Já só lhe falta usar gravata


Pedro Correia,

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A vitória de Alexis Tsipras nas legislativas de ontem na Grécia foi acolhida de forma muito diferente da que ocorreu a 25 de Janeiro, data da eleição anterior. Desta vez não houve manchetes eufóricas, proclamações festivas dos comentadores “isentos” nem a ridícula elevação do dirigente da esquerda radical grega ao estatuto de novo messias capaz de pôr fim às políticas de austeridade na Europa com a sua retórica populista.

Tsipras voltou a vencer – com menos um ponto percentual e menos quatro deputados do que há oito meses – num escrutínio marcado pelo galopante avanço da abstenção: 45% dos eleitores gregos viraram desta vez costas às urnas, quando em Janeiro esta percentagem se tinha quedado nos 34%. E acaba de revalidar a coligação com o partido da direita nacionalista e xenófoba Gregos Independentes que lhe tem servido de bengala. Beneficia do insólito bónus de 50 deputados propiciado pela lei eleitoral helénica ao partido vencedor (que tanto criticou quando estava na oposição) e da irrisória percentagem obtida pela ala fraccionista do Syriza, reunida em torno da Unidade Popular, uma nova formação de extrema-esquerda a que nem o ex-ministro Yanis Varoufakis conseguiu dar alento.

 

Desta vez as rolhas de espumante mantiveram-se nas garrafas. Percebe-se porquê. Tsipras rasgou o “inegociável” Programa de Salónica, que lhe serviu de bússola para se apresentar às urnas há oito meses com proclamações “anti-austeridade” contra uma União Europeia “dominada pela especulação financeira”. Desse programa constava a suspensão unilateral do pagamento da dívida grega, o aumento do salário mínimo de 580 para 751 euros, um vasto pacote de nacionalizações, o alargamento dos quadros da administração pública e a redução da carga fiscal, entre outras medidas que chocavam com o Tratado Orçamental subscrito por Atenas.

Sabe-se o que aconteceu depois. A 5 de Julho, a coligação esquerdodireitista convocou um plebiscito-relâmpago que rejeitou as normas de contenção financeira ditadas por Bruxelas. Dias depois, no entanto, o primeiro-ministro aceitou um conjunto de medidas ainda mais severas, que enterravam de vez o programa eleitoral do Syriza. Medidas que incluíram um corte drástico de pensões (entre 30% e 70%), o aumento de impostos como o IVA e um amplo programa de privatizações de empresas estatais.

 

O Tsipras de Setembro nada tem a ver com o Tsipras de Janeiro: confrontado com um iminente cenário de bancarrota e a perspectiva de colapso do sistema financeiro, conduziu a Grécia ao terceiro resgate externo de emergência em cinco anos, recebendo um cheque de 86 mil milhões de euros cuja aplicação será escrutinada até ao último cêntimo pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu. Na melhor das hipóteses, resta-lhe ser o Passos Coelho helénico na legislatura que vai seguir-se, forçando os gregos ao maior aperto de cinto de que há memória.

Bastaram oito meses para silenciar os hossanas ao antigo herói da esquerda radical, agora forçado a praticar políticas decalcadas de qualquer cartilha “neoliberal”. Já nada me espanta. Nem me surpreenderia até que um dia destes víssemos Tsipras de gravata.

0 comentários em “Já só lhe falta usar gravata”

  1. Quem se espantou foi a UE. A UE, BCE e Eurogrupo, até podem continuar a obrigar Tsipras a fazer o que eles querem, mas em tudo na vida há um limite e esse limite está próximo. A História relata-nos isso e muito bem, é cíclico. Os Gregos mostraram que não querem, mais nada, com quem os pôs na situação em que estão e isso, eles mostraram a esses partidos e ao mundo.

      1. É verdade o que diz. Mas além da gravata ainda tem de mudar muita coisa e mais importantes. Veremos quem vence, é cedo para você cantar vitória.

        1. Pois está. Mas para executar a política que os outros determinam. Atirou para o lixo o programa eleitoral do Syriza: demorou quatro meses. E deitou para o lixo o resultado do plebiscito de 5 de Julho: demorou quatro dias.
          Não admira que a abstenção tenha batido um recorde absoluto na Grécia: quase metade dos eleitores não votaram.

          1. Pedro:
            Estou habituado a outro tipo de argumentação da sua parte.
            Se aplicar o efeito de espelho, tudo o que diz sobre os fãs do Syriza se pode aplicar a si e aos detractores do referido partido.
            E sobre o aumento da percentagem de abstenção, analise em que regiões da Grécia em que ela aumentou exponencialmente e tente perceber as razões.
            Em Janeiro não havia o fenómeno que a fez galopar agora.
            Tão simples como isso.

          2. Não percebo a sua tese. Julgo que fui muito claro na minha: este Syriza que acaba de vencer as legislativas gregas (com menos 1% e menos 4 deputados) não é o mesmo Syriza de Janeiro. É, em larga medida, o seu oposto.
            O Syriza de Janeiro era o rosto anti-austeridade. Este, pelo contrário, é o Syriza é o rosto da austeridade. Acolhendo e subscrevendo medidas ainda mais restritivas do que aquelas que o Syriza de Janeiro dizia combater.

    1. Está a ver o filme ao contrário.
      O artista agora é que vai engolir não um sapo, mas a lagoa toda!
      Se não cantas, danças, e se não cantas nem danças, vai bater a outra porta!

      1. Espantosa foi a cabazada que levou o partido da ultra-esquerda apoiado por Varoufakis, ex-estrela da política grega: recolheu só 2,7% e nem um lugar conseguiu no Parlamento.

  2. Eu vejo a Europa espantada e também regozijada com esta vitória do Syriza. Não vejo este tema muito debatido em Portugal por um simples motivo:
    As contas feitas à esquerda e à direita (incluindo as do Pedro) falharam. E eu percebo que assim seja tendo em conta as características de quem tanto se empenhou em ataques e “análises”, mas também dos desapontados que nunca fariam como o Syriza fez mas que desejavam que o Syriza fizesse.

    O Pedro é uma excepção nesta abordagem, e parece-me que reincide no tema mais por temperamento que por convicção.
    Mas o Syriza fez muito bem: jogou forte, denunciou, desestabilizou e com a entrada de Hollande e o concerto com Merkel e Juncker conseguiu ser amaciado.

    Imagine agora, Pedro, como seria a vitória do Syriza se os 11% que não votaram votassem neles. Faço este reparo porque parece-me que o povo grego, incluindo os abstencionistas, também deixou claro que não quer os anteriores ao Syriza a governar. E as sondagens também aqui perderam.

    O Pedro continua a omitir outras nuances importantes no acordo, como a renegociação da dívida; e que ocorrerá. E eu sei que isto não benéfico aos adeptos da coligação nem à coligação
    E agora ocorrerá com muito mais empenho por parte da senhora Merkel com a crise dos refugiados em agenda. Mais importante ainda, geopoliticamente a Grécia avançou mais uns passos.

    Sem dúvida que o acordo foi firmado, mas registe isto para memória futura: Parte deste acordo será rasgado tacitamente por ambas as partes.

    Fico satisfeito com este seu post porque para compensar os seus cálculos da derrota e do desmembramento do Syriza, que afirmava, o Pedro insiste na velha questão, que é mesmo velha.

    Acredite que vem aí serenidade nas relações com a Grécia, mas não pelos motivos que expõe. Para já será assim.

    1. Há uma razão para os jornais da extrema esquerda portuguesa: DN, JN, Publico não terem colocado a foto de Tsipras na 1ºPágina como o fizeram na passada eleição

      É considerado um traidor.

  3. Diz-se que Resistir é Vencer e esta vitória de Tsipras é isso mesmo uma vitória por muito que os opinion makers e mestres do spin digam o contrário.

    O 1º ponto é que após 5 ANOS de Pasok (PS lá do sitio) e Nova Democracia Paf lá do sitio) a servirem de capatazes de uma politica que não resulta e que é aplicada devido aos desvarios desses partidos os Gregos DECIDIRAM contra tudo (mesmo a manipulação interna) dar um voto de confiança a Tsipras que apoiado por um partido Nacionalista, (não xenófobo ou de extrema direita como nos querem fazer crer) poderá fazer diferente do que fariam os anteriores mesmo que tivessem a folga que Tsipras não terá, pelo menos para já, mas que poderá vir a ter.

    A Teoria da solução única morreu ontem para meu espanto até, confesso que não esperava esperava a esmagadora vitória de Tsipras , até o Partido Comunista de lá quase suplantou o PS de lá.
    Apesar de eu ter amaldiçoado a CAPITULAÇÃO em toda a linha do Syriza em Julho reconheço agora que talvez seja preciso por vezes dar um passo atrás para dar dois á frente.

    Tsipras re-legitimado nas urnas e com um resgate assinado será agora um empecilho muito maior ao NEO-COMUNISMO vigente pois goza de muitas simpatias na Europa que ainda não estão representadas mas que existem e sobretudo tem também muitas simpatias fora da Europa e pela posição da Grécia no Mapa poderá ser mediador em inúmeros acordos internacionais que têm de ser firmados pois só existe um Planeta Terra.

    É obvio que esta vitória só pode ser encarada como desastrosa para os que vilipendiaram / gozaram Tsipras e os Gregos durante nove meses e é mais um sapo do tamanho de uma lagoa que têm de engolir e que só não tem eco igual á vitória de Janeiro porque existe uma CRISE (DRAMA) MAIOR neste momento.

    Poderia não me rever em algumas ideias de Tsipras mas se fosse Grego obviamente votaria Syriza .

    1. “O 1º ponto é que após 5 ANOS de Pasok (PS lá do sitio) e Nova Democracia Paf lá do sitio) a servirem de capatazes de uma politica que não resulta.”

      Então a política que “resulta” é ir aos mercados pedir dinheiro emprestado.

      Foi isso que o Pasok e a ND fizeram e o que os gregos queriam que o Syriza continuasse a fazer.
      Mantivesse tudo como está.

      É preciso ter um jeito especial para nem sequer querer perceber…

      1. Então mas a Troika não esteve lá esses 5 anos ?

        Os objectivos da politica lá (e cá) eram restituir o acesso aos mercados, estancar o crescimento da divida, diminuir o défice (estruturalmente) e promover reformas que afectassem as lapas agarradas ao orçamento de estado, pelo menos foi o que nos andaram a dizer.

        O que se verificou foi que nada disso aconteceu, as politicas adoptadas lá (e cá) serviram para limpar os balanços da banca em geral e em particular da banca alemã, francesa e passar a factura directamente para as populações através de cortes em salários / pensões, desemprego e diluição da riqueza nacional através de privatizações FORÇADAS de sectores estratégicos (monopólios naturais) a empresas francesas, alemãs, etc.

        Acha que isso é ajudar um País a entrar nos eixos novamente ?

  4. Já vi muita coisa em politica, mas o percurso do Tsypras de janeiro para cá, é uma coisa nunca vista: uma pirueta de 180º! agora aceita tudo o que andes dizia rejeitar.
    Quanto ao resto, não me apetece “bater em mortos”, mas sempre vou dizendo que o ai Jesus da esquerda bempensante foi o maior derrotado destas eleições, o tal de Varoufakis; e mais uma vez que a burguesia intelectualóide da capital que se diz de esquerda, a que alguns chamam esquerda-caviar, mais uma vez se enganou. Andam a enganar-se há mais de 80 anos.
    Em todo o caso, e porque já li aqui sobre o assunto, qualquer reestruturação da divida grega está fora de questão. Nem faz nenhum sentido falar nisso nos anos mais próximos porque até 2021 ou 2022, nem juros pagam, quanto mais fazer amortizações.

    1. Senhor Silveira:
      O João Pinto (o do FCP) era mais sensato, pois dizia: prognósticos só depois do jogo.
      Afinal, o senhor cai nos mesmos erros de previsão da Esquerda Caviar.
      Até o FMI diz que é inevitável a reestruturação da dívida grega (e mais tarde dirá da nossa).
      As eleições gregas já passaram, agora é só passarem as portuguesas e as espanholas.
      Já agora, a notícia do jornal i é muito interessante: a dívida portuguesa aumentou 1000 milhões de euros em Julho (e os indicadores conexos referidos na notícia também não são bons).
      Isto apesar do pagamento virtual de 5,1 mil milhões do Passos em campanha.
      Pagamento que fez com cascas de alhos, a nova moeda aceite internacionalmente para pagamentos por parte dos falidos.
      E pensar eu no que se criticou o outro lunático quando disse que as dívidas não são para pagar mas para gerir.
      Afinal, o que este lunático está a fazer não é o (normal) roulement da dívida?
      Pedir a quem empresta em dado momento em que os juros são mais baixos e pagar o que se contratou antes quando os juros eram mais altos?
      Ah, esqueci-me, foi o actual lunático que fez baixar os juros internacionalmente.
      Pois!
      Os brasileiros têm um expressão muito elucidativa: «me engana que eu gosto».

  5. Como digno de nota, porque espelha o valor que os próprios se dão, mas que se verifica lirismos delirantes, a votação de trinta ex deputados do Siryza, que nem um conseguiram eleger.
    Talvez sirva de mote para muito cretino, que pelo burgo, continua impante duma importância oca, que como dizia o outro, se verifica nitidamente exagerada.

    1. A melhor notícia para Tsipras foi, de facto, o esvaziamento da extrema-esquerda vociferante de Varoufakis e companhia limitada, tão acolhida em certos circuitos mediáticos, incluindo o português.
      Com apenas 2,7% os dissidentes do Syriza ficam fora do Parlamento. Mas há que reconhecer: só eles são fiéis à matriz original do Syriza, que fez um giro radical de 180 graus, passando a defender tudo quanto combatera até há meses.

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