Não me digam que uma frase destas, proferida pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, não é uma interferência da R.P.C. nos assuntos internos da Venezuela.
Traduzindo isto por miúdos, a China considera que eleições que decorreram num clima de intimidação da oposição, com manipulação da comunicação social e dos votos e com violência nas ruas contra os opositores do regime chavista, constituem um processo que decorreu com normalidade.
E se assim é, então também deve considerar como normal que uma manifestação tão descarada de apoio a Maduro e ao governo venezuelano não seja vista como uma interferência nos assuntos internos da Venezuela.
Tomo boa nota do que se disse porque se amanhã outros países se pronunciarem sobre as eleições que se venham a realizar em Hong Kong ou Macau, por exemplo, dizendo, imagine-se, que os processos em geral correram mal, que houve intimidação às candidaturas não alinhadas com Beijing, que houve censura e controlo da informação, que as autoridades locais confundiram o direito à informação, o exercício da liberdade de imprensa e o direito de expressar livremente uma opinião sobre as candidaturas com mera propaganda política, para além de ameaças várias à mistura, manifestando-se preocupação pela forma como os processos venham a decorrer, isso também não será considerado como uma interferência nos assuntos internos chineses, certo?

Se calhar algo se perdeu na tradução, Sérgio. Considerar ‘smoothly’ uma “eleição” que decorreu com o país em estado de alarme social e a tropa armada até aos dentes a limpar as ruas, sem campanha eleitoral, sem qualquer debate, sem escrutínio independente, com dez mortos, com os resultados finais oficiais anunciados ainda antes do encerramento das urnas, com a própria entidade responsável pela componente técnica do escrutínio a anunciar que pelo menos um milhão de votos foram forjados, é algo que roça o caricato e em nada se coaduna com a realidade.
Os comunistas vivem numa realidade paralela. Como bem comprova o PCP, em linha com a posição oficial da China. Quando os ditadores são da esfera deles, logo se transfiguram em “democratas” num lance de ilusão semântica.
Mas qual é a “esfera deles”, Pedro? Será que eles sabem?
Pedro, o mesmo pode ser dito dos outros ditadores/ tiranos que são da “nossa” esfera, como por exemplo os que governam na mesma China. São às carradas as visitas oficiais e apertos de mão em busca do el dorado chinês, relativazando-se todos os atropelos aos direitos humanos daquelas paragens. E o mesmo em Angola, Arábia Saudita, Israel, Dubai,etc
E ainda a nossa Guiné Equatorial que pertence orgulhosamente à CPLP. Aliada também dos americanos, pois têm por lá a ExxonMobile e cujo actual Secretário de Defesa Americano, Rex Tillerson, apoiou/financiou o ditador Nguema, enquanto CEO daquela companhia petrolifera. Nguema é acusado por inúmeras violações aos direitos humanos. Tudo perspectivas ou pontos de vista. Citações e exemplos servem para defender tudo e o seu contrário
Seria de esperar que fóruns como este estivessem acima dos media mais ou menos oficiais e massificados.
Mas não!
Não largam a estafadíssima dicotomia de bons e maus, em que invariavelmente os bons somos nós e os maus são os outros
Pior, constituem-se mais papistas que o papa!
De facto, quando, num canal generalista e aberto de televisão, um especialista na matéria, afirma claramente que na administração americana já não há políticos mas empresários-tubarões para quem a democracia na Venezuela não passa de petróleo, como é que havemos de classificar textos como este?!
Já não há paciência!
João de Brito
O que todos nós andamos a fazer é precisamente isto: interferir nos assuntos internos da Venezuela. E creio que todos os que o fazem se considerarão democratas.
O regime não é chavista, é madurista.
A China onde encontrar aliados que lhe possam proporcionar o fornecimento de matérias primas que lhe sejam essenciais estará lá a dar o seu apoio.
Os EUA e a UE e outros mais passam a vida a fazer o mesmo, desde o tempo de Chávez, e parece que isto era e é normal.
Os únicos que podem mudar todas estas coisas são os cidadãos, homens e mulheres de boa-vontade. Mas enquanto estivermos arregimentados a ideologias e partidocracias tudo continuará na mesma. Só a verdade liberta.
De acordo. Convenhamos, todavia, que é muito difícil evitar que muitos de nós estejam “arregimentados a ideologias e partidocracias”, como por aqui se pode ver. É uma pena.