Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, a troika, a crise do euro, as escandaleiras para todos os gostos, a falência da segurança social, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, o galope do desemprego, o tédio da conversa de políticos e economistas, as trapaças dos chicos-espertos, a miséria dos programas televisivos, as íntimas misérias de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar do cinto… ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.
[Nota: texto republicado (desta vez nem foi preciso actualizá-lo, infelizmente)]


Na escola onde fiz a 3ª e 4ª classes – como então se dizia – havia uns extraordinários jacarandá s , na cidade onde se situa essa escola há jacarandá s espalhados pelas várias avenidas, a cidade- ao sul deste país que nos parece tão desbotado – perto de um mar que “há ir e voltar”, quando os jacarandá s florescem, fica pintada de várias cores de azul e a cheirar a um perfume doce e intenso. Inconfundível. Quando chega o mês de maio , essa cidade que fica ao sul de um país sem cor, onde se situa uma das escolas que eu frequentei na minha infância, floresce, “azulece” e perfuma-se como uma mulher vaidosa. Essa cidade, que também ocupa parte da minha infância, no mês de maio transforma-se numa mancha de cor brilhante. Essa cidade a cheirar a doce e a caramelo, no mês de maio , pinta de azul jacarandá as paredes caiadas das casas. Branco a fazer arder os olhos, azul jacarandá e o cheiro doce do caramelo que se derrama aos pés dos jacarandá s e, pegajoso, insiste em acompanhar-nos, agarrado à sola dos nossos sapatos. Ao sul há uma cidade que cheira a jacarandá e resiste debaixo do sol que tudo tisna. Ao sul, na minha infância, há uma cidade que nos mês de maio se cola aos sapatos. Ao sul e ao sol há uma cidade que cheira a doce. Há uma cidade azul que no mês de maio insiste em florir de azul e a colar-se aos nossos pés. Ao sul também há jacarandá s . Ao sul e impassíveis. Ao sol. Os jacarandá s também nascem a sul. Ali mais abaixo, ao fundo da minha rua, onde passa o Tejo também há jacarandá s . Cheiram a doce e são azuis como os extraordinários jacarandá s da minha 4ºclasse .
Os jacarandás são um grito azul num país descolorido. Bonito o seu testemunho, Linda. Florido e cheiroso. Obrigada.
Um texto que se adequa à beleza dessas plantas e de outras que se oferecem aos nossos olhos nesta destemperada primavera. Também me encantam as sardinheiras nas janelas.
Obrigada, DNO. Também gosto muito de sardinheiras.
‘Azul-Leonor’ só uma avó o diria e ensinaria. As avós são senhoras sábias. E com bom gosto. Gosto disso.
Nunca soube a razão de ser desse nome, Maria, presumo que a minha avó também já o teria aprendido da sua. Mas gosto dele, e acho que liga bem com a cor. 🙂
Azul-leonor… Nunca tinha ouvido 🙂
Uma vez um amigo sueco perguntou-me que árvores azuis eram aquelas que ele tinha visto em Lisboa. Levei uns segundos a perguntar-lhe em que altura do ano tinha vindo e, claro, fim de Maio. Disse-lhe que em África eram 10 vezes mais lindos porque tinham flores e folhas ao mesmo tempo mas que, para quem não os conhecia de lá, os de Lisboa eram fantásticos. (Sim, também havia um desses africanos, enorme, no meu liceu, e com ele aprendi a fazer pop! com as flores, coisa de que não prescindo)
Há umas semanas olhei para eles, no Marquês, e nada. Lembrei-me da exuberância do ano passado e pensei: espero que esta meteorologia danada não tenha dado cabo deles este ano. Amanhã volto a Lisboa, vou procurá-los.
Já explodiram, Isabel. Fui ontem a Lisboa e deliciei-me, por isso me lembrei de republicar este texto. Os jacarandás são um tão espectacular e descarado anacronismo nos dias cinzentos (em todos os sentidos) que vivemos, que têm de ser celebrados! 🙂
Mal comecei a ler a texto pensei: a Ana Vidal vai voltar a mandar as desgraças todas às malvas, como já li aqui uma vez. Vamos respirar ar fresco, nem que seja por uns minutos, “poças”!…
O texto “soou-me” extremamente” familiar… mas onde é que eu já li isto?…
Depois vi: republicado.
Não há dúvida que as coisas boas ficam sempre guardadas nas gavetas da minha memória.
Os jacarandás são lindíssimos e “azul-Leonor” é uma cor fascinante!
Tenha um bom dia.
Obrigada, Fátima. Cada vez é mais difícil mandar as desgraças às malvas, elas não querem ir. O que mais me perturba no meu texto é que, de um ano para o outro, nenhuma delas se resolveu e eu diria mesmo que todas se agravaram. Valham-nos os jacarandás, uma alegria anual.