Jogar para o empate na política


Pedro Correia,

 

Aos poucos, a ideia vai fazendo caminho. Diversos socialistas saem a terreiro em defesa aberta de um governo de bloco central. Não sei se falaram com o acordo tácito de José Sócrates, cada vez mais sem margem de manobra política, mas a verdade é que neste momento nada podia dar mais jeito ao antigo “animal feroz”, que descobriu as virtudes do diálogo ao fim de cinco anos de poder arrogante, em que depreciou sistematicamente os adversários, à esquerda e à direita.

Proença de Carvalho, em rápida aceleração para a órbita socialista, critica o Presidente da República por não promover uma coligação entre o PS e o PSD. “Ambos os líderes dos partidos deviam empenhar-se em criar um governo forte, com um programa reformista, que estivesse à altura das dificuldades que estamos a passar”, diz à Rádio Renascença o advogado do primeiro-ministro.

Miranda Calha, membro do Secretariado socialista, declara em entrevista à edição de ontem do Sol [sem link]: “É importante que haja um suporte mais alargado para a governação. Não ponho de parte a necessidade de se chegar a um entendimento desse género [que] tanto pode ser [com] o PSD como com outro partido qualquer.”

Já no ano passado Jorge Sampaio deixara claro em entrevista ao Diário Económico: “Pode ser necessária uma coligação. O bloco central político é uma possibilidade.” Raciocínio reiterado há dias pelo ex-Presidente da República, desta vez em entrevista à SIC Notícias: “É difícil para o Governo sustentar o que tem feito. É preciso resistir e avançar. E se a nova liderança do PSD está disponível, cale a pena reunirem.”

Outro antigo líder do partido, Ferro Rodrigues, que em 2009 aconselhara o PS a “virar-se para o PSD”, reitera agora esta tese, também ao Sol [sem link]: “Há neste momento acordos pontuais [entre o PS e o PSD]. Espero que possam desenvolver-se num sentido mais permanente.”

São declarações entrecruzadas que apontam um caminho. Perigoso para o PSD. O que menos falta a Portugal são técnicos de bancada a preconizar que se jogue para o empate. Mas a política, tal como o futebol, não é bem sucedida com empates: esse foi o equívoco que fez Carlos Queiroz sair da África do Sul pela esquerda baixa. Vendo-se afundar nas sondagens, Sócrates até se dispôs já a oferecer a pasta dos Negócios Estrangeiros a Paulo Portas. Que teve o bom senso de recusar. Nenhuma coligação será possível com este primeiro-ministro que fez de todas as negociações políticas uma arma de arremesso permanente contra os adversários. Talvez por isso, segundo o Expresso de hoje, Francisco Assis se perfile já entre os candidatos à sua sucessão: é o velho instinto de sobrevivência do PS a funcionar.

 

ADENDA: Extraordinário. Também o deputado Vera Jardim, ex-ministro da Justiça, surge agora a defender, em entrevista à Antena 1, um “acordo de governação” entre PS, PSD e CDS, adiantando que Sócrates “está disponível para esta solução”. Já não me resta a menor dúvida que o primeiro-ministro é a “fonte inspiradora” desta súbita conversação de tantos socialistas à tese do bloco central.

18 comentários em “Jogar para o empate na política”

  1. Há uma característica que nunca nos vai abandonar enquanto povo – somos tão teimosos!!!
    Já não deu para perceber, por milhentas razões, que o bloco central é algo que nunca funcionará?
    Seria excelente termos que sustentar “boys” dos dois grandes partidos, não??
    É a nova moda, Pedro – os governos minoritários são um perigo, não resultam.
    Pois eu tenho a opinião oposta – os governos maioritários é que não me deixam saudades.
    E o melhor governo de que tenho memória foi uim governo minoritário – o primeiro governo que Cavaco Silva chefiou.
    Quando conseguiu a maioria é que vieram os problemas!

  2. Mais uma vez, uma excelente reflexão!
    Sem comentários, está tudo dito.

    O nosso principal problema nem é só jogarmos para o empate, é sermos um povo de brandos costumes, senão, era bonito!
    Se como qualquer cidadão normal, os erros de cada um se reflectissem na continuidade do percurso profissional, certamente seriam mais previdentes e menos arrogantes.

    Ainda há bem pouco tempo, era apanágio do nosso “primeiro” o não precisamos de ninguém, que é como quem diz, orgulhosamente sós, parafraseando uma velha frase de 1965.

  3. Só duas pequenas observações: Carlos Queiroz saiu da África do Sul pela esquerda baixa? eu diria pela direita baixa…Francisco Assis perfila-se na sucessão a Sócrates? é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha…. presunção e água benta…

    1. Tem razão, Ariel: a expressão, importada do teatro, talvez não se aplique bem a este caso. Na África do Sul o nosso flanco esquerdo, apesar de tudo, funcionou melhor do que o direito (mérito de Fábio Coentrão).
      Assis é o quarto socialista a entrar na corrida por enquanto ainda não assumida. Segue-se a Seguro, Costa e César. Vai ser emocionante, pela certa.

  4. sinceramente, acho que Socrates e Passos Coelho, nao jogam para o empate, mas sim, sao os grandes “empatas” de Portugal…como o passado recente de ambos, o demonstra!

        1. Pedro Correia e João carvalho, mas não é verdade!!?? então os PEC´s do PS/PSD traduzem-se apenas mais uma vez, no saque de mais impostos aos portugueses…a receita Socretina do passado, para reduzir o defice!! o emagrecimento do estado nem vê-lo!! em minha opinião, Portugal esta a perder tempo com esta aliança dos empatas…

          1. Um governo de iniciativa presidencial sem membros de partidos? Recuávamos à década de 70? E como é que esse governo veria o seu programa aprovado no Parlamento?

          2. Se possivel sem membros dos partidos, era o ideal!! mas isso seria impossivel…mas tinha de ser gente da “estirpe” do Belmiro de Azevedo, senão, nem valia a pena…

            “E como é que esse governo veria o seu programa aprovado no Parlamento?”

            Se o Governo é de Salvação Nacional o seu programa não necessita de mais discussão…necessita é de acção imediata e que venha o mais depressa possivel…

          3. Esse seu cenário não tem pés nem cabeça. Mas ainda que fosse viável alguma vez imagina este Presidente da República a proceder desse modo? Em que planeta você vive?

  5. Caro Pedro Correia:
    Por muito acertadas que sejam as suas opiniões (neste caso, eu estou longe de concordar) há um dado que não bate certo. A ter existido o tal convite a Paulo Portas (de que muito duvido, pelo que se lê no “Expresso”) as sondagens ainda não eram assim tão favoráveis ao PSD. Julgo eu.
    Saudações amigas.

    1. Olhe que não, caro Francisco. O ‘feeling’ apurado do nosso primeiro-ministro já em Fevereiro conseguiria certamente antecipar o que as sondagens demonstrariam três meses depois: o PS a descer, o PSD (enfim com a casa arrumada) a subir. Daí a aproximação ao CDS. Que deveria ter sido feita logo em Outubro. Em Fevereiro já foi tarde.
      O bloco central de que tanto se fala agora por aí é que não. Só nos faltava mesmo essa.
      Saudações amigas.

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