Lá caiu. Marcelo fez trinta por uma linha mas não adiantou: ao PCP e ao Bloco não poderia haver cedências que os contentassem porque nem elas eram credíveis (pelo contrário, os dois acham que vem aí uma crise e nesta o Governo e o PS fariam o que a Europa mandasse) nem resolveriam a alhada em que aquelas duas agremiações se meteram. É que, não obstante os numerosos exemplos históricos em que se poderiam ter inspirado, ambas estavam a ser sufocadas eleitoralmente pelo abraço socialista, pelo que corrigiram o tiro: na rua é que está bem quem é depositário de mensagens redentoras; e, de gabinetes, os dos sindicatos para uns e os das universidades e redacções das televisões para outros servem bem, à falta de melhor.
Diz-se que o PCP não é europeísta (e não é porque a Europa é capitalista e não deixará de ser), mas o Bloco sim. Na prática, não há diferenças: a Europa que convém ao Bloco é uma em que o capitalismo seja aperfeiçoado de tal forma que deixe de o ser.
Portanto, venham de lá as greves e as manifestações, que o Carnaval é daqui a dias.
De Costa ninguém sabe se fez cedências aberrantes porque, sendo como é uma pessoa genuinamente lunática nas ideias que julga redentoras para a economia do país, acreditava nelas, ou porque já contava que a comunistada não lhe comprasse a barganha e por isso quis amassar um capital de choraminguice para a campanha eleitoral, que na realidade desejava agora e não no fim normal da legislatura.
Vou mais pela segunda hipótese, sendo o homem, como é, um mestre da duplicidade e da falta de escrúpulos: já deixou o caminho juncado de cadáveres de camaradas e amigos, o que não é nada, e começou a sua encarnação como primeiro-ministro com o golpe de asa de se aliar a pestíferos, o que é muito.
A malta da estabilidade, um valor que, talvez como herança inconsciente do salazarismo, e rejeição consciente das três primeiras décadas do século passado, é tido em alta conta, geme. Sem razão: porque a estabilidade ao serviço de políticas de desastre apenas o aprofunda e, no caso, o Orçamento em duodécimos seria bem melhor que o asneirol aprofundado do que chumbou. É verdade que, agora que vamos ter um governo de gestão (deixo de lado a questão de saber se, não se tendo Costa demitido, os seus poderes são plenos e abrangem a mais que provável tentativa de usar o aparelho de Estado para efeitos eleitorais), à pilhagem no aparelho de Estado é provável que o PS junte mais uns quantos milhares de boys sôfregos de última hora, que será caro despedir. Mas isso pouco vale face, por exemplo, à revisão que já se alinhavava das leis do trabalho e à loucura da facilitação do acesso à reforma. Na realidade, todas as reversões feitas à legislação troiquiana, que foi em si mesma modestíssima no seu escopo reformista, foram um retrocesso que se vem vindo a pagar em crescimento débil e em comprometimento do futuro; a ideia de que o empreendedorismo precisa de estabilidade só é verdadeira se esta não consistir na continuação da demolição da liberdade económica e no aumento permanente da punção fiscal; e estabilidade tivemos muita nos últimos seis anos, mas acabamos relativamente mais pobres.
É certo que vai por aí muita propaganda a respeito dos pós que teremos crescido em relação à média comunitária, selecionando cuidadosamente um período curto onde isso se tenha verificado e contando com a floresta de dados para defender tudo e, se necessário, o seu contrário. Mas o ponto a reter é que as médias incluem países que, por razões várias, também têm crescido pouco, como a Alemanha, a França e a Itália.
Nenhum destes países, porém, tem o nosso problema atávico de atraso relativo e nenhum é um reservatório de mão-de-obra para a emigração qualificada e de empregados de mesa para servirem, obsequiosamente, a indústria do turismo dos loiros ricos que vêm ver as maravilhas ignotas dos cafres da Europa. Aqueles países que precisavam de esquecer o pesado manto do atraso soviético passaram ou estão a passar por nós; e para quem sempre defendeu que era, e é, o catolicismo pesado dos nossos avós que entravava o progresso, está aí a Irlanda, o mais claro caso de sucesso e aquele que seria mais prenhe de ensinamentos se a cáfila esquerdista que nos desgoverna pudesse aprender.
Vamos a eleições, então. Todas as pessoas que, como eu, evitam ver e ouvir a galeria de ineptos, treteiros e pataratas sortidos que nos pastoreiam e as televisões diligentemente nos enfiam todos os dias pela sala-de-estar, sorriram com alívio: o quê, não veremos mais Cabrita e a sua litania de escândalos e percalços, nem o tipo da Defesa e a sua linguagem inclusiva para militares moderninhos, nem o empregado de Nogueira que polui a Educação, nem Costa e a sua Conxituição, nem a mãezinha da Covid, nem aqueloutra empregada doméstica que superintende não sei em que pasta, nem aquelas caras e aquele paleio cansado da banha de cobra do progresso socialista a golpes de esmolas europeias e dívida que não cessa de crescer?
Infelizmente, a Direita não está na melhor forma, tem feridas que ainda não sararam (ou melhor, dúvidas sobre quais os enfermeiros adequados para delas se ocuparem), e as nuvens negras que já estão no horizonte o eleitorado, que é curto de vistas, ainda não as topa.
De modo que pode acontecer que lá para Fevereiro ou Março descubramos que ainda não foi desta que ficaram reunidas as condições para o volte-face. E, pior, não é impossível que em nome da salvação nacional se venham a criar as condições para um bloco central governar no meio do diabo que entretanto chegou, com o seu cortejo de diabinhos – inflação, agências de notação que afinal descobrem que não estamos no melhor dos mundos, BCE que se lembra de que a estabilidade dos preços é que é o seu mandato, frugais que engrossam a voz, e um longo etc.
Se for assim (e o bom que têm as previsões é que quase sempre a realidade as infirma), então a queda do Governo não terá valido a pena porque falência por falência é conveniente que o seu responsável fique perfeitamente identificado. Senão, ainda continuaremos a ouvir, como ouvi a um deputado aguadeiro do PS, e tenho ouvido a muitos outros, que aquela associação de malfeitores não foi a responsável pela elaboração do programa da troica.
De modo que ó cabeça, não penses, goza o momento: Cabrita vai-se embora.

Prova de que isto nao tem cura? O Delito de há 10 anos. Leio aquilo, podia ter sido escrito ontem.
Quando um deputado ou governante vrm falar do Passos… 6 anos depois, assume a sua insignificância na História.
Tudo esterco, isto não tem solução. É declarar guerra à Alemanha ou Noruega, e esperar que nos conquistem.
Muito bom. Quanto “…à pilhagem no aparelho de Estado é provável que o PS junte mais uns quantos milhares de boys sôfregos de última hora,…”, e quanto à campanha eleitoral gerida por quem está sentada no poder e tem a comunicação ao dispor… o PR devia, por uma questão de equidade, nomear um governo de sua iniciativa para gerir com imparcialidade todo o processo que se adivinha. Gente escorreita e capaz não falta.
Não como pessoa, mas na qualidade de presidente a quem cabe garantir o regular funcionamento da democracia, com transparência, equidade e decoro, Marcelo Rebelo de Sousa obriga-se a definir uma solução que não permita a António Costa abusar da condição de governante para uma campanha eleitoral em notória vantagem, que ele não desperdiçaria, relativamente a outros concorrentes.
Retirar-lhe sem demora esse tapete em regime de exclusividade é uma emergência nacional.
Numa questão de tão decisiva importância o Senhor Presidente não pode falhar.
Concordo com tudo menos com a alegria pelo afastamento de Cabrita, que se mostrou mais eficaz a retirar intenções de voto a António Costa do que qualquer líder da oposição.
A propósito junto cenário desconfiado que já deixei noutro postal aqui no “Delito”
POSTAL DE MARTE (2)
Não sei, não sabe ninguém, se todo este cenário foi preparado nos bastidores, como um casal que se divorcia para fugir aos impostos ou outras obrigações legais, mas que continua a viver em pacifica comunhão de interesses e promessas.
De tal modo, que Costa pode sair de tudo isto como o grande vencedor, e mais uma vez substancialmente em beneficio próprio, bem aviado por multiplicação de fatores envolvidos.
O tipo de situação verificada a não acontecer desde já, seria improvável deixar espaço de manobra se viesse a acontecer tarde de mais com todas as pantanas expostas à vista desarmada.
Tanto mais que Costa embora com algumas limitações, à frente do governo não deixará fugir das suas mãos uma constante e apelativa campanha eleitoral, nestes termos sem concorrência, apenas ao seu alcance.
Já vi e ouvi alguém defender o contrário considerando que repetir o acordo com BE e PCP seria de todo impossível dada a zanga publicamente exposta.
A crer na hipótese de conluio, poderia muito bem acontecer o cenário inverso, com a promessa de numa próxima união mostrada em publico, sob o manto de amor eterno, casa posta, carro à porta, e carteira recheada.
Não sei e parece que ninguém sabe.
Cabrita era um seguro de vida da oposição. Má escolha de Costa entre outra más. Este foi o pior governo desde o de Dª Maria I
O orçamento não foi chumbado porque o BE e o PCP votaram contra. Foi chumbado porque a maioria votou contra, incluíndo a direita.
Das duas uma, ou o orçamento era necessário e chumbá-lo foi uma coisa boa, ou devia ter sido chumbado e votar contra era uma coisa boa, não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Por isso ou foram todos irresponsáveis ou foram todos responsáveis pois votaram da mesma maneira.
Votar contra e exigir que os outros votem a favor para o documento passar é tentar fingir que se é oposição quando o que queremos ser é uma muleta do PS.
Agora mascarados em inocentes e bonzinhos, os indiferenciados grupinhos de camaradas vêm, despudorada, tentar ofuscar a forma como votaram sugerindo, pedindo outro OE!. Consistentemente irresponsáveis.
Com todo o respeito
Caiu, caiu: phuta cos pariu.
Vira o disco e toca o mesmo.
Bola que rola e rebola…
Até a queda é uma encenação. Orçamento reprovado? Façam outro. Está postura do MRS e AC se não é combinada parece