Jorge Coelho


José Meireles Graça,

Margarida Bentes Penedo disse, no Facebook, da forma de que detém o segredo, o que convinha:

Eu gostava do homem. Em várias ocasiões foi a voz mais sensata e menos socialista da Quadratura do Círculo. Sim, cumpria a sua obrigação litúrgica, dizia uma frase ou duas lá daquela missa do PS; mas despachava essa parte rapidamente, com um sorriso entre o ardiloso e o bonacheirão, e fugia de escorregar no molho sentimentalista de certas conversas. Eu gostava da ligação dele às coisas da terra e da vida: dinheiro, empresas, comércio, mercado, trabalho, comida, pontes que não caem.

E este é outro motivo. Talvez tenha sido a última vez que um governante socialista se demitiu do cargo e saiu por sua iniciativa. Sem responsabilidade directa no acidente de Entre-os-Rios, ele era o ministro da tutela e considerou que não podia continuar perante uma tragédia daquelas dimensões. Um acto de dignidade que o partido dele, aparentemente, não reconhece, não aprecia, não reproduz, se calhar nem lhe perdoou.

Para mim, a notícia da sua morte foi triste. Adeus, Jorge Coelho. 

Também gostava, e pelos mesmos motivos. E não podendo abundar no essencial, porque está dito, acrescento no acessório:

Coelho irritava muita gente com o seu português idiossincrático (eicelente, munto), que não podia derivar de ignorância porque o usava por sistema; pela sua manha, que o levava a sair com facilidade de cantos retóricos onde os parceiros o tentavam encostar; pela sua competência na defesa do PS e suas personagens, com frequência pouco recomendáveis, e pela invejável eficácia com que manejava o aparelho daquele partido; pelos recados que entrelinhava num discurso que tinha com frequência a marca da simplicidade camponesa que era a sua; e pelo portuguesismo que nos faz zangar com o nosso país, em suma, mas que é nosso, por muito que a paciência nos falte.

Pessoas sumárias julgarão talvez que a Justiça deriva do juiz, da defesa ou da acusação. Nada disso: para se realizar, precisa dos três. Na democracia, onde o povo desempenha o papel de juiz, é igual, pode perder-se tendo razão; mas não é de razão menosprezar o adversário, e quem desvalorizava Jorge Coelho fazia-o à sua custa.

É fácil, e se calhar natural, detestar as pessoas cujas convicções nos são opostas. Com Jorge Coelho nunca consegui.

11 comentários em “Jorge Coelho”

  1. Não partilhando do ideário, creio que se perdeu um dos (poucos) socialistas que me mereciam respeito, e não parecia entrar em derivas à (extrema) esquerda, mas próximo da “vox populi”.
    Como tal condolências à família, respeito, e saudações de adeus a alguém que procurou viver em justiça dos seus valores.

  2. 9menos um chulos, agora do ps, que deixamos que ter de sustentar. Pena é que a seguis não vão escumalhao como o socrates, salgados barrosos, paula portas, varas, mexia . m. pinho. dias loureiro proenças cavacos soares , esse filhos da puta, etc etc etc

    1. O senhor deve ter cartão de militante, e, por conseginte um grande tacho. Por isso fala assim. O que o sr devia ter era vergonha

  3. Não faltava por aí quem sistematicamente lhe roesse a corda, nomeadamente PS’s. Era rude, mas era verdadeiro. “Quem se mete com o PS leva, ai leva, leva”. A frase nunca lhe ficou bem.
    Na sua rudeza, até ameaçou (e quase exigiu ao Costa) que se fizesse a folha ao ex-governador do BdP, mesmo que fosse contra a lei (o que não deixaria de ser à laia do Costa, apesar de que teria sido um bom serviço prestado ao país).
    São assim os homens rudes, nomeadamente os beirões, sejam eles de Mangualde de Santa Comba Dão, ou doutros locais das Beiras, que proliferam por todos os partidos e que, por serem rudes, são muito virados para a dureza de posições. E… depois… os tugas gostam de sofrer. Por isso e apesar de tudo, paz à sua alma.

  4. O sr. Jorge Coelho, Coelhone como nome de guerra, era um dos poderosos do sistema. Demitiu-se quando caiu a ponte e arranjou um tacho na Mota Engil. Não se lhe conhece grande curriculum antes de pertencer aos quadros superiores do partido. A sua frase que me fica na memória é: quem se mete com o PS leva! Tratou bem da sua vidinha. Paz à sua alma!

  5. Nao sei quem é Margarida, mas pelo que escreve também nao fico curioso. A unica coisa que relevo é a parte : dinheiro, empresas, comercio, mercado . E até nesta parte a Margarida fez graça.
    O Jose Graça nao detesta o Jorge Coelho. Mas nao fez graça, tipo : o vermelho fica-lhe (ao Coelho ) bem .

    1. Margarida Bentes Penedo é arquitecta, deputada municipal de Lisboa pelo CDS, escreve como colunista no Observador e é viúva de Vasco Pulido Valente.
      Não a conheço mas aprecio lê-la. Em relação a Jorge Coelho não estou em empatia com o que escreve mas, por respeito à idiosincrasia portuguesa de apenas dizer bem dos mortos, abstenho-me de dar opinião.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *