Juntos seguimos e conseguimos *


Paulo Sousa,

“A partir das últimas décadas do século XX, este Pinhal tem sido largamente negligenciado. Para se ter uma ideia deste desinteresse, basta referir, por exemplo, que, no domínio dos recursos humanos, em 1980 havia 144 trabalhadores rurais, que, segundo os técnicos da altura, “não chegam para resolver cabalmente os problemas da instalação e tratamento dos povoamentos”, 29 guardas florestais, 4 mestres e 9 técnicos (engenheiros silvicultores). Hoje há 30 trabalhadores rurais (sobretudo mulheres), não há guardas a dependerem desta Direcção Geral (a Polícia Florestal que surgiu em sua substituição actua sobretudo na fiscalização da caça e pesca nos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Pombal, Batalha e Porto de Mós) e há apenas 2 técnicos para uma zona que compreende Marinha Grande, Pombal, Figueira da Foz e Serra dos Candeeiros.

As tarefas dos trabalhadores rurais passam sobretudo por medir pinheiros fiscalizar cortes, pintar casas e pontes. Nas matas do Pedrogão e do Urso, que juntas perfazem 8.000 ha, trabalham apenas duas mulheres. O número é claramente insuficiente, segundo o responsável pela administração deste Pinhal, acrescentado ainda que este “está ao abandono”. Efectivamente o orçamento de 2003 para limpeza e conservação da Mata foi zero. Por outro lado, ela rende anualmente ao estado cerca de milhão e meio de euros.”

 

Vidas de Carvão, As carvoeiras do Pinhal do Rei
de Paula Lemos
Imagens & Letras – 2007

 

O grande incêndio de 2017 destruiu 86% da área da mata conhecida por Pinhal do Rei. O texto acima, quase premonitório, foi publicado dez anos antes deste evento trágico. Já aqui postei sobre a demora na sua replantação e de como é difícil passar por ali, lembrando toda aquela imensidão de verde, que nos idos anos 40 inspirou o poeta Afonso Lopes Vieira.

 

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e esconde
e aonde, ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim

 

Quem não conhece a zona, quem ali não tenha construído memórias e desconheça a sua dimensão, não imagina o sofrimento de quem visita a mata.

Na sua largura máxima a mata tem 8.400 mt e 18.700 mt no seu maior comprimento, num total que ultrapassa os 11.000 ha divididos em 342 talhões. São necessários longos minutos de carro para atravessar a zona. É uma imensidão de área que nunca mais voltarei a ver como a conheci.

Não chegasse a incúria que nos levou a esta tragédia, António Costa, apostado em desrespeitar o “ditoso Lavrador” de Afonso Lopes Vieira, uns meses após a tragédia visitou a área e mostrou-nos que o que ficava ali bem eram sobreiros. Os nossos antepassados eram uns palermas e ele é que sabe.

Em Abril passado, e perante a decisão do Governo de adiar mais uma vez a sua replantação, o PS da Marinha Grande manifestou “a sua mais profunda desilusão e descontentamento” o que é demonstrativo da falta de sensibilidade com que se governa o país a partir de Lisboa.

Muito mais do que em qualquer metáfora literária, plantar uma árvore é realmente oferecer algo às próximas gerações, e nisso, estes adiamentos consecutivos dizem muito da forma como este governo lida com o futuro.

Entretanto, as acácias vão progredindo e os sobreiros plantados pelo senhor das meias verdes, sucumbiram.

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Foto minha tirada a 3 de Janeiro de 2020

* Slogan do PS para as eleições legislativas de 30 de Janeiro 

43 comentários em “Juntos seguimos e conseguimos *”

      1. As minhas raízes andam entre o Coimbrão e a Praia de Pedrógão, a Lagoa da Ervedeira e a Vieira de Leiria (e Praia da Vieira), com ocasionais descidas mais a sul, à Marinha Grande e a S. Pedro de Moel. A vida afastou-me desses lugares, mas por lá andei numa espécie de dever mórbido e que se impunha cumprir, dias depois do incêndio. E, embora espaçadamente, ainda os frequento. As memórias, de mais de meio século, leve a vida o rumo que levar, cá estão.
        O PM (perdão, o Senhor PM que o respeito é uma coisa muito bonita; e PM será decerto de “Primeiro-Mentiroso”) dirá o que quiser – e fará o que quiser, pois o povo, até prova em contrário, gosta demonstrada e largamente assim -; até admitir rir, como o fez a propósito de outro incêndio devastador. E esse também em vidas humanas. Quanto aos sobreiros, eu dir-lhe-ia, ao Senhor PM, o que fazer, na circunstância. Mas é difícil fazê-lo sem recorrer a fórmulas vernaculares susceptíveis de ser tomadas como menos respeitosas (e o respeitinho, já se sabe…).

  1. Curioso que o Partido Ecologista e Naturalista se preocupe mais com as bandarilhas do que com este, e outros casos parecidos.

    1. Esse partido radical animalista não quer saber das raposas nem dos coelhos que foram incinerados neste incêndio. O que os move é a pujante natureza das marquises.

      1. os mamíferos da política continuam mamando

        o meu filho foi contemplado com 100 he de pinhal com 20 anos

        o ministério da agricultura tem uma bela vista para o Tejo
        que na maré cheia corre para Espanha

  2. Estas governos e estas autarquias, especialmente os socialistas, andam a destruir o País há muito tempo — mas António Costa é o cúmulo do desprezo e da arrogância. No fundo Costa continua a ser estrangeiro e não faz cá falta nenhuma.

  3. Os concelhos de Leiria e da Marinha Grande, nos quais este pinhal se situa, são predominantemente industriais. A disponibilidade de mão de obra para tratar a terra deve ser, portanto, pequena. As pessoas preferem geralmente trabalhar na indústria a na agricultura. Ganha-se melhor. Mesmo que o Estado quisesse empregar centenas de pessoas a replantar o pinhal – que é um trabalho intensivo em mão de obra – não encontraria, com grande probabilidade, trabalhadores disponíveis para o fazer.

    1. O pouco que já se fez foi realizado por empresas subcontratadas. Há poucas semanas na conversa com um trabalhador de uma dessas empresas soube que o ICNF tem equipamentos em armazém, e não são poucos nem de pequeno porte, e subcontrata empresas que têm de ter equipamentos próprios. Se repararmos bem todas estas compras duplicadas contribuem para o PIB. Não são produtivas, mas contribuem.

    2. Mesmo que o Estado quisesse empregar centenas de pessoas a replantar o pinhal – que é um trabalho intensivo em mão de obra – não encontraria, com grande probabilidade, trabalhadores disponíveis para o fazer.

      Para que serve um ministério da agricultura, então? Plantem eles. Agricultura não se faz no escritório. Já nem falo nos das Florestas, esses passam o tempo a fumar cigarros cá em baixo ao lado do Galeto.

  4. Os ecologistas em geral recomendam que, quando uma propriedade arde, não se replante, antes se deixe a natureza regenerar-se naturalmente, com as espécies que ela considere mais conveniente. Não sei se este conselho é válido ou não neste caso concreto.
    Segundo leio na wikipedia, as acácias são uma espécie oportunista, que cresce rapidamente mas tende a extinguir-se passados poucas dezenas de anos.

    1. Nem todos estes 342 talhões são de produção intensiva. Os que estão junto à costa servem apenas de defesa do restante espaço, mas enquanto a exploração funcionou com algum aprumo o repovoamento espontâneo era uma técnica utilizada durante os anos iniciais de cada ciclo de 70/90 anos. O cenário actual é totalmente diferente. Exigia-se fazer alguma coisa além de plantar três sobreiros sob o olhar maravilhado de uns cretinos e onde se podem incluir os jornalistas que nunca mais noticiaram nem quiseram saber da progressão dessas plantas.

      1. enquanto a exploração funcionou com algum aprumo

        A exploração funcionou com algum aprumo porque era rentável. Atualmente a exploração de pinheirais não é rentável, ou é pouco rentável. É por isso que os pinheirais privados que por aí há estão em grande medida ao abandono. É por isso também que o Estado não investe a replantar – porque sabe que não é rentável.

        O Henrique Pereira dos Santos farta-se de escrever posts sobre este problema básico da economia rural portuguesa – a falta de rentabilidade, que leva ao abandono, à ausência de gestão, ao crescimento descontrolado de matos e, finalmente, aos incêndios.

        1. Há pouco mais de dez anos rendia um milhão e meio de euros por ano e actualmente, soube na mesma conversa com um trabalhador subcontratado, deixamos de ser autosuficientes em madeira de pinho e passamos a importa-la de Espanha.

      2. Este balio não merece que se lhe dê troco. Claro que o melhor era não ter deixado arder, mas nada fazer, nem, às vezes, desaproveitar a madeira não queimada das zonas ardidas, é criminoso. Todavia, plantar sobreiros em terrenos arenosos é o exemplo perfeito da ignorância, coisa que num governante deveria desclassificá-lo, mas…

        1. A ideia dos sobreiros foi parida por algum boy nomeado para um qualquer cargo florestal. Se os media pegaram no ridículo da situação, serve-se a cabeça do boy numa bandeja, sacode-se o pó das mangas e garante-se que Juntos seguimos e conseguimos. E assim se passa por habilidoso.

        2. plantar sobreiros em terrenos arenosos é o exemplo perfeito da ignorância

          Eu sou certamente um ignorante, mas sei que há muitíssimos sobreiros nos concelhos de Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém, e creio que muitos deles se encontram em terrenos bastante arenosos. Ou não?

        3. nada fazer, nem, às vezes, desaproveitar a madeira não queimada das zonas ardidas, é criminoso

          É isso que muitos proprietários florestais privados fazem. Ou seja, nada. Ardeu, deixa ficar. Não replantam.

          O Estado está tão-somente a ter a mesma atitude que muitos proprietários privados.

          Talvez seja criminoso. Mas o dinheiro não cai do céu. As pessoas só fazem alguma coisa (que custa dinheiro a fazer) se tiverem sólidas perspetivas de lucro.

          Eu prefiro que o Estado não esmifre os contribuintes para fazer maus investimentos.

          1. Os proprietários privados só não vedem a madeira das áreas ardidas, se não aparecerem compradores interessados. E só não aparecem compradores interessados, quando a madeira não tem aproveitamento.
            Nas propriedades abandonadas, pelos seus donos, é possível encontrar madeiras a apodrecerem que poderiam ser vendidas por razoável valor, mas aqui o Estado também tem culpa: primeiro porque não cumpriu a promessa, feita pelo actual PM, de que essas terras seriam geridas pelo Estado, ou por entidades apoiadas pelo Estado; segundo, porque a madeira abandonada na floresta constitui perigo e pode provocar ou potenciar fogos florestais, deveria, por isso, ser confiscada a favor das autarquias, por exemplo.
            Que o Estado abandone as suas propriedades, é muito mais do que lamentável. Não fazer nada, por parte dos nossos governantes e dos organismos que tem por missão defender a floresta, também deve merecer forte censura – e daí os meus parabéns ao autor do postal.

          2. Quem impediu que os terrenos não cuidados, alguns há várias gerações sem proprietários conhecidos, fossem geridos pelo Estado foi o PCP… que argumentou assim defender a propriedade privada. Já ouviu falar na vaca voadora?

          3. Agora percebo: eu ouvi falar em “Banco de Terras”, como forma de resolver o problema, mas, pelo que me diz, o PCP, que é contra os Bancos, foi coerente e votou contra. Confere.

  5. Quando a esquerda em geral é o PS quer repovoar Portugal com as ervas daninhas do islao/pentacostais quando se pode repovoar com católicos de matriz portuguesa espanhados dos pelos 4 cantos do mundo que podiam florir bem em Portugal… esquerda é uma aberração criminosa!!!

  6. Eu vejo aí ciclovias e painéis solares. Basta fechar os olhos.
    Temos de usar a bazuca para isso. Portugal na vanguarda do Verde.

    1. Eu vejo aí ciclovias e painéis solares.

      Admire-se. No Alentejo litoral (concelho de Ourique) já há vastíssimas superfícies que foram convertidas em parques solares.
      No Pinhal do Rei há mais nevoeiros, talvez não seja tão bom. Mas quem sabe, no futuro?
      Seja o que fôr, aquilo são terrenos do Estado. Como liberal, desejo que o Estado faça neles investimentos rentáveis, sejam quais fôr. Se não tem nada de rentável para fazer com eles, é melhor ficar quieto.
      (Uma outra possibilidade seria construir ali o célebre futuro aeroporto internacional português. São terras planas, boas para isso, e a meia distância entre o Porto e Lisboa.)

  7. Ia lendo este postal e pensando, com tristeza, como o jornalismo se demite cada vez mais de fazer este papel de fiscalização e denúncia.
    Como diz a Cristina, o que o Paulo fez aqui foi serviço público. Obrigada!

    1. Também era preciso que:
      – os jornais quisessem saber do assunto
      – houvesse jornalista que percebessem do assunto

      Eu, se escrevesse num jornal, até podia denunciar, mas não sei distinguir uma acácia de um acácio. Não sairia grande coisa.

  8. os sobreiros plantados pelo senhor das meias verdes, sucumbiram

    A minha experiência (e não somente minha) é que o sobreiro é uma árvore ruim à brava: se uma pessoa a planta, ela sucumbe e morre; mas se uma pessoa deixa um terreno intocado durante alguns anos, ele começa a ficar todo coberto de sobreiros nascidiços.

    Ou seja, os sobreiros só nascem quando semeados pela mãe Natureza. Quando plantados pelo Homem, secam.

    Não me admirava nada se, daqui a uns dez anos, sem que o Governo faça nada, grandes partes do pinhal do Rei aparecessem com pequenos sobreiros nascidiços.

    Eu já plantei diversos sobreiros e todos eles, ou secaram, ou estão mirrados. Por outro lado, tenho uma grande variedade de terras onde, por todas elas, há sobreiros nascidiços a crescer, bem viçosos.

    É uma árvore filha-da-mãe.

    1. Se plantar sobreiros em terrenos arenosos profundos, nunca os verá crescer. Os que nascem espontâneamente, também não vão para lado nenhum. Os que são cuidados, esses sim, podem crescer, mas demoram muitos anos a fazê-lo.

  9. A população do Distrito de Leiria, concretamente a mencionada, desde 1976 que têm sido uns totós: têm votado sempre no PSD ou no PS.

    1. Os nossos governantes vivem dentro de uma bolha, Pedro.
      O município da Marinha Grande ali ao lado esteve durante muitos anos nas mãos do PCP. Depois disso foi um município rosa e agora está nas mãos de independentes. Não podemos desligar este trajecto da forma como este assunto tem sido tratado.

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