A Luada

Sou de luas. Desde tenra idade que o Homem na Lua me mirava com olhar reprovador sempre que fazia alguma traquinice, dizia a minha avó. De dia não havia lua, por isso podia fazer todas as maldades que ninguém via, mas a avó dizia que sim, que havia lua, que ela estava lá sempre, só que se escondia para me testar.
Sou de luas. Sempre me guiou no escuro da noite, quando os candeeiros eram esparsos e os néons só nos filmes.
Sou de luas. Quando a luz reflectida no mar guiava os barquinhos até à praia onde se puxava a rede e o peixe cintilava sob o luar como irrequietos pedaços de prata.
Sou de luas. Certinhas, contadas ao dia, acompanharam cada nascimento, cada brotar de vida que dei de mim.
Sou de luas. Como me instruiu a Bisavó Júlia, que aprendera com a sua bisavó, o que a ela lhe ensinaram os que foram, ofereci os meus rebentos à bênção da lua entoando os dizeres pagãos cuja origem se perdeu na noite dos tempos:
“Oh Lua, oh luar,
Aqui tens a minha menina,
Ajuda-me a criar.
Eu sou a mãe, tu és a ama,
Dá-lhe tu o colo,
Que eu lhe dou a mama.”
Sou de luas. Sei que me agita, que me altera, que me alvoroça. Comparsa de perenes noites insones, é a ela que conto os meus segredos, aqueles que nem eu própria conheço, que são reclusos da minha aresta lunar, aquela que nunca limei, a mais selvagem, mais agreste, mais bravia.
Sou de luas. Tenho por ela o mesmo fascínio que encantou escritores e poetas, embalou doces paixões, belas e horrendas metamorfoses, e viu o homem crescer do nada e tornar-se humano à luz da Lua.

Para apreciar o que reluz há que saber ver sem luz.
Há cerca de 42 anos que tenho horários de morcego, Pedro. O escuro não mete medo, é apenas falta de luz temporária.