Esta “democratização” faz esbater diferenças, equiparando tudo no mesmo grau de equivalência. Nada mais ilusório, nada mais falso.
É verdade que os hábitos de leitura, que nunca terão sido famosos por cá, se têm vindo aparentemente a perder. Mas também é verdade que o online fez mossa no negócio das livrarias. Vejo cá por casa: no ano passado somos capazes de ter comprado mais livros do que aqueles que lemos (não foi o meu melhor ano de leitura, admita-se, mesmo que tenha ficado bem acima do que imagino ser a média nacional); no entanto, foi praticamente tudo comprado online. As poucas excepções foram uma meia dúzia de bandas desenhadas adquiridas nas lojas da especialidade e nas promoções da Fnac, alguns paperbacks em segunda mão comprados na feira do Fórum Fantástico (na banca de uma pequena livraria independente), e um único volume comprado na Feira do Livro de Lisboa (na hora das promoções, claro).
Entre os meus amigos que mantém hábitos de leitura – ainda somos suficientes para algumas tertúlias anuais – os hábitos de compra são muito parecidos. Com uma ou duas excepções, que se converteram quase em exclusividade aos e-books. Nestes casos não admira a opção pelo online: os livros que costumamos ler raramente se encontram nas prateleiras das Bertrands e das Bulhosas…
João, atrevo-me de qualquer maneira a questionar o que ganhará Lisboa se as livrarias continuarem a ser substituídas por lojas de depilação, e outras que vendem ouro a peso e sei lá que mais. XVrk
Uma livraria não é apenas um local que vende livros. É um ponto de referência em qualquer cidade com aspirações a sê-lo verdadeiramente. Falo por mim: não quererei conhecer uma capital sem livrarias.
Recomendo, a propósito, este belo filme da Isabel Coixet:
https://www.youtube.com/watch?v=WVDLNbk
Concordo com tudo o que dizes, Pedro – e o que dizes das livrarias podíamos dizer também das salas de cinema, por exemplo (a propósito da notícia do encerramento dos cinemas do Monumental, para breve). Lisboa não ganha nada com a troca de livrarias por lojas de depilação ou pela substituição de cinemas por lojas indiferenciadas (como aconteceu ao saudoso Cinema Londres). Só não creio que o desaparecimento de livrarias e de cinemas se deva apenas a haver menos leitores e espectadores – isso terá impacto, claro, mas também é verdade que os hábitos de leitura e de ver filmes mudaram radicalmente nos últimos anos.
E mesmo quando não mudam: no meu caso, leio bastante (compro livros), e vou ao cinema com muita regularidade; ainda assim, em quinze anos de Lisboa entrei uma vez na Bulhosa do Campo Grande e meia dúzia de vezes na Bertrand do Chiado, sem ter memória de lá ter comprado algum livro. Ainda fui algumas vezes ao Londres, quando vivi na Avenida dos EUA, mas frequentei aquelas salas tão simpáticas muito menos do que teria gostado, agora em retrospectiva; ao King, que também já desapareceu, fui uma única vez; e no Monumental, prestes a fechar, assisti a dois ou três filmes (o último foi o magnífico “Roma” de Alfonso Cuarón; antes disso, julgo que tinha sido o “Melancolia” de Lars Von Trier em… 2011).
Isto para dizer que se calhar devia ir com mais frequência às livrarias que me dizem alguma coisa – as duas ou três lojas especializadas em BD que ainda temos, e uma ou duas livrarias independentes (há duas muito boas ali na zona da Estefânia). Quanto aos cinemas, enfim, com o desaparecimento de praticamente todas as salas de bairro restam-me algumas sessões especiais no Nimas e a Cinemateca…
Gostei muito, Pedro.
Já tinha gostado do livro.
Mas tive de esperar que saísse o DVD.
O bom foi poder vê-lo em casa, sossegada, sem pipocas e outros ruídos.
E assim também ninguém viu a lágrima indiscreta que resolveu aparecer no final do filme (nem sei como, deve ter sido do polen).
⚘
Maria
Belissimo filme. Surpreendeu-me pela música, pela fotografia, pela originalidade, pela delicadeza.
Lisboa fútil e frívola? Porque não Portugal? Ou o Ocidente?
Bem vêm cá os camones, ganhar “mundo”, só que ao invés de um mapa trazem o guia da coruja e um GPS. Seguem a rota das hamburguerias/padarias gourmet, tiram a sua selfie, largam o lixo na calçada típica, porque em Roma sê romano.
Confesso que tenho o triunfo dos suínos para reler (e o 1984 no Kindle) mas o arranque está complicado.
Os camones vêm cá alçar a pata. E levam as entidades públicas a travestir o belo nome de Lisboa, chamando-lhe “Lisbon”.
Fruta da época.
Fruta é do Oporto.
Terra das Francesinhas para todos, dos 5 aos 50€.
E de bacalhau ou vegetais.
É para condizer com o “Allgarve” e a “Lisbon South Bay”…
Desculpem as vírgulas fora de sítio.
Isabel
Está desculpada, Isabel.
Vivemos numa sociedade em que a distracção se tornou a bênção suprema. Os livros não ajudam: exigem intelectos concentrados. Há mesmo quem os entregue ao fogo, sem sombra de remorso. É preciso afastá-los, suprimi-los, fazê-los desaparecer. E assim se cria a ilusão de que as obras passam – e os idiotas ficam.
É isso, infelizmente.
O tempo que já usei, em dez anos, a ler o Delito dava para ler talvez uma estante de livros.
Tempo bem empregue, não tenho a menor dúvida.
Tristemente verdadeiro….
Infelizmente.
Mas este teu texto levanta uma situação preocupante na sociedade portuguesa. Ou pelo menos nas grandes cidades. E sobre a qual não tenho lido: o desaparecimento dos barbeiros.
Politicamente incorrectos, esses estabelecimentos. Destinam-se a “perpetuar estereótipos de género”.
O corte da pilosidade é feito mais ao lado.
A nossa saudosa Bulhosa de Entrecampos tem as vitrinas forradas a papel.
E trabalhando eu mesmo em frente, era um dos meus roteiros preferidos na hora do almoço.
Dar a volta aos escaparates, vasculhar as prateleiras, folhear tantos e tão bons e outros menos bons livros e ainda outros maus livros.
Tantos livros aí comprei para mim própria, lá para casa e para presentear.
E quando pedia para embrulhar pedia sempre o papel de criança, cheio de histórias e imagens de encantar.
Memórias que ficam para pena de alguns e indiferença de muitos.
O problema é esse mesmo: a indiferença de muitos.
Enquanto houver ginásios cheios e livrarias vazias, o nosso povo tem músculos fortes e neurónios fracos.
Devia haver espaço para tudo. Para ginásios e livrarias.
O Pedro Correia faz lembrar aquela história que, tal como ele e numa roda de amigos com um nível cultural supostamente acima da média, o amigo Zé o interpela, dizendo: Porra, Pedro, sempre de livro debaixo do braço. Não tens mais que fazer ao dinheiro? Faz como eu. Olha ali, vês aquele maquinão? É o meu novo Mercedes topo de gama. Vê lá se, ao menos, compras um carro em condições.
Ao que o Pedro responde: Caro Zé, cada um faz o que quer com o seu dinheiro. Mas fica sabendo que ainda ontem comprei um Picasso.
E comenta o Zé: Porra, Pedro, essa merda gasta gasolina comócaral#o-
hmmm
Uma vez fui à Bertrand perguntar se ainda tinham um livro que tenho em casa editado pela Bertrand. Queria arranjar um segundo exemplar para oferecer. A fulana que lá estava disse-me que nunca jamais em tempo algum tinham editado aquele livro na Bertrand. Estive vai não vai para ir a casa num instantinho e trazer o meu exemplar para o esfregar na fuça daquela parola medonha que estava ali a vender livros em vez de estar a vender peúgas chinesas na feira da Malveira, mas depois decidi deixá-la ficar assim no seu estado natural: não devemos interferir na Natureza.
O Pedro revelou aquele caso em que o grupo nao comprava livros.
Por sorte ? , aqui só responderam leitores de livros . Coisa bonita.
Estarao os outros a trabalhar nas tatuarias ?
Os outros não têm tempo para ler. Andam muito ocupados a tatuar o focinho.
Pois é Pedro,enquanto os homens só lerem “A Bola” e elas só a ver novelas,vamos continuar a ser os bobos da Europa!
Pode ser k a próxima geração entre em ruptura c/ este tipo de hábitos errados e antiquados.
Não podemos continuar a ter ginásios c/ pessoas cheias de músculos mas c/ cérebros fraquinhos.
Os bons livros fazem as boas mentes!!
Os homens já não lêem ‘A Bola’, meu caro.
Ah não?
Então só lêem o “Record”?
Ou só vêem a Sportv ?
Pró caso é indiferente!
Estou certo de k percebeu o k eu keria dizer nas entrelinhas.
Cumprimentos e bom fim semana