Jantar para dois


Teresa Ribeiro,

Destapou o tacho e sorriu. A carne já estava coberta de líquido. Com o tempo aprendera a cozinhá-la em lume brando acrescentando-lhe apenas um dedo de água. Por experiência sabia que ao libertar-se com o calor, o soro que injectam nos animais juntamente com os antibióticos fazia sempre subir o nível do caldo. “Assim, com um mínimo de água o estufado fica mais apurado”, reflectiu, orgulhosa do seu talento culinário.

Em seguida descascou umas cebolas, removendo as partes podres que habitualmente entremeiam as camadas sãs, picou-as e juntou-as à carne. Retificou o tempero e provou: estava no ponto. O gato, que vinha sempre ao cheiro dos seus cozinhados, roçava-lhe as pernas, dengoso. “O que tu queres sei eu”, sussurrou-lhe enquanto removia da bancada embalagens de pizzas e de comida pré-congelada que ali acumulara durante a semana. Para preparar a sobremesa tirou os ovos do frigorífico. Ao separar as claras das gemas reparou que estas quase não tinham côr: “Esqueceram-se de lhes pôr corante, está visto. Se calhar ponho eu, para o doce ficar mais bonito”.

Ao fim da tarde já tinha tudo pronto. Pensou em descongelar o pão no micro-ondas, mas depois decidiu fazê-lo pouco antes do jantar: “Se o descongelamos com muita antecedência fica como se fosse de borracha”. Distribuiu salgadinhos por várias taças e atirou-se para o sofá, com uma delas na mão. Enquanto estalava na boca uns snacks com sabor a queijo pensava no que ia vestir: “Talvez a saia preta, que me adelgaça as ancas. Ou então as leggins com a túnica de malha, que me disfarça a barriga.”

 

(Texto inspirado nesta notícia)

12 comentários em “Jantar para dois”

  1. “Soro que injetam nos animais”?! Que disparate!

    Todos os alimentos contêm grande quantidade de água, que se liberta durante a cozedura. O mesmo que acontece à carne também acontece ao feijão, por exemplo, quando se faz uma feijoada: vai libertando (muita) água. Não tem nada a ver com supostas injeções de soro.

    Outra coisa que não percebo neste post é para que raio quer a mulher adelgaçar as ancas. è que, o objetivo das ancas femininas é, precisamente, que não sejam delgadas!!!

    1. Hum, descubro que o Luís Lavoura é também um mestre da culinária 🙂
      Aprendi isto do soro no tempo em que não se falava noutra coisa senão do tratamento dispensado aos bovinos nas explorações intensivas, ou seja, durante a crise das vacas loucas. De qualquer forma, se quiser dar-ser ao trabalho, faça um passeio pelo google, que acabará por encontrar essa informação. Um disparate? Antes fosse. Sugiro-lhe a entrada: “Substâncias injectadas na carne para consumo”

    1. A notícia que linkei inspirou-me esta brincadeira, Fernando Antolin. Perdeu o apetite? Acredito. Mas saiba que como cozinheira me defronto demasiadas vezes com as situações aqui descritas (as cebolas com as lascas podres, a carne a libertar uma quantidade anormal de líquido) o que me leva a interrogar-me sobre a qualidade dos alimentos que ponho na panela. Só não perco o apetite porque, enfim, no dia-a-dia opto por não valorizar estes detalhes por uma questão de pragmatismo.

  2. Mais uma achega: claro que os alimentos libertam água, porque contêm água, mas quando a carne liberta muiiita água e encolhe na frigideira a olhos vistos, acredite que não é pelos melhores motivos.

  3. Teresa, não há leggins nem mini-saia que compensem um pão descongelado no microondas. Francamente!
    😉

    Lembro-me bem das primeiras notícias que saíram sobre essas substâncias injectadas na carne, e da celeuma que isso gerou na altura. Como tudo o resto, parece que se continuou a fazer o mesmo depois de assentar a poeira…

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