
«Gosto de ser discípulo da Alice [do País das Maravilhas].»
Quem não o conheça, nem imagina como tem sentido de humor. José Manuel Pureza professor universitário em Coimbra e dirigente do Bloco de Esquerda, partido de que é deputado desde 2009, deixa isso evidente nesta entrevista telefónica. Dizendo, por exemplo, que o seu prato favorito é «o da Fábrica Bordalo Pinheiro». Se fosse milionário, este vice-presidente do Parlamento «ficaria seriamente preocupado».
Tem medo de quê?
De não saber ver o essencial.
Gostaria de viver num hotel?
Jamé…
A sua bebida preferida?
Coca-cola.
Tem alguma pedra no sapato?
Em terrenos pedregosos, uso botas fortes.
Que número calça?
41.
Que livro anda a ler?
Deserto, de Le Clézio.
Costuma ler os Prémios Nobel da Literatura?
Não por serem galardoados pela Academia Sueca.
Tem muitos livros à cabeceira?
Na cabeceira só um, na cabeça muitos.
Algum título especial nessa biblioteca da memória?
Claro. As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino, o Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago, e Caos Calmo, do Sandro Veronesi.
A sua personagem de ficção favorita?
Corto Maltese e quase todos os criados por Morris West.
Rir é o melhor remédio?
Claro. Melhor que qualquer genérico.
Lembra-se da última vez em que chorou?
Na morte do João Mesquita [1957-2009, antigo presidente do Sindicato dos Jornalistas], por sentir que não estivemos à altura da sua vida.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Depende do destino.
É bom transgredir os limites?
Para que servem os limites senão para dar paixão à transgressão?
Qual é o seu prato favorito?
O da Fábrica Bordalo Pinheiro.
Alguma coisa contra a Vista Alegre?
Tenho medo de partir a louça.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
Eu não pratico pecados por tabela. O mais capital de todos os que pratico é o da quietude perante as injustiças mais profundas.
Tem um animal de estimação?
Não, estimo a criação inteira.
A sua cor favorita?
O vermelho, sempre.
No desporto ou na política?
No desporto por simpatia, porque o preto é a cor certa nesse domínio. Na política, por convicção.
Costuma cantar no duche?
Canto sempre que me apetece. Quem canta…
E qual é a canção da sua vida?
Still Crazy After All These Years, do Paul Simon, e Inquietação, do José Mário Branco. Ambas contêm o elogio da desinstalação como lição de vida.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
A música pode ficar como está.
E a letra?
Na letra levo a sério a reflexão do Alçada Baptista, que defendia que devia ser um belo poema de amor.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Com Ricardo Araújo Pereira. Para juntar a gastronomia à inteligência.
As aparências iludem?
Só a quem se deixa iludir por elas. O algodão não engana…
Qual é a peça de vestuário que prefere?
Uma T-shirt “com mensagem”.
Como era a última mensagem que trouxe ao peito?
Entre tantas mensagens, gostei particularmente de um T-shirt que dizia: «Tens direitos humanos? Os palestinianos não…»
Qual é o seu maior sonho?
Continuar a sonhar com outros mundos. Sem parar.
E o maior pesadelo?
Acordar um dia com a noção de que se proibiram os sonhos.
O que o irrita profundamente?
A mediocridade disfarçada de esperteza.
Qual a melhor forma de relaxar?
Levar a sério o que escreveu Woody Allen: «A vida não é tão chata se se considerar a alternativa…»
Qual é a sua maior extravagância?
Teimar em ver o que está do outro lado do espelho.
Como a Alice, do Lewis Carroll?
Sim. A Alice nunca se resignou diante da realidade aparente. Gosto de ser seu discípulo.
O que faria se fosse milionário?
Ficaria seriamente preocupado.
Uma mulher bonita?
Vivo com uma. É um privilégio, não é?
E não sente ciúmes?
A posse destruiria o privilégio.
Acredita no paraíso?
Acredito que o construímos (ou destruímos) a cada momento.
Tem um lema?
«Contra factos só há argumentos.» (Mia Couto)
Entrevista publicada no Diário de Notícias (11 de Abril de 2009)

Uma boa entrevista, sim senhor. Fiquei a simpatizar com a pessoa que é o professor.
Lema por lema, prefiro outro, também de Mia Couto.
” Uns não vivem por temer morrer; eu não morro por temer viver.”
Muito bom 👍