Intolerantes face à intolerância


Pedro Correia,

Karl Popper ensinou-nos, sobretudo na sua obra máxima, A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, expoente do pensamento liberal: há que ser intolerante face à intolerância. Para que a serpente não choque os ovos.

Quando começaram a meter os primeiros judeus em vagões, na Alemanha hitleriana, a maioria da população encolheu os ombros e virou a cara para outro lado. A História ensina-nos que devemos agir ao contrário. Vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar.

46 comentários em “Intolerantes face à intolerância”

  1. Quando começaram a meter os primeiros judeus em vagões, na Alemanha hitleriana

    Na Alemanha raramente se meteu judeus em vagões; isso fez-se sobretudo na Polónia e noutros países de Leste.
    A maioria dos judeus alemães, ou foi morta diretamente no local, ou foi estimulada a fugir da Alemanha antes que a “solução final” começasse.

  2. Então não temos o direito a ser intolerantes quando sabemos que a nossa tolerância vai levar à intolerância — quando os intolerantes forem em número superior?

    É o que tem acontecido na Europa. Agora querem dividir os países em etnias com privilégios devidamente arregimentados — em vez de na liberdade e na igualdade que a lei já permite as pessoas conquistarem o seu lugar exclusivamente pelo mérito individual.

    Vejam o texto de um afro-descente no observador de hoje para perceber como é moeda quando ela dá a volta — qual é a visão de país que está impregnada no texto e como será daqui a uns anos a manutenção da supremacia de uma ideologia assente na lógica racial: à força. Como fazem noutros sítios. Porque a lei democrática não serve para governar um país com tribos.

    1. Não gosto de catalogações como essas do ‘afro-descendente’. Moda importada dos “amaricanos”, que enchem tudo de etiquetas cromáticas.
      Confundindo as sociedades abertas e plurais do nosso tempo com montras de taxidermistas.

      1. Eu também não aprecio nada — mas não sei se se pode dizer o mesmo das gerações que vêm atrás de mim. Usam essas taxidermias como “moeda” quando lhes convém.

        1. Sim, é o que mais há por aí agora.
          Copiam tudo dos “amaricanos”.
          Agora até põem a mãozinha direita no lugar do coração quando toca o Hino, como fazem os américas…

          1. Tadinhos …
            Admira também ainda não terem substituído a águia na heráldica.

            A saudação romana faz confusão a muita gente. Devem estar saudosos destes memórias: https://www.youtube.com/watch?v=kWOvIh_dL-I
            Um desafio ao BE para mais uma proposta nestes tempos de demagogia e pré bancarrota.

            Smoreira

          2. “mãozinha direita no lugar do coração quando toca o Hino, como fazem os américas…” Essa prática irrita-me de grande. Insuportável. Eu ponho sempre a mão nos ovos (como dizem os brasileiros).

  3. “As más ideias combatem-se com boas ideias”. Deve ser este o limite máximo para a intolerância: a liberdade de expressão. Se esmagarmos os ovos da serpente, na próxima postura ela terá muito mais cuidado na escolha do local e dirá aos seus filhinhos: Cuidado! Estamos a ser alvo de intolerância, o vosso nascimento foi um milagre … Em vez de víboras normais, as quais conhecemos e podemos prevenir o seu comportamento e desenvolver antídotos, teremos originado um novo tipo de víbora, uma mutação quase impercetível na forma como passará a utilizar o seu veneno …. Acabará por ser considerada espécie protegida e os seus ninhos de ovos alvo de legislação protetora semelhante aos cornos de rinoceronte. Em prime-time a TVI em desespero de causa transmitirá em direto a postura dos ovos e a história repetir-se-á: a maioria da audiência irá encolher os ombros ou virar a cara …

      1. Os pensadores do centro da Europa, que testemunharam a queda desse Reino da Ilustração que foi o Império Austro-Húngaro e o nascimento (desde o ovo) do nazismo escreveram milhares de páginas sobre o tema.
        O diagnóstico está mais que feito. Os braços cruzados das burguesias nacionais, em nome da “liberdade de expressão”, conduziram em poucos anos à perda da liberdade de expressão e de todas as outras liberdades. E ao maior morticínio jamais registado na história humana.

        1. Não se pode compreender III Reich sem perceber:
          O desfecho da IGG, a crise do pós guerra, o Movimento Socialista, a crise de 30, o pangermanismo de XIX, e o idealismo/romantismo alemão (Wagner e os Cavaleiros Teutónicos), a especificidade da História Alemã, personificada por Arminio Germânico, e a doidice de Himmler e Hitler – Sociedade Thule. (Se me permite recomendo : Blood Religion The true Nazi Doctrine)

          https://youtu.be/lwBx21-_S-0

          1. Sim, claro, os acontecimentos estão interligados. E há, em regra, nexos causais que merecem ser estudados.
            Embora eu por princípio seja contra o determinismo histórico e desconfie da obsessão pela “causalidade” como chave decifradora e justificadora de tudo.

    1. As sociedades têm não só o direito mas o dever de se auto-preservarem.
      «A tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância», como sublinhou Popper na sua obra mais célebre.
      Uma lição tão actual agora como em 1945, quando publicou ‘A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos’.

  4. Há quem defenda que os Estados são soberanos. Que não devemos interferir pela força, mas sim pela persuasão da palavra.

    Defendendo, eu, a acção militar em Defesa dos Direitos Humanos, fica a pergunta. Atacariamos quantos? – porventura, em nome dos Direitos, ficariamos sem os Humanos

    Talvez mais fácil, do que o conflito armado, em nome dos Direitos Humanos, fosse a proibição dos Paraísos Fiscais ( os embargos económicos são uma perda de tempo).

      1. Penso, que os embargos são ineficientes em ditaduras, em países sem economia de mercado, ou riquissimos em recursos energéticos. Precisamente naqueles, que hoje e sempre, é mais urgente actuar. (Venezuela, China, Rússia, Arábia Saudita, R.D.Congo, Libéria, Libia, Irão, Paquistão…).

        1. O embargo económico é a alternativa à tradicional política de canhoneira.
          Regimes como a Coreia do Norte, a Venezuela e o Irão têm vindo a ser alvo de duríssimas sanções. Que incluem, no caso venezuelano, o congelamento de todas as contas das figuras de proa da proto-ditadura de Caracas espalhadas pelo estrangeiro (parece que a Venezuela “bolivariana” tem muito pouca confiança no seu próprio sistema bancário).
          É uma boa alternativa à política do deixa-andar, de permanecer de braços cruzados como se as atrocidades cometidas nesses países devessem deixar o mundo indiferente.

          1. Meu caro, há quanto tempo duram as sanções ao Irão? À Coreia do Norte? À Rússia? Quanto duraram as do Iraque? Do Congo? A Cuba? As sancões atingem o povo ( vitimas do mercado negro de medicamentos, comida, etc) e poupam a elite corrupta, que envia, por correio azul, milhões de dólares para os Paraísos Fiscais, de bandeira igual, aos que declaram o embargo .

          2. As sanções não matam, mas moem. São um instrumento político defensável e denotam uma atitude moral: não é possível permanecer indiferente perante regimes com vocação totallitária.

      1. Atendendo à Overton Windows presente sim pode-se dizer extremista do centro.

        Para começar quotas para vaginas – bom, para dizer a verdade já não sei nos dias de hoje quem se pode intitular “mulher”…e se é preciso ter vagina para tal…

        lucklucky

  5. O problema com a intolerância , como muito bem exemplifica com o nazismo, é a incapacidade que o ser humano tem em entender o seu semelhante como tal.
    E depois há também a incredulidade e a negação.
    Se a Europa e o mundo pós WWI tivessem conseguido vislumbrar a monstruosidade da solução final, mesmo quando todos falavam no que se passava no leste e não teimassem na negação dos factos, talvez os números do holocausto não fossem tão horrendos.
    Normalmente o maior cego é o que não quer ver e implicitamente consente na maldade dos homens.

  6. O que sei, é que vejo o Santo Ofício restaurado. Persecutório e inquisidor quanto à liberdade de expressão. Donos da liberdade alheia. O politicamente correcto vem atingindo liberdade e democracia. Para certa esquerdopatia, estes vocábulos, são meros eufemismos. O que persegue é a igualdade, a todo o custo, e por todos os meios. escudada numa putativa superioridade moral. O “homem novo” é demasiado velho. E muito desigual. Não dá para fotocopiar.

  7. Boa tarde
    Não sei se o seu post se refere à tal de Bonifácio. Se for o caso deixe-me que lhe diga uma coisa: é um equilíbrio difícil, eu sei, mas tem que se tentar sempre até um momento, e o segredo está em acertar com um momento. Há uns anos, um político que não me lembro quem, num parlamento que não recordo qual foi, terá dito a um adversário: “O senhor é um idiota, mas eu lutarei até ao limite das minhas forças para que o senhor possa continuar a ter o direito de se exprimir como um idiota”. Foi mais ou menos assim. Ou seja, a senhora tem uma opinião, é importante que a exprima e que a opinião dela seja combatida com opiniões. Se chegar o tempo dos vagões logo veremos, cada um perante a sua consciência ou a sua barriga
    Cumprimentos

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