Instantes em sépia com capa de muitas cores (8)


Maria Dulce Fernandes,

Redacção :

Gosto de viver nos livros. 

O livro é aquele companheiro silencioso que tem o poder de te abstrair do espaço e do tempo, de te transportar na crista de uma onda, cabelos ao ar e borrifos salgados de mar e sangue, alvoroço e aventura,  por entre troar de canhões,  gritos e mastros quebrados  que tombam  gementes, arrastando consigo as cruzes derrotadas, trapos rasgados e sujos que o orgulho oco não insuflará mais.  

Os meus livros falam comigo. Abrem-me portas para o espaço brilhante de nebulosas prenhes de mundos esdrúxulos tão atípicos e monumentais como as criaturas que neles habitam e que, como o livro que seguro, comunicam sem falar, sem som nem movimento,  límpida e cristalinamente como se eu fosse um náufrago sequioso de saber e o conhecimento a única panaceia.  

Aquele terceiro acolá na estante, acompanhou-me na caravana de mercadores que atravessou meio mundo até Cathay e Manji; dois tomos a seguir sorri-me o que me levou à ilha dos homens pequenos e de regresso pela terra dos gigantes. Na prateleira de cima sinto o cheiro das Ramblas à noite, de Macondo ao entardecer, e oiço o pregão das Bahianas coloridas com perfume de cravo na areia do Agreste. 

Baixo-me e retiro o último do transmontano dos países baixos, que me intriga pela objectividade da escrita, que me faz sempre pensar em biografia, sempre, sempre que o leio. 

Lá no alto, inacessíveis e ostensivos, estão os grandes. Os maiores em tamanho e preferência também. O que canta o peito ilustre lusitano ao lado duma série de lombadas iguais em cor e diferentes em tamanho, todos da família daquele  que nos mostra o interior austero do Ramalhete. Com um pequeno busto do cego a separá-los ressalta a sua própria obra épica, bem como o clássico do romano que lhe dá seguimento. Este último confidenciou-me que o amor é algo terrível, que destrói corações e leva à loucura e à morte. Os russos, na prateleira abaixo, confirmam que sim,  que a confidência do colega é exacta, basta lê-los também.  

São tantos, tão  interessantes e fartos no saber das coisas que  contam, que me encantam e fazem desejar mais e mais, cada ver mais, dezenas, centenas, muralhas de cultura e fantasia, camaradas de muitas horas,  amigos de sempre. 

Os meus livros falam comigo, são meus confidentes, contam-me coisas, fazem-me rir, chorar, ficar suspensa dum gesto, reter a respiração, acelerar a pulsação, vibrar o coração. 

Viver nos livros é poder viver muitas vidas, é enganar o tempo e renascer continuamente no mar, nos céus, nos desertos, com o sol ou com a lua, em descrições tão vivas como quadros renascentistas ou fotos de alta definição. 

Sem palavras com falas audíveis, sentimos apenas o feitiço e a emoção que te sussurra ao olhar enquanto a seguras e avidamente lhe mudas a página. 

0 comentários em “Instantes em sépia com capa de muitas cores (8)”

  1. Os livros são porreiritos: oferecem-nos bué de variantes para deixar os neurónios psicadélicos e fazer sentir-nos que pairamos na curvatura do espaço, quase a derrapar mas sempre firmes na salvação que chega através do próximo.
    Os livros são montes d´ecológicos: livres de cfc´s, co2, raios ultravioletas… Nã precisamos dos rayban para os ler.

    Os livros ajudam-nos a ver bué da bem uns pormenorzitos, mas não são a experiência dos jes. Somos nós, os jes, que temos de viver nossas próprias experiências.
    É aqui que se encontra a importância dos livros de culinária, pois ajudam-nos a combinar os melhores nutrientes para termos forças para a algazarra.

    Fim da minha redacção.

          1. Obrigado, Maria Dulce. Foi tocante o seu sorriso. O seu texto é belo, mas o meu tem muita + profundidade, pois é capaz de atrair qualquer olhar. Até os cientistas estremecem.
            Agora vou tomar banhinho, pois a criançada do mundo inteiro reagiu ao meu vídeo; isto é que foi brincar!

      1. (Sim, os livros são objectos transcendentes)

        Livros
        Caetano Veloso

        “Tropeçavas nos astros desastrada
        Quase não tínhamos livros em casa
        E a cidade não tinha livraria
        Mas os livros que em nossa vida entraram
        São como a radiação de um corpo negro
        Apontando pra a expansão do Universo
        Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
        (E, sem dúvida, sobretudo o verso)
        É o que pode lançar mundos no mundo.

        Tropeçavas nos astros desastrada
        Sem saber que a ventura e a desventura
        Dessa estrada que vai do nada ao nada
        São livros e o luar contra a cultura.

        Os livros são objetos transcendentes
        Mas podemos amá-los do amor táctil
        Que votamos aos maços de cigarro
        Domá-los, cultivá-los em aquários,
        Em estantes, gaiolas, em fogueiras
        Ou lançá-los pra fora das janelas
        (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
        Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
        Podemos simplesmente escrever um:

        Encher de vãs palavras muitas páginas
        E de mais confusão as prateleiras.
        Tropeçavas nos astros desastrada
        Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.”

          1. Pedir, pode, lógico, e eu adoraria corresponder. Mas receio que a criança que habita em mim e que eu faço questão de apaparicar para que ela me não abandone de vez, prefira brincar de roda ou de esconde-esconde ou, quiçá, encarar uma bela diabrura … sorry, Maria Dulce.
            Mas vou ficar atenta, por aqui.

  2. Um texto excelente de amor aos livros. Não tenho esse dom de chorar com os livros ou me emocionar verdadeiramente. Gosto de lê-los mas não me lembro de não haver distância entre nós – ele é sempre o livro, eu sou sempre a leitora; não me dissolvo na leitura. É certo que me deram e ainda darão longas horas de prazer e lhes devo isso. Quantas vezes os li preterindo mil e um afazeres de maior premência. Mas li-os, foi a minha opção. Ou a minha fraqueza. Tenho para mim que sempre aprendi mais com as pessoas, os animais e as coisas do que com os livros (exceptuo aprendizagens escolares). O meu comportamento explícito não se pauta por leituras, não tenho um livro da minha vida e, se admiro um autor ou um personagem, não há mistura, o seu mundo nunca é o meu. E digo-o com algum pesar. Que é mais feliz quem assim se enfronha nas letras.
    A tudo isto exceptuo a poesia. Os poetas de alguma forma poisam sobre as feridas, sobrevoam as alegrias, dizem o que não sabemos nem ousamos, mas existe.

    1. Ler é sempre uma boa experiência. Ler do bom e ler do mau e perder tempo a comparar. Tenho viajado com os livros pelos livros, e acabo por voltar lá , aquele mundo que me abriu horizontes a vivências diferentes da minha e constatar que depois do livro muita coisa mudou, apesar de estar tudo igual.
      Poesia é muito mais interpretativa do que uma boa narrativa. Gosto de Borges, por exemplo, mas não tenho o mesmo gosto em reler a sua poesia do que em reler os Maias.

  3. Boa tarde, Maria Dulce.
    Há duas qualidades de leitores.
    Aqueles que não vivem sem um livro, e aqueles que só vivem sem ele.
    Pelo meio como algo fantasmagórico das trevas emergindo, surgem aqueles para quem ler é imolação, a menos que o sacrifício seja compensado por uma carilada à maneira.

    Sem zangas nem rancores
    Porque da criança é o dia
    Pensemos nesses amores
    E vivamos imbuídos de alegria.

    Desejo-lhe um excelente fim-de-semana

      1. Enquadro-me naqueles para quem a vida sem livros é vegetar.
        Mas tenho uma explicação para isso. Primeiro fui criado numa época em que o máximo de tecnologia conhecida era o grande rádio de madeira a válvulas que tínhamos lá em casa, e segundo o meu pai possuía uma biblioteca imensa.

        Redacção, assim de momento não me ocorre nenhuma, mas posso contar uma história sobre crianças que… bem, não tão crianças assim, mas se o não eram pela idade eram-no indubitavelmente pelo juízo.
        Se quiser conto. 🙂

          1. Bom, então cá vai, não que sem antes, porém, não me exima de toda a previsível responsabilidade comovedora que, certamente, tal dramático relato provocará nas almas sensíveis, ou seja: todos aqueles de coração puro e alma límpida para quem as desgraças alheias são fonte inesgotável de lágrimas derramadas

            Na margem de um afluente do Rio Lucala, perto do meio dia, três homens trabalhavam.
            Na margem onde se encontravam e distando para aí uns sessenta metros, um jacaré refastelava-se ao sol.
            Curiosos os três observavam o jacaré, e esse sem dúvida menos curioso mas indubitavelmente mais interessado, olhava-os enternecidamente.
            Tecem-se umas considerações sobre o bicho: tamanho, hábitos alimentares, técnicas de caça, perigosidade, essas coisas
            Diz o mais velho, homem fanfarrão e quezilento, tipo cabra macho que a propósito de tudo e de nada estava sempre com o “não és homem não és nada” na boca, o único casado e com a mulher a viver no acampamento, bonita e apetitosa mas quase sempre empanada das cargas de porrada que o gajo lhe dava, enfim; gajo imprestável.
            – Aposto que consigo atravessar este rio sem que esse jacaré chegue ao meio dele.
            Avança o mais novo, que por sinal era eu:
            – É capaz de não ser boa ideia.
            Atiça o do meio, não tão fanfarrão nem quezilento como o primeiro, mas alminha sempre virada para a provocação.
            – Nem és homem nem és nada!
            Zaz! Ainda o eco do não és nada se dissipara e já estava o fanfarrão em cuecas a mergulhar no rio.
            O jacaré, sem dúvida antevendo fracas probabilidades de êxito, nem se mexeu.
            Quase a atingir a margem do outro lado, um primo, ou tio, cunhado ou qualquer outro familiar do jacaré deste lado, que lá estava oculto pelo capim, mergulhou e deu-lhe as boas-vindas.
            Imediatamente o nosso jacaré mergulhou e foi ter com o primo, ou cunhado ou que laços familiares os ligassem
            Perdeu a aposta, mas também nunca mais apareceu para a pagar.
            Imediatamente acabou o trabalho, regressa-se ao acampamento e uma vez que o fanfarrão não estava ali para desmentir ninguém, ensaiou-se a preceito como contar a coisa.
            Diz o chefe do acampamento:
            – Então e quem lá vai agora à viúva comunicar-lhe?
            Discute-se a coisa, “Eu não vai lá tu” “Por que raios vou lá eu” Está-se nisto e finalmente chega-se a um consenso. Corvo vai dar a notícia a viúva
            Bem: acho ser, de todo, conveniente parar mesmo por aqui.

          2. “Discute-se a coisa, “Eu não vai lá tu” “Por que raios vou lá eu” Está-se nisto e finalmente chega-se a um consenso. Corvo vai dar a notícia a viúva
            Bem: acho ser, de todo, conveniente parar mesmo por aqui”

            Corvo, excelente. Tem veia de contista. Mas fiquei na dúvida, pelo final, se consolou a viúva apenas pelo conforto da palavra.

            Desculpe se me enganei. Bom fim de semana

          3. Depende de qual interpretação se dê ao verbo.
            Fui lá, por acaso a recente viúva estava à porta, olhou para mim deveras admirada, e mostrou-se muito curiosa.
            – Hoje vieram mais cedo? E o meu marido?- Perguntou por perguntar porque por de mais estava habituada ao gastos da casa. Raramente ele ia para casa sem asilar uma hora, ou mais, na cantina.
            – Pois, não veio!
            – Não veio, porquê?- Aqui já a displicência com que diálogo se iniciara dera lugar a uma curiosidade mais atenta.
            – Foi tomar banho ao rio e um jacaré caçou-o.
            – O quê???!!!
            – A gente bem lhe disse que era perigoso, mas ele teimou e foi.
            Abriu a boca de espanto e como estava à porta da casa, entrou e chamou-me.
            – Entra, entra, vem-me explicar isso.
            Lá dentro ficou a olhar para mim, eu para ela, depois lançou-se para cima de mim a desabafar a sua dor.
            – Ai o meu rico marido, ai o meu rico marido. Eu já sabia que um dia ia acontecer alguma coisa. Foi sempre um teimoso e nunca ouviu ninguém
            Depois separou-se, lá terá pensado que isto requeria longos desenvolvimentos explicativos, porque disse.
            – Vens jantar comigo para me contares isso tudo
            – Está bem.
            Fui tomar banho, vestir roupa lavada e depois fui jantar à casa dela e explicar tudo à senhora. Não obstante os meus 24 anos, acho que expliquei tudo muito bem a uma senhora de 38.
            Acho que era uma senhora com um auto-domínio formidável porque nunca lhe ouvi um grito nem uma lágrima vertida vi.

  4. Muito obrigado pelo seu belo texto. Eu também olho para as minhas estantes, mas com uma pequena diferença, sem a experiência da maioria lida, mas com a curiosidade e esperança do que me espera na leitura dessa imensa maioria dos livros não lidos. Vou tendo uma ânsia incontida da leitura de toda a ficção que falta, mas sempre acabo me entregando nos braços do ensaio.A ignorância profunda assim o vai impondo. Leio o comentário da Bea e exclamo, para quem diz não conseguir viver dentro dos livros, não está nada mal. A última vez que vivi intensamente dentro de um livro de ficção, ele chamava-se “Odisseia”, essa aventura, ou desventura do Ulisses, ou Odisseu, como lhe queiramos chamar. Nunca imaginei eu que a leitura de um livro mexesse (me perturbasse) tanto comigo. Ainda assim, e recuperando o fio à meada, obrigado pelo seu belo texto.

    1. Obrigada Vitor! É tão bom perdermo-nos num livro, e podermos encontrar-nos uns capítulos à frente, ou mesmo quase no fim!!
      Que tal uma pequena redacção Vitor? Um conto? Comemorar o dia da criança com um par de letras que lhe lembrem a infância ou a juventude?

      1. Sabe, minha cara Maria, tenho muitas memórias, quer da infância, quer da juventude, mas todas elas muito dispersas, sem qualquer tipo de aglutinante integrador que lhes proporcione um sentido da redacção, quanto mais do conto. Mas qual conto? Isso é uma coisa de Autor. Eu sou só um mau leitor, tardio, que vivi a minha infância nos idos anos em que a escola era bem estimulada pela severidade, para lhe não chamar outra coisa, e que não estimulava a criatividade. As férias grandes eram de três meses e meio e, por compensadora coincidência ou não, aconteciam no período do ano dos dias intermináveis, para nossa sorte, embora sempre nos parecessem pequenos, demasiado pequenos para tudo o que desejávamos fazer, incluindo todas as brincadeiras da rua, do monte (ia dizer bosque, mas esta palavra, bosque, assim como charneca, são já tardias, oriundas das leituras da Enid Blyton), junto ao bairro, e dos campos, que percorríamos alegremente, ao longo dos caminhos sinuosos por entre eles até ao rio. Na verdade era um ribeiro, mas que para crianças era um grande curso de água, onde tomávamos longos banhos naquela água corrente quase gélida, mesmo sendo o Verão, sem qualquer tipo de controlo parental nem salva-vidas. Tivemos sempre connosco o nosso anjo-da-guarda. Não havia, pois, tempo para leituras. Isso era coisa de adultos que não tinham que fazer, estavam permanentemente ocupados com tarefas inúteis, e sempre que se juntavam, passavam horas a fio a falar de assuntos estranhos e enfadonhos. Nós, crianças ocupávamo-nos de coisas realmente pertinentes, tipo brincar na rua livremente, a tudo quanto um espaço quase sem carros nos permitia fazer, e éramos muito ruidosos, mas o ruído feliz que ainda hoje me faz imobilizar quando me encontro próximo do recreio de uma escola, o único local onde agora se pode presenciar as crianças a brincarem em turbamulta.
        Ainda me lembro da carrinha em chapa canelada que estacionava periodicamente, sempre no mesmo sítio do bairro e abria as portas e a pala lateral, expondo as suas estantes interiores pejadas de livros, bem iguais aos da estante da sala de estar que estavam lá em casa e que só o pai lia, talvez também para nos tentar estimular à leitura, embora julgo nunca o ter conseguido, pelo menos comigo. Com os meus filhos, tive que ser bem mais activo na mobilização para a leitura e mesmo assim só consegui um sucesso parcial.
        Por isso, minha cara Maria, a leitura, está, e ainda bem, hoje ao alcance de todos, mas a escrita, é uma arte só bem dominada pelos que tratam os livros por tu desde tenra idade, o que não é de todo, o meu caso. Voltei a ler o seu texto. Eu sabia que ele me tinha lembrado um livro, muito bonito de resto, o “dicionário dos lugares imaginários” do Alberto Manguel, onde cabem, pelo menos parcialmente, todos os livros de ficção presentes em qualquer estante.

        1. Caro Vítor Augusto.
          Para quem tão modestamente se assume carente de predicados descritivos, exemplificando que “a escrita, é uma arte só bem dominada pelos que tratam os livros por tu desde tenra idade, o que não é de todo, o meu caso” e numa belíssima prosa faz este comentário narrativo num descritivo perfeito; permita-me, com todo o respeito, tirar-lhe o meu chapéu.
          O senhor só não é escritor se não quiser.

          Por vezes, senhor Vítor Augusto, o sermos educados e modestos de mais é uma forma de violência contra nós próprios.
          Os meus cumprimentos.

  5. Magnífico, Dulce.
    Gostei tanto, mas tanto, de ler esta sua redacção.
    Revi-me em muitas das palavras que escreveu e descobri que temos imensos heróis comuns 😉
    Estou a ter um dia um pouco complicado e foi bom vir aqui: já me sinto um pouco melhor.
    Só por isso, agradeço que não me peça uma redacção, hoje não seria capaz (provavelmente nem noutro dia… não tenho o dom da escrita).

    Muito obrigada, Dulce.
    Dia feliz!
    ⚘
    Maria

  6. Dulce, já há alguns anos que deixei os romances de parte. Veja bem, segue-se uma amostra do meu dia de hoje, e doutros mais distantes. Numa parte, dele, falei demoradamente com uma senhora espirita, que guarda a reforma dentro de um bule de chá, na máquina de lavar….depois dei 50 cêntimos a um coxo, no Porto, que sabia o meu nome e de onde eu era…..falei com outro, não coxo, mas igualmente personagem, sobre Décimo Brutus, e terminei há instantes de falar com um juiz desembargador, jubilado, que num acesso de loucura puxou da pistola e matou o seu estimado cão….o mesmo, que há uns anos partiu, contra uma parede, um Barca Velha, de 700€…estava azedo, disse-me, na altura (e eu a pensar nos veredictos, nas vitimas, de um tipo deste calibre) ….e noutro dia, já mais distante, lembro-me de ter entrado na casa de umas fulanas que sobre a cama tinham uma colecção de preservativos e variados adornos sadomaso….e lembro-me agora do Sr. Simão que desejava levar-me, durante 6 meses, para a Guatemala porque queria-me tornar judeu….confessei-lhe a minha admiração pelo povo judeu e foi o que bastou…necessito de realidade, já me basta de tanta ficção.

    1. Parafraseando Conrad, a realidade como sempre, suplanta a ficção.
      Esta sua realidade de tão surreal é assombrosa e muito excepcional.

      “E eu não vivo no mundo da ficção. Este é o mundo real, cheio de abismos, de contradições e anticlimax.” H Murakami

      1. Lembro- me de outro, que matou a mulher ( não foi provado) e esbanjou a fortuna como uma prostituta, que o deixou sem um tostão. Acabou numa cadeira de rodas albergado num barracão, com uns drogados.

        Lembro-me de outro dia, em que fiquei a saber que o senhor x, octogenário, se mandou para um poço, tendo deixado uma carta onde culpava o filho, que faliu especulando em bolsa….

        De outro, em que a povo, de uma aldeia beirã , matou um tipo que tinha assaltado uma capela. Fizeram um buraco e um pacto de silêncio. De outro, homem, e não exactamente do dia, que tendo ficado impotente por causa da quimioterapia, perdeu também a mulher para um engenheiro de uma mina d’ouro….prometeu riquezas deste e doutro mundo….

        Decerto todos já viram muitas estórias, mas esquecem-se de lhes prestar atenção devida. Ao contrário de mim, estou sempre a coca de uma boa história. ( a vida, um palco, como dizia o inglês….)

        Já desliguei a tv….sempre o mesmo aborrrecimento. Vou passear o cão…desculpem erros e omissões

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