Joãozinho ou as perguntas que as crianças fazem


Patrícia Reis,

Faltam 22 milhões de euros para as obras na unidade pediátrica do Hospital de São João no Porto. Digo que faltam porque estão aprovadas há um ano e nunca apareceram, portanto estão em falta.

O Parlamento e a Oposição caíram – e bem – em cima do Governo; o Governo, na pessoa de Mário Centeno, o todo-poderoso ministro das Finanças, esteve no Parlamento, numa audição conjunta das comissões de Saúde e Finanças, solicitada pelo PSD e pelo CDS a propósito do sector da saúde e da cativação de verbas para o sector.

Mário Centeno disse muita coisa, revelou números atrás de números, afirmou que a unidade pediátrica hospitalar tinha sido anunciada pelo Governo anterior sem verba para tal e bateu-se  – ferozmente – para explicar aos senhores deputados que, afinal, está tudo bem e que eles é que parecem não entender o que lhes é dito.

Bom, sobre o Hospital de São João e crianças com cancro a serem tratadas em corredores e contentores, o senhor tem razão para dizer que o anterior Governo tem responsabilidades concretas. E este governo? Também.

Não está tudo bem, é evidente, e não deixou de estar tudo bem no início desta semana quando as palavras de um responsável  daquele hospital classificaram as condições  existentes como miseráveis e indignas. Há muito tempo que não está tudo bem.

O Governo assegura que a verba, os tais 22 milhões de euros, será libertada e que as obras se farão. Ninguém perguntou, mas deveriam ter perguntado: então, quando Pedro Passos Coelho foi inaugurar a primeira pedra de uma unidade pediatria oncológica em 2015, sem verba, apoiando-se numa associação que iria angariar mecenas dispostos a levar a carta Garcia, era só para fazer parangonas de jornais? Good press? E o que aconteceu à dita cuja associação liderada por um tal de Pedro Arroja?

E, já agora, depois deste Governo ter assumido funções ninguém se ralou com o que estava a acontecer no dito hospital? Tantas perguntas, eu sei.

Acrescento outras para a realidade do dia de hoje: uma vez chegado o guito a quem de direito, que trâmites burocráticos faltam resolver? O orçamento de 22 milhões de euros tem um ano, mantém-se? O concurso para as obras afinal é válido? Ainda há mecenas? Onde foi parar a Somague, por exemplo, que assumiu que doaria uma quantia anual por dez anos? Quem não quer ajudar as crianças com cancro? Eis uma pergunta que o responsável pelo mecenato nos tempos do governo de Passos Coelho fazia certamente com um sorriso.

Enfim, talvez alguém tenha perguntado estas minudências e procedimentos e eu não tenha visto na televisão, não tenha lido nos jornais. Pode ser. O que me faz assaz confusão é que, como todos sabemos, as obras tendem a perpetuar-se, nunca são o que se espera, raramente se cumprem os prazos inicialmente previstos quanto mais o orçamento. Ninguém fiscalizou? Desde 2015?

Bom, e agora chegámos aqui. Uma vez em obras, que condições tem o Hospital de São João do Porto para dar respostas aos tratamentos de oncologia? Para onde irão estas crianças? Para outros corredores? Qual é a logística? Não consigo descortinar respostas para questões singelas.

Um pai de um doente diz que há outros espaços no hospital, que os contentores onde estão as crianças com cancro não são uma fatalidade. Diz mais, diz que tentou convencer a administração que era possível encontrar uma solução imediata e o interesse foi nulo. O Presidente do Hospital, que veio dizer que as condições eram miseráveis e indignas, pois não deve querer deslocar a administração do hospital para os contentores.

Não ouvi, nem ouvirei, um qualquer responsável dizer algo idiotamente básico e que as famílias com crianças com doença oncológica mereciam ouvir: pedimos desculpa. O pedido de desculpa, se existisse decência, seria do Governo actual e do anterior.
Esta situação não se gerou espontaneamente esta semana, tem muito, muito tempo. Mas neste país não se pede desculpa por nada, porque  seria a admissão de uma qualquer culpa e isso não é, politicamente, aceite como de bom tom, por isso faz-se o costume, culpa-se o anterior governo. Neste caso, está certo atribuir culpas, mas não chega.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista juntam-se aos protestos, exigem que a luta pelo queda do défice seja mais branda e que o dinheiro seja aplicado onde é preciso. No Hospital de São João? Pois, por exemplo. Recordam que a maioria governativa não existe sem o seu apoio.

Está bem, de acordo, mas, de novo, além de se matarem com retórica uns aos outros no Parlamento e nos jornais, quem é que está a tratar de arranjar uma solução para as crianças da unidade Joãozinho enquanto as ditas cujas obras começarem? Quem é que efectivamente se preocupou com as crianças e respectivas famílias desde a operação mediática do lançamento da primeira pedra? Pois, parece que ninguém.

Não é uma pouca vergonha, é uma imensa vergonha.

9 comentários em “Joãozinho ou as perguntas que as crianças fazem”

  1. “Faltam 22 milhões de euros para as obras na unidade pediátrica do Hospital de São João no Porto.”

    Os supostos (fora derrapagem orçamental da ordem) 18 milhões para as obras de manutenção necessárias na ponte que garante a privados lucros substanciais sem qualquer risco nem grandes despesas, esses, aparentemente, não faltam.

    Siga a dança…

  2. Nesta coisa do Joãozinho, os pais acusaram o hospital, com razão, de ter condições de alojamento indignas (corredores em vez de quartos, uma só casa de banho para muitos pais, etc etc etc), mas de uma coisa ninguém o acusou: de dar um tratamento inadequado às doenças (cancros) das crianças.
    É assim a medicina dos hospitais públicos portugueses: excelente em termos médicos, péssima em termos hoteleiros. As pessoas estão mal alojadas, mas são bem tratadas em termos médicos.
    E eu acho que se deveria falar mais dos excelentes tratamentos médicos, e menos das más condições de alojamento. Ao fim e ao cabo, hospitais não são hotéis.

  3. Não é uma, são muitas.
    É a demissão de responsabilidade dos Executivos Públicos
    É a demissão de programa das Administrações Hospitalares.
    É a demissão de investigação e acompanhamento dos Jornalistas.
    É a demissão de interesse da Sociedadade.

    Mas ninguém é demitido.
    Mas ninguém admite nada – a não ser aqueles que, por nada mais terem como opção, têm de admitir tudo.

  4. Se as suas perguntas não são apenas para “inglês ver”, sugiro que dê um salto ao blogue Portugal Contemporâneo e lá encontrará muitas das respostas por que aguarda.

  5. Devia informar-se sobre muita factualidade omissa na “narrativa” que está alinhavada no seu “post”.. O “Porto Canal” tem, sobre este assunto, feito um acompanhamento sério e constante, sem as intermitências da prensa da Capital, muito mais “prone” a idolatria da xuxalada instalada…
    Eu permito-me de explanar uma “narrativa” onde se prescinde – desculpas antecipadas por esta largueza nestes tempos onde, não fosse Pedrogão e umas berças nas Beiras, tivesse Facebook o Portugal da Xuxalada Geringonça, , era só polegares “up” e “smiles” de beatos (laicos) em manhã de Páscoa perante os mordomos das “Web Summits” e os amigalhaços de tanta arte e artista – de estar a malhar no Governo de Passos Coelho para ir safando o coiro as maltas geringonças que tudo foram tratando com os pés, e pela conversa do “Ronaldo do Ecofin” em mais uma inovativa “emulação” – agora, de “Je suis Adalberto”-, a burocrática patada continua como alegre mote.

    Os “geringonços”, naquela febre de “reversões” onde a prioridade foi nomear a fartazana as “multidões” de desamparados do tempo do Socretinismo para altos cargos do Estado, para-Estado e apesas Academias, logo em Fevereiro de 2016- não tinham passado ainda um par de meses…- nomeam uma nova administração para o HSJ. Já nessa altura transpirava que as maltas do “spin” do “fim da austeridade” fizeram constar que não viam com bons olhos a construção da ala pediátrica por uma associação “privada”(ai c’orror!!) e logo em Dezembro de 2015, ainda frescos da golpada parlamentar, o ministério da Saúde teria “instruído” a administração em vias de cessar funções para não prosseguir com limpezas de terrenos necessários para a obra. Em Fevereiro, a nova administração colocada pelos “geringonços” prossegue com o bloqueio das limpezas de terrenos para construção, e empresas, entre as quais a Somague, cessam o trabalho, porque simplesmente não o podiam continuar a fazer. A nova administração entretanto solicita parecer juridíco que é depois invocado para impedir em fins de 2016 a associação “privada” (ai c’orror!!) de negociar uma concessão ao “Continente” (‘orrore ‘inda mais “grande”) que lhe permitiria avançar com as obras.
    O sr. Dr. Pizzaro, o delegado do Xuxa Costa na “Invicta” refere então que o problema é para resolver com “dinheiros públicos”. Na pratica, o que se assistiu foi uma politização da situação onde medidas tomadas pelo Governo anterior, porque sustentadas por “privados”, foram arrasadas, e passados ano e meio, dois anos, temos o “Ronaldo” do Ecofin com as notáveis “bicicletas” sobre “culpas” do governo anterior – cuja decisâo foi clara e consequente até entrarmos no paleio de “fins d’austeridade” e no “spin” de que a “austeridade” existiu, não porque houve um governo que conduziu as finanças públicas a uma “bancarrota”, mas pelas “ganas” d’austeridade da “Direita” e pela “crise internacional e tal”.
    Com o aperto mais recente, que como Pedrogão e umas Berças da Beiras, se propagou agora á Xuxa Prensa da Capital, induziu-se talvez aquele modo “reactivo” e de curto prazo que é a imagem de marca da Geringonça, onde se põe as coisas a andar e o dinheiro, como dizia o saudoso Dr. Mário Soares, “sempre aparece”. Ou seja, vamos ter de certeza muito passeio de Gerigonços ao São João, inclusive o Hospital, para multiplas inauguraçôes e eventos – mostra a experiência que tal multiplicação é possível – como se foi vendo nos tempos de alcaide com a Ribeira das Naus da Capital. Se assim não for, faz-se com em Pedrogão – vai-se até lá “re-inaugurar” as casas reconstruídas então com os dinheiros das Seguradoras, com aquela pose dos Colombos de Pessoas, i.e. passeando “aureóla dada/ por uma luz emprestada”…

    Jorg

    Jorg

  6. Patricia, já experimentou fazer as perguntas ao Pedro Arroja?
    Ou se for muito tímida para perguntar basta ler o blog dele, “Portugal Contemporâneo”, ele tem detalhado por lá toda a história do Joãozinho, tem muito para aprender por lá e ainda se pode fartar de rir e chorar com a história.

  7. As suas referências ao papel do Governo Passos Coelho nesta história são erradas e espatafúridas e os os ‘julgamentos que dai deriva’ servem apenas para alijar as responsabilidades substantivas das tralhas xuxó-Geringonças neste caso.

    Se se informar sobre os factos e cronologias – tem a Porto TV e o JN, que a prensa da Capital neste caso, tal como em Pedrogão, só aparece depois dos bombeiros e do Prof. Marcelo- , vai ver que se alguém que não tem de pedir desculpas nenhumas é mesmo o Governo que andou a limpar as porcarias das bancarrotas Socretinas.

    Jorg
    Jorg

  8. Pesquise também por Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) e perceberá algumas coisas… Este sim, já construído e a funcionar.

  9. Bom dia! Costumo ler atentamente os seus textos e tenho a Patrícia como uma pessoa inteligente, isenta e de bom senso. Sobre este tema aconselho-a a procurar mais informação (existe q.b.) e responde a todos os porquês que coloca no texto.

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