Já ninguém é Charlie


Pedro Correia,

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Os bárbaros atentados de 7 de Janeiro em Paris, que vitimaram 17 pessoas (incluindo alguns dos mais conhecidos caricaturistas franceses), ocorreram faz hoje um mês. Mas parece ter já decorrido um ano. Durante alguns dias ouviu-se gritar “Je suis Charlie” em alta estridência um pouco por toda a parte: até o George Clooney achou “giro” exibir-se com um dístico desses numa festarola em Hollywood.

Sobre as cinzas do massacre logo tombou a lei do silêncio, impondo-se por toda a parte um pragmatismo amedrontado – enquanto o fanatismo islâmico continua a matar. Agora já quase ninguém é Charlie. Nem o Clooney, sou capaz de apostar.

0 comentários em “Já ninguém é Charlie”

  1. Pedro, nunca ninguém foi Charlie.

    E aliás, as câmaras já pararam de filmar, por isso já se pode parar de fingir. O espectáculo terminou, os políticos e comentadores televisivos tiraram as divisas que puderam dele; agora é preciso esperar pelo próximo acontecimento mediático que lhes permita brilhar por mais uns minutos sob as luzes da ribalta.

  2. A banalização de tudo que tudo rebaixa e faz equivaler.Acabou a gradação.
    Permita-me que anexe ao seu este assunto:
    Na minha já remota memória(peço que me corrijam se adultero gravemente o texto)da Ilíada tenho ideia de o herói Aquiles ser censurado por desrespeito para com o cadáver do herói vencido(Heitor) e por falta de compaixão para as súplicas
    do pai(Príamo).Foi isto há 3000 anos? A sociedade de então estava ainda longe
    da democracia ateniense e mais ainda das contemporâneas.Porque o relembro:
    Há dias fomos informados de um pedido de clemência para com um prisioneiro de guerra cuja efectivação se faria por troca de cativos.Fomos também informados que a resposta a tal pedido se concretizou no assar-se o detido vivo dentro de uma jaula sobre a qual foi depois despejado entulho.
    Viu algum comentário da “peidorrenta sociedade do welfare state”,na peculiar caracterização de Jorge de Sena ? Se viu nem tudo está perdido.
    Louvo o seu artigo.

  3. Ainda se fossem só os políticos estávamos nós bem: era só mais uma boa razão para dizer mal deles.

    O problema é que toda a gente quis ser Charlie e, quando toda a gente quer ser algo de que desconhecia a existência na vépera, isso quer dizer que ninguém quer ser nada, só quer aparecer a fazer (melhor dizendo, a julgar que faz) bonita figura.

    De resto é fácil ser altruísta, sentadinho ao computador, de pantufas.
    E então se vivem uma vida pouco activa melhor ainda, a inflamação do verbo compensa-lhes a falta de acção.

    Lembro sempre um diálogo que li há anos numa caixa de comentários do jornal “Le Monde” e que (para mim) define bem a situação actual.

    Dizía um desses que salvam o mundo sentados ao computador:
    “Quando a revolução rebentar, passadas umas horas está tudo na rua”

    E respondia-lhe outro:
    “Claro que sim, vão todos ver se não lhes incendiaram os carros” (*)

    Abraço

    (*) Eu não estou nesse grupo, em 2 anos meteram-me 2 portas dentro com manobras (e piraram-se, claro).
    Também andaram a dançar em cima do capô, até as solas dos ténis lá ficaram marcadas nas mossas que deixaram.
    Estou por tudo…

      1. Já agora.

        Depois do chamado “numéro des survivants” saído a 14 de Janeiro e que vendeu mais de 7 milhões de exemplares, o próximo número está previsto para 25 de Fevereiro.

        Ainda venderá decerto muitos exemplares e o mais provável é que volte depois aos 60 mil que sempre vendeu, até ver.

        De qualquer modo não me parece que passem dificuldades tão depressa:

        “Avec ces numéros vendus à 3 euros pièce, Charlie Hebdo devrait encaisser des recettes de plus de 10 millions d’euros, d’autant que pour le premier million d’exemplaires, toute la chaîne de distribution et d’impression avait renoncé à toute rémunération. S’y ajoutent des dons de plus de deux millions d’euros ainsi qu’un million promis par le ministère de la Culture. Soit plus de 13 millions d’euros en tout”

        Do “Le Huffington Post”, edição francesa em associação com o “Le Monde”

  4. Não é pragamatismo amedontrado.
    É na maior parte dos casos uma decisão política-cultural da Esquerda Marxista pois o maior inimigo ainda não é o Islão. É a Civilização Ocidental.
    Só quando a Esquerda Marxista decidir que o Islão lhe é mais ameaça – e não uma arma para aproveitar como contra cultura – aí as coisas mudam de figura.
    Tal como a URSS sabotou o combate contra os Nazis até ao momento em que estes a atacaram.

    A Esquerda não sai para a rua contra a bombas Islamistas. Quando sair vai ver que todos ganham “coragem”.

  5. No calor do horror e da indignação, praticamente todo o mundo foi Charlie. Mas é como diz e muito bem , Pedro, foi só há um mês? Estava em crer que foi há muito mais tempo… não somos seguramente de boa memória.

    1. Tempus fugit.
      Até parece que alguém se preocupou em saber quais foram as edições das semanas seguintes.
      Saiu o número da praxe do “Tout est pardonné” e se houve números seguintes ficaram sob o título “Tout est oublié”.

  6. Esqueci-me de dizer que a “fórmula” não tem nada de novo.

    Basta lembrar Kennedy em Berlim em Junho de 1963 e o seu “Ich bin ein Berliner.

    Ou o “Nous sommes tous des juifs allemands” de Maio de 68 em Paris, uma reacção aos ataques feitos contra Cohn-Bendit precisamente por causa das suas origens.

    1. Sim. Com a diferença, que não é de mais assinalar, que Kennedy não se limitou a proferir a frase: assumiu a consequência de tê-la proferido. E nunca afrouxou na defesa de Berlim, então última fronteira do mundo livre.

      1. Essa é de facto a grande diferença para os soixante-huitards, muito mais consequentes que os Charlies de aviário.

        1. Kennedy fez a grande diferença para os de 68, que não fizeram nada de especial porque nada de especial queriam fazer.

          Maio de 68 começa com um “não-facto”, o fecho da Sorbonne por um reitor desajeitado e apoiado por um ministro mal informado, são os filhos da burguesia que vêm para a rua invocando preocupações que não sentiam porque não as tinham de facto (mas parecia “bem”…).

          Alguém acha que em Maio de 68 havia filhos de operários, modestos funcionários e pequenos artesãos nas universidades?
          Pois se ainda hoje isso não acontece!

          De resto e dado que desde a 1ª hora tiveram a oposição clara do PCF, precisamente por ter aquilo muito pouco a ver com as lutas do proletariado à época e lhes tirar espaço de manobra, estavam condenados como qualquer movimento deste tipo que tivesse a oposição de partidos comunistas fortes.

          Claro que há por aí muitos saudosistas do Maio de 68, não o acompanharam na altura, não o estudaram depois.

          Mas em Maio de 68 deram muitos o corpo à luta, agora só dão horas de internet que aliás não lhes custam nada, estão incluídas no “pacote”.

        2. Como errata ao meu comentário de há minutos atrás “não facto político”.

          De resto acho que me tenho estado a comentar a mim próprio, não tenho a certeza se cliquei nos sítios certos, as minhas desculpas.

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