José Tolentino Mendonça


Patrícia Reis,

Murmúrios do mar

“Paga-me um café e conto-te
a minha vida”

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
e uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
Que derruba primeiro no nosso corpo
Tudo o que seremos depois

“pago-te um café se me contares
o teu amor”

in Baldios, Assírio & Alvim , 1999

Um comentário em “José Tolentino Mendonça”

  1. Ardis
    A incompreendida figura do amor
    a céu descoberto sem que se exprima
    rodeamo-nos de vingança, medidas, ardis
    e enchemos os livros de ardente ausência
    de nós próprios

    ao entardecer corremos
    ao pontão sobre o mar
    e a vida só se parece
    com alguma coisa que sabemos …

    IN BALDIOS

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