Instantes em sépia com capa de muitas cores (17 )


Maria Dulce Fernandes,

Anatomia de Gray

 

Woman-looking-at-mirror-representing-Dorian-Gray-s

 

Depois de mais uma noite com o jetlag resultante da falta de repouso a reaparecer assim do nada, como um post-it do subconsciente a relembrar que as intermitências do descanso e do cansaço andam de mãos dadas e são inseparáveis univitelinas, saltei do calor que já sentia quente demais para a amenidade do tapete afegão, provavelmente contrafeito em Taiwan e vendido aos incautos com um preço promocional fantástico, um autêntico negócio da China, como acreditei na altura.

 

Bem empantufada, dou de caras comigo a olhar para mim, com uma expressão de desdém trocista como que a chamar-me a atenção para a minha própria figura de matrona de cabelo grisalho desgrenhado, encafuada num robe polar, por cima de um pijama polar , pálpebras inchadas e boca seca,  numa  ruidosa tentativa de fazer entrar algum ar pelas fossas nasais intumescidas com a proverbial sinusite … um figuraço.

 

 Confuso, o meu Dorian Gray olha-me do alto, fabuloso nos seus 18 anos de mulher esbelta de grandes olhos castanhos e farta cabeleira escura . Deve sofrer horrores todos os dias, sem conseguir perceber qual o passe de mágica ou o bruxedo que resultou naquela deformidade, sentindo que lhe trocaram as voltas, pois pemanece imutável na memória.

 

Acode-me a lembrança das vaporosas camisas de noite em cetim negro, delgadas como um traço fino num retrato a carvão.

Sorrio para mim, com aquele sorriso conformado de quem sabe que não pode alterar uma escultura que o tempo vem cinzelando devagar. Tentar mudar-lhe a forma, seria descaracterizá-la por completo e não representaria a mim própria nem a ninguém. O escultor de fim de ciclo  tem até o trabalho facilitado na representação do meio-esférico tubérculo que presentemente me retrata.

 

Se eu pudesse escolher ser alguém diferente, tenho a forte convicção que escolheria ser eu própria, com o meu mais de meio século nas ancas, com todas as partidas que a força da gravidade me pregou, com os mesmos olhos castanhos que não perderam o brilho e falam com quem os souber entender e com todo o saber que de tanto não é nada na realidade, mas que me faz sentir feliz de o saber comigo.

0 comentários em “Instantes em sépia com capa de muitas cores (17 )”

  1. Muito bom post, Maria Dulce, muito corajoso, mesmo descontando o exagero do traço grosso com que o espelho adora devolver a nossa primeira imagem matinal (falamos de mulheres, não sei quanto aos restantes géneros).
    Porém, acredito que, guardar a jovém (e magra) mulher que existe em nós, pode ser tão importante para o físico (imagem) como é facto assente que guardar a criança que também nos habita é importante para o psíquico (alma, comportamento) … Enquanto preservarmos essas duas, tudo na boa!
    Obrigada, gosto de a ler.

  2. Que bom saber que a Maria Dulce não é a Lily Caneças
    Já gostava de si e da sua escrita… e agora ainda gosto mais.
    Sinto-me mais próxima de si, if you know what I mean
    ⚘
    Maria

          1. Especialmente se alguém nos cantar esta:

            “And then she asks me
            Do I look all right?
            And I say yes, you look
            wonderful tonight”

            ou esta:

            ‘You are so beautiful
            to me
            Can’t you see
            You’re everything
            I hoped for… “

            Me engana, que eu gosto, né?

            Dia feliz, Maria Dulce!

            ⚘
            Maria

  3. Bom dia, Maria Dulce.
    As etapas da vida.
    É algo que todos partilhamos por mais diferentes que as nossas vidas sejam.

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