0 comentários em “Je suis Bordalo”

  1. Apesar de mais familiarizada com a produção cerâmica – a minha mãe ofereceu duas peças originais a um museu ( uma das quais representa o Zé Povinho defecando atrás de um muro com um polícia a espreitar ) que já vinham da minha trisavó Carolina, sei que ilustrou diversas publicações de sátira social e política, tanto nacionais como estrangeiras , com a irreverência que qualquer português lhe conhece e aprecia e em tempos também bastante conturbados.

    1. Um grande artista, Rafael Bordalo Pinheiro. E capaz de fazer um género de sátira política hoje ausente por completo da quase totalidade dos jornais. A caricatura do Rei D. Carlos vendendo uma parcela do império colonial, dobrando a cerviz à Rainha Vitória de Inglaterra enquanto espezinha o Zé Povinho exangue é uma delas. Outra é o mesmo Zé Povinho apodrecendo enquanto é devorado por vermes (todos símbolos da autoridade ou de poderes fácticos da época).
      Por aqui se vê como regredimos em mais de um século em matéria de liberdade de imprensa e liberdade de expressão.

        1. Às vezes questiono-me, Octávio, se um Bordalo Pinheiro teria oportunidade de trabalhar na generalidade da imprensa de hoje. Muitos jornais não o contratariam por ser demasiado ousado na sua sátira.

          1. Não estou sequer seguro de que à época o contratassem, já que ele sempre teve os seus próprios jornais satíricos independentes (espécie hoje praticamente desconhecida entre nós). E depois: meio pequeno, grande apoio popular (existiria hoje?), etc. Ainda assim, não por acaso Bordalo se veio a dedicar às porcelanas.
            A verdade é que desde então não apenas a caricatura se retraiu, mas quase todas as formas de expressão pública, em especial as que fazem uso do humor.
            Grato por esta tua lembrança.

          2. É verdade, meu caro. Aguentam-se uns poucos, como tu. Mas não me esqueço de que o Cid – de quem sempre gostei muito – acabou por retirar-se, mais cedo do que previa, porque quase só faltava pagar para que lhe publicassem os “bonecos”.
            Dedica-se à escultura agora. Como o Bordalo se dedicou à cerâmica. A verdade, Zé, é que hoje o Bordalo é mais lembrado do que a esmagadora maioria dos políticos que caricaturou.

          3. O humor de Cid foi o que mais me influenciou e tenho para com ele humilde relação de discípulo. Quanto aos caricaturados do Bordalo, estás, como é hábito, carregado de razão. Mas quero deixar uma palavra ao António Maria, o Fontes Pereira de Melo, cuja relação com a liberdade de imprensa foi, diz quem sabe, irrepreensível. Um abraço amigo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *