Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)


Maria Dulce Fernandes,
Sangue oculto

 

sangue_sns.jpg

 

Diz-se que o sangue fala mais alto.

O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.

Diz-se que tudo é uma questão de sangue.

O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.

Diz-se que o sangue lava a honra.

Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida… E afinal o que é a honra? Não pode ser uma fénix, porque se esfumou e não renasceu das cinzas.

Diz-se que sonhar com sangue é desgosto

Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.

Diz-se “Sangue do meu sangue”

Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.

 

É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.

 

Há quem tenha sangue azul; o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.

Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  

Não faz mal, fica meu e só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair

9 comentários em “Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)”

  1. O meu sangue também é porreirito, mais um pouco e talvez consiga aquele tom Ferrari. O vermelho Ferrari é o meu ideal de sangue. Tenho pesquisado as revistas científicas e ainda ninguém criou um RAL sanguíneo ajustado ao meu critério.
    Resignado tentei, sem sucesso, o verde ninja da Kawasaki. Chateia-me que numa época em que tanto se fala de quotas e raças o sangue seja da mesma cor para todos. Sempre fui um apologista da diversidade.

    Mudando de assunto:
    Também cresci a ouvir que as mulheres são todas iguais. Estranhava este cliché; num misto de frustração e investigação dediquei-me minuciosamente a este estudo, para chegar a uma conclusão que as mulheres são igualmente diferentes e diferentemente iguais.
    Esta minha pesquisa ainda não foi publicada nos livros científicos, pois a investigação continuou.

    Com o advento da nova evangelização alegrei-me e pensei que a nova mulher, a feminista, estivesse aí para contrariar todas as teses. Mantive o olho no microscópio, para ver se encontrava algum gene que determinasse esta nova característica. Népia, nada, niente.
    Virei-me para as neurociências no sentido de encontrar algum mecanismo neurotransmissor que justificasse a ocorrência, e o resultado: népia, nada, niente.
    Voltei-me para a antropologia, e o resultado foi o mesmo.

    Meti-me na política e descobri tudo: elas, as feministas, querem ser como o pai; e eles, os feministas, querem ser como a mãe, apesar de se identificarem com o “objecto” oposto ao seu desejo. Portanto, já estava tudo estudado: complexo de electra e complexo de édipo em curso.

    Em conclusão, por muito que se queira ser diferente, há coisas que só (o)correm pelo mesmo sangue. Mas o espírito é mais forte. Basta tentar.

    1. Tenho todo o respeito pelas feministas que desbravaram misoginias e intransigências e granjearam um lugar ao sol para os indivíduos do sexo feminino, de acordo com as suas capacidades de inclusão social.
      Ao contrário do sangue, o sexo feminino não tem cor nem determina inteligência ou aptidão.
      Os complexos de édipo e electra são desculpas para mascarar frustrações e inseguranças; muitas vezes até psicopatologias a necessitar de urgente intervenção especializada.
      Não consigo reconhecer a condição feminina como atributo sine qua non seja para o que for. Muitas vezes nem para procriar, por falta de empatia.
      Tudo isto aplica-se igualmente ao sexo masculino, que por um banbúrrio conseguiu desaparelhar as primitivas sociedades martriarcais, excelentemente fundamentadas.
      Quanto à cor do sangue, Vento, seguramente que existe uma App que faz isso. Não desista de procurar. Se encontrar diga, que altero o meu para azul, que acredito seja a sua cor original.

      1. Mas esse primeiro parágrafo contradiz o que refere no parágrafo 5, e que eu já aqui tinha referido, no DO. Portanto o feminismo não tem que ver com misoginia, mas com feminismo, isto é, o mesmo que misógino mas ao contrário. Portugal viveu sob o domínio e direcção matriarcal, mas os tipos pensavam que mandavam. Estava tudo bem equilibrado até ao advento do feminismo.

        Também há psicopatologias pelo meio, mas isso é matéria clínica e não feminista.
        Prometo, Dulce, que vou dedicar-me com empenho para arranjar um sanguito azuli para si. Será que com os componentes do lápis-lazúli diluídos na hemoglobina conseguirei alcançar a proeza? A investigação cogita todas as vias.

        😉

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *