Julgar prémios


joaomsandre,

E pronto, os Nobel estão quase todos atribuídos. Falta apenas o Nobel não oficial, o da economia. Como sempre, os prémios Nobel para a Paz e Literatura são discutidos por quase todos. Criticadas ou elogiadas as discussões. Já os prémios Nobel da Física, Química e Mediciona e Fisiologia são essencialmente ignorados nesta discussão pela sociedade em geral.

 

Pegando no post que o Rui escreveu abaixo, fui ver os nomes dos laureados com os prémios em Química, Física e Medicina dos mesmos anos dos vencedores do prémio da Literatura referidos. A lista é a seguinte:

 

Ano    Literatura Física Química Medicina
1902  T. Mommsen

 H. Lorentz

 P. Zeeman

 H.E. Fischer  R. Ross
1904

 F. Mistral

 J. Echegaray

 Lord Rayleigh  W. Ramsay  I. Pavlov
1915  R. Rolland

 W.H. Bragg

 W.L. Bragg

 R. Willstätter não atribuído
1919  C. Spitteler

 J. Stark

não atribuído  J. Bordet
1939  F.E. Sillanpää  E. Lawrence

 A. Butenandt

 L. Ružička

 G. Domagk

 

Pergunto então: que nomes serão reconhecidos pela maioria do público. Provavelmente, pensando um pouco, será possível identificar de imediato Ivan Pavlov, o dos reflexos pavlovianos. Hendrik Lorentz poderá ser conhecido, pelas equações que têm o seu nome. William Lawrence Bragg, que recebeu o prémio com o seu pai, talvez seja conhecido pelo seu trabalho com a cristalografia de raios X que permitiu decifrar a estrutura do ADN no laboratório Cavendish, enquanto Bragg era precisamente o director. Hermann Emil Fischer será conhecido através de uma das várias reacções que têm o seu nome. Depois destes, quem é conhecido? O meu desconhecimento da área da medicina provavelmente far-me-à falhar nomes óbvios, mas é um reflexo precisamente o ponto que pretendo ilustrar.

 

Se não conhecemos os nomes, como poderemos julgar a justeza da atribuição do prémio? Possivelmente poderíamos apontar vários cientistas que mereceriam o prémio e outros que o terão recebido sem grande mérito (Egas Moniz teria talvez sido um exemplo). O mesmo se passa na Literatura. Não conheço de facto nenhum dos nomes que o Rui referiu (Mommsen é-me conhecido, mas apenas de nome). Como posso julgar a sua escrita?

 

É-nos fácil criticar decisões destas. Prémios, como o Rui argumenta, são subjectivos. Nada nos diz que o nome venha a ficar para sempre como um farol a iluminar o seu campo de trabalho. Os prémios da Literatura, juntamente com os da Paz e da Economia (este menos) são mais fáceis de compreender pela generalidade da população. Os outros menos. Isso coloca-os como alvos fáceis. Não significa, no entanto, que sejam mais ou menos correctos. A nossa cultura geral, normalmente, não chega para o ajuizar. Não significa, no entanto, que os prémios sejam mal atribuídos ou que tenham a mesma validade se escolhidos por um «júri de província».

2 comentários em “Julgar prémios”

  1. Concordo em absoluto João e acho que o facto de não reconhecermos um nome não é prova de falta de qualidade do trabalho dessa pessoa, pode haver inúmeros factores externos que condicionam essa não resistência ao tempo. Um deles o próprio mercado editorial que na altura em que estes prémios foram atribuídos não funcionava como hoje em dia. Actualmente, com a globalização e a importância do marketing, qualquer vencedor do Nobel tem imediatamente uma grande procura em termos de aquisição de direitos e há logos reedições. No início do século as coisas não funcionavam bem assim. Por acaso eu até comprei no último ano um livro do Romain Rolland, embora seja de facto um nome totalmente desconhecido nos dias de hoje.

  2. Que texto tão interessante, João. Vendo um lado da questão dos Nobeis muito raramente abordado, seja onde for. E que só muito poucos estão em condições de analisar devidamente. Apesar disso, as excepções à regra do desconhecimento geral (começando pelo Dr. Pavlov) são notáveis.
    Falta ainda outro ângulo, que também deve dar pano para mangas: quantos físicos, químicos e médicos excepcionais não receberam o Nobel quando deviam ter recebido?
    Na medicina, por exemplo. Houve laureados mundialmente conhecidos. Lembro-me de Francisc Crick, James Watson, Alexis Carrel, Robert Koch, François Jacob, Konrad Lorenz, Nikolaas Tinbergen, Jacques Monod. Ou de Alexander Fleming, pela descoberta da penicilina (um pequeno passo para o homem, um enorme passo para a civilização).
    Mas, por exemplo, Jonas Salk, o inventor da vacina contra a poliomielite, nunca recebeu o Nobel. Apesar de também ele ter contribuído – e de que maneira – para o progresso da humanidade numa altura em que essa doença era um dos mais graves problemas de saúde pública em muitos países.

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