Murmúrios do mar
“Paga-me um café e conto-te
a minha vida”
o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois
“pago-te um café se me contares
o teu amor”
in Baldios, Assírio & Alvim , 1999

Ardis
A incompreendida figura do amor
a céu descoberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vingança, medidas, ardis
e enchemos os livros de ardente ausência
de nós próprios
ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos …
IN BALDIOS