Isolamento a levantar


joaomsandre,

Uns tempos sem tempo para nada, que isto de ter a prole em casa complica a vida a dois pais que têm de trabalhar, especialmente com as reuniões a aumentar em relação ao normal.

Mas vá que amanhã reabrem as escolas e creches. Na Holanda e noutros países. E isso leva-me a pensar nas diferenças. Na Holanda há já muito que os isolamentos têm sido softs. A vizinha de baixo tem a cada 3 dias um jantarzinho no pátio com amigos. Separação de metro e meio? Pois claro. Os supermercados têm entradas e saídas separadas com fitas, porque se sabe que as fitas impedem a passagem do vírus, isto é país de gente cumpridora. Até os corredores de supermercado têm as fitinhas nalgumas zonas a obrigar-nos a seguir um determinado percurso, género IKEA. Se nos esquecermos de alguma coisa lá atrás? Vamos em contramão porque não podemos ir à volta, a fita não deixa. As lojas dão todas o cestinho à entrada, é para contar as pessoas lá dentro. Vem com criança porque não a pode deixar com ninguém? Leve mais um cesto.

Já a Bélgica é mais misteriosa para mim. Fecharam a fronteira e eu não posso entrar. Sabe-se bem que os holandeses são uns contaminadores e não podem entrar nesse paraíso sem COVID-19 que é a Bélgica. Já uma loja que atravessa a fronteira entre Holanda e Bélgica? Metem-se as tais fitas dentro da loja a separar (isto foi há semanas, não sei como está agora). Mais uma vez, o vírus é boa gente, não vai atravessar.

Na Alemanha levei um choque no supermercado quando lá fui fazer compras. Nada de problemas na fronteira, mas toda a gente no supermercado estava de máscara, que parece ser obrigatório. Até pensei que não me deixassem entrar, mas nem por isso. As caixas tinham a protecçãozinha de plexiglass e de resto os contactos eram minimizados. Claro que usar a máscara parecia boa ideia até as pessoas as irem tirando no parque de estacionamento, porque o vírus não gosta de carros, já se sabe, é ambientalista. Dentro do supermercado as pessoas eram mais disciplinadas a usar as máscaras – que às vezes eram apenas golas puxadas sobre a boca – e até as arranjavam a cada 5 minutos, mexendo nas bochechas e no nariz. Também coçavam os olhos. E mexiam no telemóvel. Porque aquela radiação do telemóvel, se causa cancres, também deve matar vírus, ou bactérias, ou bacilos, ou micróbios ou lá o que é o bicho.

O melhor são as pessoas que usam as luvinhas e as máscaras e depois de mexer em tudo o que encontram, puxam do telemóvel e encostam-no ao ouvidinho, trazem perto da cara. E depois arranjam a máscara constantemente, ajustam óculos de sol, coçam o nariz e comem a comida com as luvas que não lavaram ou trocaram. Lá está, o vírus é simpático, não vai para a comida – eu também não ia para alguma desta comida que se compra na rua.

Mas está tudo bem. O isolamento levanta-se e os miúdos regressam à escola. Só dois dias por semana que as classes são divididas a meio. A entrada é proibida a pais, que apenas terão de se concentrar à porta da escola na rua apertada. E na creche só quatro poderão entrar ao mesmo tempo, que há apenas quatro peças de um objecto para entrar. Claro, os pais lá terão de esperar pela sua vez, com a sua prole, à entrada num corredor exterior com metro e meio de largura. Tudo lógico, obviamente. Nos parques? Vamos a um piquenique. As mantas estão a metro e meio das outras, por isso está tudo bem, não é?

É tudo muito bonito. Vamos a ver a beleza em Setembro. Não gostamos do isolamento? Esperemos pelo próximo Inverno. Espero enganar-me. Mas o isolamento (e não, não é a quarentena, isso é outra coisa) está a levantar. Para já.

23 comentários em “Isolamento a levantar”

  1. Afinal em todo o lado é como cá.
    Eu a pensar que eram só manias do Sousa e do Costa.
    Viso não haver um posto de fronteira, como é que fecharam a fronteira Holanda-Bélgica na autoestrada 19?

    1. A que vai para Antuérpia? Não sei, não a vi. Vivo bastante mais a sul e não faço ideia. As estradas locais que vão dar à Bélgica, que são as que uso (vivo a uns 5 km da fronteira, se tanto) têm um polícia na fronteira. As autoestradas suponho que tenham novos postos de controlo, não é difícil instalar tal coisa.

      Claro, trânsito necessário é permitido. Transporte de mercadorias passa (desde com justificação) e por motivos de trabalho também se pode (há pessoas que vivem num lado da fronteira e trabalham no outro).

      Tenho até um amigo que trabalha para uma empresa holandesa que presta serviços técnicos no porto de Antuérpia e que o manda muitas vezes lá. Há uns dias teve que lá ir e levou carta da empresa dele e da empresa que os contratou e pôde passar. Mas não lhe perguntei como estava organizada a fronteira.

      1. Pois.
        Quem vier, por exemplo, de Breda (Holanda) pela autoestrada 19 para a aeroporto de Zaventem (Bruxelas), não encontra nenhum posto de fronteira e só se apercebe que entrou na Bélgica por aparecerem placas bilingue (francês-flamengo/neerlandês). Antes da Ryanair fazer Lisboa-Eidhoven, fiz dezenas de vezes esse percurso e nunca reparei haver policia nos locais das placas a indicar a fronteira.

  2. Eu resolvi a situação de uma forma mais científica: mudei o meu nome para Hidroxicloroquina e o meu sobrenome para anticoagulante-azitromicina.

    Dito isto, durante as minhas deslocações só vejo covids a morrerem de susto.

      1. Sim, padrinho, infelizmente nem todos têm tido benefícios com isto. Mas já há um anticoagulante a ser administrado, em associação com outros fármacos, que tem recuperado as pessoas com os pulmões afectados e evitado a entubação destas.

        O comentário foi mais em tom de desanuviamento, pois o sacaninha perde e ganha simultaneamente.
        Mas como refere, e bem, o bicho ganha mais por desleixo dos humanos que por sua própria acção. Exemplo disto foi o de um médico brasileiro de 32 anos, sem quaisquer outras patologias, que por excesso de confiança (não seguindo o conselho de outro colega) não controlou e não valorizou devidamente o ataque que o bicho lhe fez, matando-o.

        Folgo em saber que se encontra bem. Abraço.

  3. Aqui em Espanha a coisa também está divertida.
    Um casal que viva junto não pode ir às compras em conjunto, mas as crianças podem; um casal pode visitar os familiares e usar o automóvel, mas não podem ir juntos às compras; posso sair de casa para ir trabalhar, mas para passear só entre as 6-10h e entre as 20-23h, ou seja posso dar um passeio sempre que me apetecer desde que diga ao policia de serviço que estou a caminho do trabalho ou para alguma reunião; escritórios de serviços não essenciais ainda não podem abrir, mas já podemos beber umas cervejolas porque os bares só abrem com 50% da sua capacidade; precisei de fazer umas reparações domésticas, mas as lojas de bricolaje e ferramentas não são essencias, na quarentena só podemos comer, ver tv e “teletrabalhar”, azar o meu, tive de cozinhar mês e meio às escuras porque não tinha luz na cozinha; estando a “teletrabalhar” se ficar sem tinteiro ou papel na impressora azar, lojas de informática e papelarias não são essenciais, mas podes comprar online, a loja está fechada mas o pessoal está lá a trabalhar para fazer chegar as coisas a casa; a fronteira está fechada, mas a GNR não me bloqueia porque sou português e a Guarda civil idem porque resido em Espanha… E um longo etc.
    Disclaimer: sou contra a quarentena.

    1. a melhor de todas , que não há ninguém que perceba, é que posso sair para fazer exercício , mas à volta não posso passar pelo bar para beber qualquer coisa 🙂 não se acredita.

  4. Melhor ainda são aquelas pessoas que andam com a máscara no queixo, como os óculos na cabeça, e assim que chega alguém colocam-na na boca/nariz. Há para todos os gostos…

    1. De uma geração que cria “safe spaces” nas universidades, que foge de uma discussão polémica para não se ofender, que se alimenta de sumos detox, para a qual tudo e todos são toxicos e faz das redes socias um espelho de si próprio (selfiemania), outra coisa não seria de esperar…

    2. Aqui onde estou não nevou muito este ano.

      Mas olhe que a sua crítica está completamente errada. São os millennials e a geração Z quem está a obedecer melhor a isto tudo. São eles que aceitam melhor sair porque compreendem as razões. Ajuda que muitos sejam jovens e ainda não tenham filhos, mas a mentalidade está ali. Não posso dizer o mesmo da geração X (a que pertenço) ou tantas outras anteriores, que pensam saber melhor que os outros e ignoram olimpicamente as instruções dos especialistas.

      Aliás, são as gerações pré-millennial que nos trouxeram a um mundo onde não há serviços de saúde em condições decentes para fazer frente a esta pandemia.

  5. Distanciamento nos restaurantes ….Juntinhos só famílias que fazem parte do mesmo agregado familiar. Será que vão pedir atestados de residência? [;)

    1. Depende de onde. Na Holanda não é necessário. Se quiserem confirmar, os polícias têm um aparelhozinho onde enfiam o documento de identificação holandês que lhes dá a morada. E os outros podem andar com alguma carta do banco ou conta de água ou gás ou luz ou outra. Ou com a carta oficial que a câmara passa.

      Não é difícil verificar, para dizer a verdade.

  6. O uso da máscara e das luvas está muito mal entendido. Essas cirúrgicas protegem os outros, não o utilizador. Logicamente se todos protegermos os outros acabamos por nos proteger. As luvas são quase dispensáveis, a não ser que se andem a descartar de 5 em 5 minutos, mais vale lavar as mãos. Há dias vi um pastor no meio de nenhures, com a máscara. Pessoalmente, sozinho no carro tiro-a. E se enquanto a usei não me cruzei com ninguém, reutilizo-a. Tenho é muito cuidado antes entrar no carro. O meu problema é com as pessoas que não usam e falam aos berros a lançar perdigotos com fartura – com esses só de escafandro.

  7. Hoje, na minha parvónia. Dois amigos que “enjaulados” há muito tempo, cruzam-se diante de um café. Vamos beber umas “mines”. Dito e feito, ambos com máscara, um ficou cá fora e o outro penetrou no metro estabelecido no interior, para comprar as ditas. A empregada tirou as tampas, e ao sair para a rua para se deleitar com a bebida e com o prazer da companhia do amigo, passou uma patrulha da G. N. R., que ao aperceber-se da situação, duas bebidas sem tampa a saírem de um café, questionou o cliente bem como o dono do estabelecimento por estar a vender duas bebidas “violadas”. Como não podia deixar de ser gerou-se alguma confusão, mas não mais que isso.
    Resumindo, tolerância sem limites para uns e zero para outros, estes.

  8. o relato alem de multinacional, é bem disposto.

    Mesmo assim exagerado, parece, parecemos, treinador de bancada.

    Bem…

    Vi um idoso, daqueles que se percebe ser da classe media alta, retirar a mascara para espirrar, por acaso pertinho de um quiosque onde clientes aguardavam.

    Nao sou especialista, o Joao tambem nao será, certo é que para alem da insinuaçao, no final do post, nao arrisca prognosticos. Que é justamente o que nao vejo. Andamos continuamente a apanhar as canas….

    Afinal, as mascaras devem ser fornecidas pelo patronato, ou nao ? Pois, depende, depende, depende

    1. Certamente que é relato de treinador de bancada, dado que, como bem diz, não sou especialista. Entenderei alguns aspectos melhor que algumas pessoas e pior que outras, é coisa da formação que tenho, mas não sou nem mais nem menos. Apenas acho piada às medidas e às diferenças entre países.

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