José César


Sérgio de Almeida Correia,

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Quando eu era miúdo, a minha Mãe metia-me no comboio, no final de cada ano lectivo, e ele esperava por mim em Faro, para me levar para uns dias de férias junto ao mar. Isso foi no tempo em que a Ilha de Tavira não tinha campistas, nem parques de campismo, não havia rádios aos altos berros, nem restaurantes de hambúrgueres. Os pais dele tinham uma casa na ilha. Como marinheiro que fora, embarcado e com várias voltas ao mundo na “Sagres”, levou-me a velejar e à pesca. Foi com ele que apanhei salmonetes à noite, burriés, e mergulhei pela primeira vez no azul profundo do Algarve. Deu-me a conhecer a Meia Praia, Santa Luzia, as Quatro Águas, Sagres. Tantos locais, tantos mares que para mim eram novidade. Foi logo no primeiro Verão a seguir ao 25 de Abril. Depois continuou nos anos seguintes. Uma vez, à noite, enquanto os adultos jantavam, fui mordido por um cão pastor dos Pirenéus. Quis fazer do bicho cavalo e ele não gostou. Levou-me de chata pela ria, até Tavira, para uma freira me coser. Dessa vez passei o resto das férias de castigo, de perna e braço entrapados. Via-me jogar futebol na praia, todos os dias, com os mais velhos, achava-me graça, e por causa disso passou a tratar-me por “Beckenbauer”, em homenagem à grande estrela da selecção alemã e do Bayern de Munique. Eu sempre achei que seria mais o velho Müller, ou o Eusébio, pois gostava de marcar golos. Para mim, no início da minha adolescência, ele era uma espécie de Jacques Cousteau com sotaque algarvio, com a pele muito tisnada. Conhecia toda a gente, miúdas giras, todos o conheciam. “Agora vamos ali tomar um café, vou apresentar-te um borrachinho!”. O “borrachinho” tinha mais vinte anos do que eu. Elas riam-se e ele gozava com a minha timidez. Foi ele que me apresentou o Dentinho e o Brito da Mana. Eram parceiros no mergulho. Eu era o primo. Tomava conta do barco e das garrafas de mergulho. Nesse tempo, ele fazia de tudo um pouco, um verdadeiro artista. Cozinhava, decorava cafés, pintava painéis, quadros, fazia barcos em miniatura. Ainda era casado com uma prima minha, que entretanto partiu e de quem, por força de circunstâncias várias, viria a divorciar-se. Já  a viver com outra pessoa disse-me que fora casado com uma senhora. Gostava muito dela. E tinha um Giannini 1000, de cor roxa, com uma risca branca a meio, carro que comprara ao Cônsul do Reino Unido no Algarve. E também um MG branco, descapotável, com o qual os dois fazíamos a EN125 entre Faro e Tavira. Às vezes, já adulto e a viver fora de Portugal, encontrava-o em casa da minha Mãe. Aparecia nos aniversários dela. Estive muitos anos sem ir ao Algarve, décadas, deixei de o ver, de com ele conviver. Um dia regressei ao Algarve. Acabei por ir viver para Faro, reencontrei-o. Tratou de me fazer o papel e os novos cartões de visita na tipografia onde estava a trabalhar. Ainda estivemos juntos algumas vezes, mas já então era um homem triste, muito diferente daquele que conheci. E tínhamos vidas e interesses diferentes. A vida tinha-lhe pregado algumas partidas. Só vestia de preto e branco, usava um brinco de ouro, como os piratas, e a aliança no polegar. Um excêntrico bem educado, simpático, com um incrível sentido de humor, que pintava, decorava e também gostava de poesia, chegando inclusivamente a publicar alguns livros, na esteira da senhora sua Mãe, poetisa algarvia. Ainda me ofereceu dois com dedicatória. Nos últimos anos andava adoentado, mal dos olhos, e ia de quando em vez a Coimbra. Para “fazer a revisão”, como ele me dizia sempre com algum humor quando me encontrava junto à Pontinha. Nos últimos anos perdemos o contacto. Víamo-nos de quando em vez, sempre ali para os lados da Rua de Santo António. Perguntava-me pelo Alfa e pelos tios. Tínhamos vidas diferentes. Também ele foi, à sua maneira, um homem livre. Nunca lhe pagarei os dias e noites de liberdade que me proporcionou, nem a forma como me deu a conhecer o mar do Algarve e a Ria Formosa. Soube há pouco que a vida voltou a pregar-lhe mais uma partida. Foi a última. O José César faleceu ontem a caminho de Coimbra. Tiveram de parar o comboio. Em Santiago do Cacém. Já não chegou a tempo de mais uma revisão. Oxalá que tenham para ele, lá em cima, um lugar com vista para o areal da praia de Faro. E para a ria. Para que ele possa continuar a ver o Sol esconder-se todas as tardes, vermelho fogo, para os lados do Ancão. Ele merece-o.

24 comentários em “José César”

  1. Que história bonita e bem escrita! Parabéns. Só é pena o “cozer” da freira (deixou-o bem ou mal passado?) e talvez o “um dia, à noite,”. Pode apagar-me o comment e corrigir).
    Conta muito bem, parece uma verdade da vida.

    1. Obrigado, Beatriz, pelas suas palavras e pelos reparos.
      As “distracções” também acontecem quando estamos a pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Não há que ter vergonha, há que corrigir. E fico agradecido a quem me aponta as “distracções”.

  2. Abraço Sérgio!

    As melhores histórias dos melhores homens são as dos que ousaram viver livremente.

      1. A Liberdade mete medo. O mesmo medo que nos impele a adiar-nos na vida. E finalmente quando ganhamos coragem, acabou.

  3. Os interessantes pormenores indicativos de uma classe social: o nome “César de Mello e Horta” e o facto de possuir dois automóveis, num tempo em que era raro o português que tinha sequer um.

      1. Pois, mas este não era um carro que nunca andava. O próprio Sérgio diz que ele o levou de Tavira à Meia Praia. São 100 quilómetros de distância. E a gasolina não era nada barata.

        1. Você é um autêntico Hercule Poirot

          Não tarda até deduzirá o que levavam vestido na altura e qual a temperatura da água do mar.

    1. Luís Lavoura quando a si lhe apontam uma estrela o Luís fica-se pelo dedo indicador. É triste ver quem vive apenas metades.

      1. Vejo a estrela mas também reparo no dedo.
        Uma pessoa tem que ver o grande panorama, mas também deve reparar nos detalhes.

    1. Belíssima, preciosa, crónica. Venha a Anto!ogia 2 (e da primeira; novidades?), para que a possa reler fora do efémero deste meio onde tudo se encontra. E tudo se perde sem rasto.

      Soubesse eu fixar assim a minha memória de alguns a quem tanto devo.

      Costa

  4. Tão lindo, Sérgio. E foi tanto o que me emocionou. Recordei com agrado e muita saudade o pôr-do-do sol arrebatador e a aragem quente com que nos despedíamos de mais um dia de praia no Verão glorioso do Algarve. Não sei se ainda o será porque há muito tempo que não vou para Sul.

  5. Talvez seja defeito meu, mas admiro este tipo de evocação. Que excelente e elegante elogio póstumo. Como é agradável ver na blogosfera textos de homenagem a gente comum, e afinal única e irrepetível, não apenas às celebridades.

    Ajuda a reconhecer que não há apenas a perda daqueles que estimamos. Houve a sorte de tê-los.

    Os meus parabéns pela sorte de tê-lo tido e por saber deixar-lhe à memória um texto assim.

  6. Olá Sérgio sou o Manuel, irmão do José César, gostei de ler as tuas recordações,que são também as minhas, naquele saudoso verão na Ilha. O cão que te mordeu e que por ali apareceu, foi apelidado por nós pelo “Pombinho”, um bicho simpático, até que te mordeu.
    Foi muito bom recordares o Zé, que na realidade, era um tipo foridável.
    Ontem meo, estivemos juntos numa singela homenagem em memória do
    mano, rimo-nos e ficámos comovidos com saudade.
    Um grande abraço.
    A.Manuel de Melo e Horta

  7. Este e o Jose Cesar que eu mamorei antes de vir para Nova York. Sem pre sera o grande amor da Minha vida. Circunstacias fizeram que me casasse com outro. Divorciei me
    Que estejas com o Senhor ‘‘em Paz Aga
    Baby

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