José Adelino Maltez: «O homem é o único animal que sabe que vai morrer»


Pedro Correia,

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«As estúpidas Constituições políticas que vamos tendo esquecem o primeiro dos direitos: o direito à felicidade»

 

Fala sem papas na língua: sugere a Maria da Fonte como novo hino nacional e sonha «destruir o sistema informático de todos os ministérios das Finanças». Politólogo, professor catedrático, comentador nos órgãos de informação, José Adelino Maltez respondeu sem hesitar a todas as perguntas que lhe fiz, já lá vão uns anos.

 

Tem medo de quê?

De ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Só durante um mês.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola light.

Tem alguma pedra no sapato?

Quando tenho, uso sandálias.

Que número calça?

42. E meio.

Que livro anda a ler?

Já não tenho idade para ler. Ando a reler.

Tem muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre dois. O Homem Revoltado, de Camus – ando a relê-lo há 35 anos, todos os dias. E A Cidadela, de Saint-Exupéry.

A sua personagem de ficção favorita?

Fernão Mendes Minto, que escreveu um dos melhores livros de sempre em Portugal. Ninguém sabe se aquilo é verdade ou mentira, mas também não interessa. Como dizia Armindo Monteiro, que foi ministro de Salazar, a História é o género literário mais próximo da ficção.

Rir é o melhor remédio?

Não há melhor remédio: é o máximo de racionalidade, como sublinhou Henri Bergson na sua tese de doutoramento. Se conseguir rir-me de mim mesmo, sou um homem superior.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Só gosto de conduzir se a máquina for dependente do meu corpo. Por isso gosto tanto de bicicleta.

É bom transgredir os limites?

O homem é o único animal que sabe que vai morrer. Por isso inventou Deus: para tentar transgredir os limites do mistério.

Qual é o seu prato favorito?

Leitãozinho da Bairrada.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado clássico de Ícaro: querer voar com asas de cera. O orgulho de não reconhecer os limites.

A sua cor preferida?

Azul, como é evidente.

É evidente porquê?

É a síntese da cor do universo. O céu é azul.

Costuma cantar no duche?

Costumo assobiar.

E a música da sua vida?

A Maria da Fonte.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sugiro o hino da Maria da Fonte.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com o Papa.

As aparências iludem?

As dos mantos diáfanos da fantasia que ocultam a verdade.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

O meu chapeuzinho.

O seu maior sonho?

Amar e ser amado.

E o maior pesadelo?

O fanatismo e a ignorância.

O que o irrita profundamente?

A falta de sentido de humor dos gajos do estadão.

Qual a melhor forma de relaxar?

Cada um tem a sua. Para mim é estacionar à beira-mar. Ou à beira do Tejo.

O que faria se fosse milionário?

Contratava cem hackers e mandava-os destruir o sistema informático de todos os ministérios das Finanças.

Casamentos gay: de acordo?

Cada um deve fazer o que lhe apetecer. Mas não usurpem uma instituição que não foi feita para eles.

Uma mulher bonita?

Apetece-me parafrasear Fernando Pessoa: todas as mulheres bonitas são ridículas, mas mais ridículo ainda é não haver mulheres bonitas.

Acredita no paraíso?

O professor Sérgio Buarque de Holanda já dizia que os portugueses gostam de procurar o paraíso na Terra. A procura do paraíso, aqui e agora, é o que mais nos falta. As estúpidas Constituições políticas que vamos tendo esquecem o primeiro dos direitos: o direito à felicidade.

Tem um lema?

Viver como penso sem pensar como vivo.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (19 de Abril de 2008)

36 comentários em “José Adelino Maltez: «O homem é o único animal que sabe que vai morrer»”

    1. Presumo que esteja simplesmente a avaliar a entrevista e não o entrevistado e, mesmo sendo assim, discordo do inconclusivo.

      Poderia ser mais do que inconclusivo e mesmo contraditório, citar Freud e Nietzsche (o homem criou Deus) e desejar jantar com o Papa mas não estou certo de que não fosse uma resposta humorística ou de se tratar de homenagem particular ao Papa de então (Bento XVI, também o meu Papa preferido entre dois “populares”).

      De resto, afirma-se monárquico (azul e Maria da Fonte) e politicamente incorrecto (ataque à “máquina” fiscal, desaprovação de se chamar casamento às uniões homosexuais).
      Também parece não se levar muito a sério (referência a Bergson, crítica hermenêutica à Constituição e o lema final).

      Concordo que possa ser irrelevante (para quem não o leu noutras instâncias) mas essa parece ser uma escolha pessoal.

      1. afirma-se monárquico (azul e Maria da Fonte)

        Eu interpretei o azul como querendo dizer que é adepto do FCP.

        O hino da Maria da Fonte nada tem de monárquico. Tem é de liberal. O valor que ele afirma é a liberdade (presente duas vezes na sua letra).

        1. Caro balio,
          Ao contrário do que pensa, o hino de Maria da Fonte não foi escrito por Vitorino.
          Foi escrito por Paulo Midosi, a palavra Liberdade está presente três vezes, a palavra livre outras três.
          “Livre, a Pátria vos repulsa
          Terminou a escravidão!”. (acaba assim, o original)
          Chamou liberal à Revolta de Maria da Fonte mas estamos a falar de uma Revolta “Conservadora”, o motivo primeiro foi o enterramento nas Igrejas que o governo (Costa Cabral) queria proibir por razões de saúde pública e que o conservadorismo minhoto queria que continuasse.

          1. Caro Pedro Oliveira,

            Não será assim tão simples. O detonador foi efectivamente essa questão de saúde pública mas a extensão que a revolta teve, deve-se muito mais às leis de recrutamento militar e, politicamente, à rejeição do Cartismo.
            Repare que a revolta (ou revolução como é mais chamada) termina com a substituição de Costa Cabral por Palmela mas, assim que D. Maria II demite Palmela e nomeia Saldanha, a revolução reacende-se e dura 8 meses (Patuleia) e só termina com a intervenção militar estrangeira da Quádrupla Aliança, e nessa ocasião já não se falava na questão dos enterros.
            Mas claro que o Balio não tem razão nenhuma: nem no azul do FCP nem no liberal, pois liberais eram então os vintistas e os cartistas e a Maria da Fonte que seria muitas coisas (conservadora, reaccionária, miguelista, tradicionalista, regionalista e mais) era definitivamente contra os liberais.

          2. Caro Francisco Almeida,
            Tem razão no que afirma.
            A revolta inicial começou na Póvoa do Lanhoso (estive lá 1996 no congresso que comemorou os 150 anos) com a questão dos enterramentos mas depois teve outras consequências.
            A Patuleia (pata ao léu) ocorre como continuação destes acontecimentos iniciais e aí sim já podemos falar numa Revolução com as consequências políticas que aponta.

          3. o Balio não tem razão nenhuma: nem no azul do FCP nem no liberal

            Nunca disse que a Maria da Fonte nem os que com ela lutaram fossem liberais.

            Disse é que o hino da Maria da Fonte é liberal. O hino, não a mulher nem a revolta.

            Quanto ao FCP, tratou-se somente de um palpite da minha parte. Se alguém diz que adora a cor azul, eu presumo que seja por ser adepto do FCP. Sei lá porque é que o Maltez gosta tanto dessa cor…

          4. Ao contrário do que pensa, o hino de Maria da Fonte não foi escrito por Vitorino.

            Estou perfeitamente consciente disso.

            a palavra Liberdade está presente três vezes, a palavra livre outras três

            Por isso mesmo é que eu escrevi que se trata de um hino liberal.

            Chamou liberal à Revolta de Maria da Fonte

            Não. Chamei liberal ao hino da Maria da Fonte, não à revolta da Maria da Fonte.

      2. Claro que estou a avaliar a entrevista e julgo de acordo com as respostas dadas.
        De resto conheço lá o homem.

        1. “De resto conheço lá o homem.”

          Mas pode estar certo de que não lhe fará mal conhecer.

          José Adelino Maltez nasceu em Coimbra, em 1951. É doutor em Ciências Sociais, na especialidade de Ciência Política, pela Universidade Técnica de Lisboa (1990). Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (1969-1974), foi assistente da Faculdade de Direito de Lisboa (1976-1985) e continuou a sua carreira docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde é professor catedrático do 1º grupo (decano do grupo de ciências jurídico-políticas). Nascido para a política activa com a Comissão Eleitoral Monárquica concorrente às eleições legislativas de 1969, opositora do Estado Novo, é hoje um conhecido comentarista político nos principais órgãos de comunicação portugueses. Autor de uma extensa bibliografia sobre temas que vão da História à Filosofia passando pela Ciência Política, Direito e Poesia, José Adelino Maltez mantém regular actividade na blogosfera desde 2003 no seu blogue “Sobre o Tempo que Passa” e mais recentemente no colectivo “Albergue Espanhol”.

          Ler mais: https://monarquia.webnode.pt/news/entrevista1/

          1. Ah! Francisco Almeida.
            Deus lhe pague com estadia VIP o lugar no Céu por tanto conhecimento que derramou neste meu asinino crânio.
            Se não me dissesse quem era o Senhor Doutor finava-me na ignorância. O que seria não só lamentável em vida como crime de lesa-sacramento que Deus puniria com excomunhão eterna.
            O não ter sabido interpretar a minha resposta, é sobejamente compensado pelo altruísmo do seu recado.
            Salvou-me a alma.
            Contudo fico na mesma. Conheço lá o homem.
            E para ser mesmo sincero, acho que não me interessa muito conhecer. Afigura-se-me que não seria por conhecer o Senhor Doutor que ficaria mais rico nem menos pobre, figurez-vous.

          2. “Afigura-se-me que não seria por conhecer o Senhor Doutor que ficaria mais rico nem menos pobre, figurez-vous.”

            Antes do mais tenho uma confissão a fazer: o esclarecimento à resposta “que não soube interpretar” não se destinava exclusivamente a si e, nesse sentido, talvez o tenha instrumentalizado para o que pretendia e passo a explicar.
            Hoje há um confronto entre esquerda e não esquerda, sendo que aquela reduz toda a oposição a direita (que subentende como neoliberais) e fascistas (na definição do PCP). Ora Adelino Maltez pertence a uma categoria amplamente ignorada: opositor ao Salazarismo sem poder ser classificado de esquerda (na realidade com propostas transversais a essa dicotomia esquerda-direita). E sendo essa também a “categoria” política em que me incluo, e aproveitando ser ele sujeito do post, não resisti a divulgar uma outra entrevista nesse sentido mais esclarecedora.

            Em minha defesa, achei que não seria grave usar o seu comentário, como o meu veículo de divulgação, tanto mais que lembrando-me de algumas suas intervenções (Manuela Ferreira Leite, Anna Friel, Vicente Jorge Silva, Pensamento da semana-tecnologia digital e A minha história devida) concordei com as duas primeiras, não discordei das duas seguintes e muito admirei a última).
            Por isso e com o máximo de franqueza, não me sinto merecedor do agudo sarcasmo com que me brindou mas fico, malgré tout, satisfeito se isso de alguma forma, lhe permitiu aliviar a bilis.

          3. Ora, Francisco Almeida, não leve a coisa tão a sério, homem: isto são só blogues.
            Esteja absolutamente à vontade para continuar a servir-se de mim como veículo condutor de instrumentalização para os outros, que eles; V, Vento, Edilmonte, Balio e tantos outros que aqui desaguam como um rio, merecem ouvir das boas.
            Posto isto e pazes feitas,
            Um Abraço.

  1. Spinoza também era da mesma opinião: foi o homem que criou Deus, e foi expulso da comunidade judaica de Amesterdão. E vá que por lá não havia fogueiras da inquisição.
    Certo dia bateram a porta umas ‘testemunhas’, o que é que andam a vender, perguntei eu, não vendemos nada, andamos a propagar a palavra de deus, responderem eles. Tá bem, mas como deve ser uma gravação muito antiga deve estar toda riscado e não se deve perceber nada, mas é em livros, responderam, então pior ainda porque foi escrito pelo homem, até eu poderia os poderia ter escrito.

    1. O que Spinoza disse em concreto foi: “Deus Sive Natura”.
      E ele usou o único caminho que conhecia e entendia seguro: a filosofia. Portanto, ele arranja uma via que julga mais liberta para conhecer o significado da existência. Entretanto tece umas considerações para tornar mais válida estas suas cogitações.

      Agora de outra forma, o homem ao afirmar que Deus é criação de si mesmo reconhece sua imperfeição e incapacidade para criar tamanho mistério que lhe possa abrir as portas para o que ainda não atingiu.

      Porém, se tivermos em consideração o rebate filosófico desta afirmação, e até mesmo no princípio judeo-cristão deste Deus, é mentira que o caminho seja de ascese. É antes compreender o significado material e verbalizado deste Deus que desce e faz-se Homem.

      Se Spinoza tivesse contemplado a afirmação “Deus Sive Natura” como expressão da e na natureza humana, e não a natureza que nos rodeia, certamente estaria mais próximo de compreender o pessoal e o impessoal deste Deus que aí está.

      Muito longe nos levaria a tentativa de fazer a hermenêutica e exegese deste Deus em que se está e que está.
      Porém, para trilhar tal caminho, deixo-lhe o seguinte princípio: “Procura-te em Mim e procura-Me em ti”.

  2. Maria da Fonte, Patuleia,Remexido,trinta e um disto e daquilo, cada um com o seu hino,suas pistolas, suas altifalâncias, seu rapé.
    É certo já ninguém marchar contra Leopards ou T34s.
    Vem uma hora em que é preciso pegar na rabiça,no satcho,na foice,no estadulho
    porque já não passa ninguém que se deixe assaltar.
    E nessas longas horas do pão duro e do amargo vinho canta o quê o maltez ganhão ?

  3. Hum, a ideia do hino da Maria da Fonte para hino Nacional é que me faz comichão, é demasiado Avante para o meu gosto.

    Eia Avante, Portugueses!
    Eia Avante, não temer!
    Pela santa Liberdade,
    Triunfar ou perecer!

    Avante, camarada, Avante,
    Junta a tua à nossa voz!
    Avante, camarada, Avante, camarada
    E o sol brilhará para todos nós!

    Hum…

  4. “O homem é o único animal que sabe que vai morrer.”
    É um erro!
    Quem conhece a natureza ou lida com animais,sabe que estes tem a percepção da morte.

      1. Não tenha tanta certeza disso!
        O Pedro nunca lidou de perto com determinadas situações, que certamente o fariam questionar ou colocar em dúvida essa sua certeza.

          1. Tenho uma opinião diferente da sua, talvez derivado a experiências diferentes.
            Mas respeitando a sua certeza, eu apenas pergunto em relação a um exemplo recente das Baleias Piloto que quando encalham perto da costa, e começam a entrar em stress, se já não estão a morrer por antecipação, se acha mesmo que a Baleia Piloto não se a percebe que não saindo dali é o fim.

          2. Respeito a sua opinião. É bem possível que os grandes mamíferos, como a baleia e o elefante, entendam por instinto que a vida lhes foge a partir de certa altura. Mas nos seres humanos será sempre diferente: temos a certeza absoluta, desde que alcançamos a idade da razão, que a morte é o desenlace inevitável para todos nós. A angústia existencial nasce desta certeza, que nenhuma outra espécie viva experimenta.

  5. Dizer que o Homem criou Deus é um bocado aborrecido.. É este tipo de “truismos” sem imaginação que compromete a cultura de um povo. Só os comunistas e os pacóvios é que têm a necessidade de serem sempre literais.

    Do tipo:

    —Olha, são três e meia…
    —Não, não; são três e vinte e oito — diz o merdoso.

    1. Camarada V,

      Por falar em horas!
      Como se costuma dizer quem desdenha quer comprar, ainda o hei-de ver na tribuna do Glorioso e a dançar com uma Belle toujours na festa do Avante, ao som do stayin` alive dos Bee Gees numa quase inspiração de um filme de Manuel Oliveira.

      Armando Chumbinho

  6. Uma no cravo, outra na ditadura e pronto. Mas passou o teste. As tais flying colors é que ficaram meio esbatidas. Next!

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