Não há como escapar ao Natal. A época que se diz de solidariedade, paz e harmonia espera-nos nos mais pequenos gestos do dia-a-dia. Sair de casa ou ficar nela é o necessário para a expressão exterior da época de paz e amor fazer aparições sucessivas, esperadas ou inesperadas, dependendo do grau de comprometimento e entrega à época feliz. O simples rádio pela manhã, as notícias matinais, a publicidade na caixa de correio, a televisão, programas ou publicidade, ou as ruas ornamentadas a caminho seja de onde for e como for não deixam margem para dúvida: ele está aí, ele chegou e há que saber viver com a época dos sorrisos, desejos de Festas Felizes, virtuais ou em sms e a quantidade de inutilidades que engravidam a casa dias após a data propriamente dita.
Entro na loja à procura do presente desejado, sem grande pressa, a paciência porém a raiar o limiar de extinção como uma característica a constar na lista de atributos a serem protegidos do extermínio iminente. Umas voltas depois decido o que quero. O que me falta em paciência sobra-me, no dia em causa, em poder de decisão rápida e dirijo-me à caixa sem mais demoras ou delongas inúteis. Um casal com crianças faz-se notar pela sonoridade aguda do rebento, quem sabe um concerto natalício antecipado no mais agudo e espalhafatoso dos tons, uma mulher algures entre os quarenta e cinquenta anos, baixa, de cabelo alourado e crespo, dirige-se ao balcão e, trocando palavras com a empregada, deixa soltar um lamento Um stresse. O Natal é um stresse. Não gosto nada do Natal. A empregada sorri complacente, não se deve jamais contrariar um cliente de cartão em riste, muito menos em época de decretada e declarada crise económica ou financeira ou economico-financeira. A empregada retribui É muito cansativo. A mulher sorri assentindo É só stresse. A empregada continua colocando o presente no saco de papel. Sorri tranquila. A sensação clara e evidente de que o argumento teria sido repetido ad nauseam por louras altas, louras baixas, morenas altas, morenas baixas, morenas e louras nem muito altas nem muito baixas, a declaração usada como uma bandeira gasta e puída. A mulher prepara-se para sair, as palavras sempre presentes, a possibilidade de sairem mais uma vez entre talões e sacos Não gosto nada do Natal e a empregada de sorriso pendurado obedecendo às mais elementares regras de simpatia e polimento É muito cansativo.
À semelhança de outras situações na vida há que saber dizer não, romper com a tradição se elas não nos servir, trilhar caminhos livres sem a obrigação dos presentes, o dever dos festejos, a imposição de felicidade oca e balofa, a grilheta às ocasiões de circunstância ausentes de carinho e de afecto. Dizer não. Dizer não sempre. Ao Natal, naturalmente, se nos estrangula a espontaneidade e sufoca a possibilidade de dias felizes. Dizer Não.


Gostei muito do texto, Leonor. Como te compreendo. E onde arranjaste este desenho? Que giro!
Há que romper com o que nos causa infelicidade. O desenho é da Gaëlle Boissonnard. Descobri-a num postal que comprei e vim encontrá-la na Bulhosa em marcadores de livros. Também gosto muito.
Compreendo-te tão bem, Leonor! Ainda não consigo dizer Não, mas falta pouco.
Eu consigo razoavelmente, embora comemore o Natal, claro, tenha neste momento uma árvore que me vai dar um trabalhão a arrumar e me vá meter na cozinha (adoro cozinhar) a 24. Tento não fazer fretes e não me violentar.
Este ano consegui dizer um “não” parcial: presentes, só para as crianças. As da família e as de uma instituição que organiza o Natal de quem não sabe o que é esse cansaço de comprar, comprar… estou muito feliz com a minha decisão. Stresse? Nem vê-lo. Uma boa receita.
Gostei muito do texto, Leonor.
O meu ponto é esse, Ana: stresse nem vê-lo!
Junto-me a vocês. Stresse nem vê-lo. Xô!
Xô, stresse!
Xtrexe!
:))))
Adorei o texto Leonor, muito bem. Também eu já comecei a trilhar esse caminho. Presentes? chás, compotas e chocolates, tudo com muita calma.
Obrigada, Ariel. Há que ter calma mesmo. Se o Natal é para causar stresse é melhor deixá-lo de lado, Stresse temos nos restantes dias do ano.
É, Leonor, a pior coisa do Natal são os presentes, essa esquizofrenia consumista, essa obrigação irresponsável que transforma uma dádiva numa esmola ou num acto do mais puro exibicionismo social. Comprar, comprar mil e uma inutilidades, mil e uma bugigangas coloridas e contrafeitas “made in Pakistan “, para encherem as caves e dentro de uns tempos serem oferecidas aos bazares da caridade. O Natal hoje é só stress e parvoeira. E é pena.
A obrigação é que dá mesmo cabo de mim, Sérgio. Há que contrariá-la e ser-se mais honesto, connosco e com os outros.
Saber dizer não. Conseguir dizer não. Quebrar essas amarras que estão lá muitas vezes sem sabermos porquê.
Gostei mesmo muito do seu texto, Leonor.
Um Feliz Natal para si
Sou sempre pela ruptura se as coisas já não nos servirem. Mas nem sempre é fácil, Cristina.
Gostei muito do texto. Muito mesmo.
🙂
Obrigada, Maria do Sol.
Excelente crónica natalícia, Leonor. Infelizmente a palavra ‘não’ está cada vez mais fora de moda. Há quanto tempo não ouvimos pronunciar um categórico ‘não’ à nossa volta? Ouvimos dizer ‘sim’ para significar ‘talvez’ e ‘talvez’ como pretenso sinónimo de ‘não’. Só isso.
Eu uso-a bastante, também profissionalmente. Se dissesse sempre que sim aos meus alunos estava perdida.