Injúria póstuma a Graça Moura


Pedro Correia,

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 Foto Nuno Ferreira Santos / Público

 

Mais do que uma desconsideração intelectual, constitui uma injúria que um organismo público como a Imprensa Nacional Casa da Moeda utilize o nome de Vasco Graça Moura para atribuir um  prémio literário destinado a distinguir uma obra forçosamente escrita em acordês.

 

O grande poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor já cá não está para zurzir os responsáveis daquela instituição com a verve que todos lhe conhecíamos e a paixão que sempre colocou nesta batalha de ideias. Mas até por isso é dever de todos os seus amigos e admiradores insurgirem-se contra o abuso que constitui a associação de Graça Moura a um prémio que exige a utilização das normas ortográficas que ele sempre combateu.

Não há outra leitura possível do artigo 10.º do regulamento do concurso, escrito na ortografia que o autor de Naufrágio de Sepúlveda abominava: “O autor premiado aceita que a INCM execute uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorreções [sic] ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo adotadas [sic] para a publicação do Prémio INCM/Vasco Graça Moura.”

Como alertou Octávio dos Santos, num artigo no Público que chamou pela primeira vez a atenção para o caso, a administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, por ele contactada, confirmou por correio electrónico: “O texto vencedor será publicado de acordo com a ortografia do Acordo Ortográfico de 1990.”

De resto, a tocante preocupação da INCM pelas “incorreções” [sic] devia começar pela própria redacção deste regulamento: onde se lê “usa” em vez de “sua” no artigo 9.º, n.º1 (curioso lapso, daqueles que em linguagem freudiana costumam merecer o rótulo de acto falhado).

 

Além do inaceitável paternalismo que revela, só lhe faltando vir acompanhado da antiga “menina dos cinco olhos”, o artigo 10.º impõe carácter obrigatório à escrita acordística, fazendo tábua rasa dos mais elementares princípios de liberdade intelectual.

Como Octávio dos Santos justamente questionou: “Será possível que na INCM não exista quem conheça e tenha lido o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos nacional, que também reflecte e replica legislação e jurisprudência internacionais, e que dá inequivocamente a todos os artistas a prerrogativa de utilizarem e de verem respeitada a linguagem que eles quiserem?” 

Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Teixeira de Pascoaes, entre outros escritores que foram firmes adversários da reforma ortográfica de 1911, ficariam liminarmente excluídos deste concurso se por acaso cá estivessem e quisessem concorrer.

0 comentários em “Injúria póstuma a Graça Moura”

  1. Caro Pedro:
    «Todo o mundo é composto de mudança», disse outro grande poeta, o maior.
    Portanto, a liberdade de criação também incorpora a mudança, desta vez ao sabor de gente sem escrúpulos e sem coluna vertebral.

  2. Essa gentalha escarra sonoramente na campa de Vasco Graça Moura. A única atitude decente seria a imediata retirada de todas as obras, escritas em português ou acordês, por decisão dos seus autores.

    Mas não faltará quem faça o frete.

    Vergonha de ser português. Eis, agora, o que sinto.

    Costa

    Ps.: pensemos, pensemos muito, antes de condescender com blogues, “sites”, livros, jornais, o que seja, por submissão, inércia, indiferença ou convicção escritos nessa mistela tóxica.

  3. Ler no blogue; O ALMADRAQUE FOFINHO:

    2016 O ANO DA MORTE DO ABORTO ORTOGRÁFICO (TAMBÉM CHAMADO ACORDO ORTOGRÁFICO)

    Confirma-se assim, mais uma vez, que a mediocridade é epidémica e que só pode ser combatida elevando o nível cultural dos cidadãos.

  4. Seria de facto curioso o INCM, que é uma editora pertencente ao Estado, violar a própria lei do Estado editando livros com uma ortografia à la carte.
    Só mesmo cá em Portugal é que vigora este regime de amplas liberdades democráticas (na antiga expressão do PCP) em que as editoras se permitem editar livros com uma ortografia diferente da oficial. Em qualquer país civilizado e sério da Europa Central, isto seria proibido.

    1. Mandariam os elementares princípios éticos que um organismo, fosse qual fosse, se abstivesse de usar o nome de uma personalidade já falecida para difundir uma causa oposta àquela que essa personalidade sempre defendeu em vida.
      Lamentavelmente, a INCM fez tábua rasa dessa ética. Que não é pública, nem é privada: está acima e para além desses considerandos. Substantiva, sem necessitar de adjectivos.
      Alternativas para designar o prémio nunca faltariam. Prémio Malaca Casteleiro, por exemplo.

    2. Qual lei, Lavoura? Faça o favor de me indicar que lei ou decreto-lei (os únicos diplomas que no ordenamemto jurídico português o poderiam fazer) impõe a ortografia conforme o AO90.

      Aguardo sua resposta.

      Costa

      1. Faça o favor de me indicar que lei ou decreto-lei impõe a ortografia conforme o AO90.

        Não há lei nenhuma nem precisa de haver. Conforme Vital Moreira já repetidas vezes explicou no seu blogue, os acordos internacionais aplicam-se automaticamente na ordem jurídica interna, sem necessidade de qualquer lei suplementar. Ele é jurista e eu acredito nele.

        1. Em consequência de um tratado internacional – que vigora na ordem interna quando todos os seus subscritores o tenham ratificado -, haverá que revogar a legislação nacional que com ele conflitue. Que eu saiba há duas resoluções, uma da AR outra do governo que impõem o AO90 no que caia na esfera de uma e outro. E nesse estrito âmbito aliás. Não revogam coisa alguma. Muito menos leis ou decretos-lei.

          Resoluções. Resoluções, Lavoura.

          Costa

    3. O Luís Lavoura tem todo o direito de ser um acérrimo defensor do Aborto Ortográfico.
      Mas sempre que intervém, quando se discute este assunto, foge a 7 pés de justificar as vantagens do mesmo.
      Muito menos a sua coerência, pois foi feito para uniformizar as grafias da Língua nos países lusófonos mas acabou por desuniformizá-la ainda mais.
      É como se uma pessoa comprasse uma gabardina impermeável para se proteger da chuva e, ao usá-la, ficasse ainda mais molhada, pois a dita vinha cheia de poros que absorviam a água fazendo efeito de mata-borrão.

      1. O critério que LL advoga – em todo decalcado daquele que fez o ex-PM Cavaco Silva dar instruções ao seu subsecretário de Estado da Cultura, em 1989, para adaptar tanto quanto possível a grafia portuguesa à brasileira – é o critério demográfico.
        Se fosse inglês, faria o mesmo em relação aos EUA. Pelo mesmíssimo motivo.
        Em Inglaterra, no entanto, isso não colhe. Tal como em Espanha: a Academia Espanhola não abdica da prerrogativa de definir a ortografia da língua castelhana, indiferente ao facto de Espanha ter apenas cerca de 40 milhões de habitantes – muito menos do que o México, que tem 104 milhões.

        1. Falso. Já repetidas vezes disse aqui que me estou nas tintas para a forma como os brasileiros escrevem. Eles que escrevam como pronunciam. Nós, os portugueses, devemos escrever como nós pronunciamos.

          1. Luís Lavoura:
            Os brasileiro escrevem dgia?
            Quando se referem ao dia?
            A Língua é um pouco mais complexa do que parece e não se compadece com opiniões de senso comum.

        2. em Espanha a Academia Espanhola não abdica da prerrogativa de definir a ortografia da língua castelhana

          Portanto, o Pedro aceita que em Espanha – um grande país civilizado – a ortografia da língua é fixada por uma academia de sabichões e não está ao sabor da população em geral.
          Isso deita por terra a teoria de alguns de que a ortografia deve ser livre e de que o Estado e os sabichões não têm que a fixar e de que é assim que se passa em todos os grandes países.

      2. foge a 7 pés de justificar as vantagens

        Nunca fugi. As vantagens são a simplificação da escrita e da leitura pela eliminação de letras que não se lêem e a simplificação do ensino da escrita pela eliminação de exceções à regra geral (que é a escrita ser fonética).

        1. Luís:
          Se assim fosse, porque se criaram mais de 700 novas grafias do que anteriormente?
          Que uniformização.
          Que simplificação.

        2. Luís:
          Não é por repetir até à exaustão que o AO serviu para simplificar que isso aconteceu.
          Foi precisamente o contrário.
          Meta isso de uma vez por todas na sua cabeça.
          Leia o estudo da Prof.ª Maria Regina Rocha, que inventariou as palavras que passaram a ter grafia única, que foram uniformizadas, e as que passaram a ter duas ou mais grafias diferentes, e que antes não tinham.
          O saldo ultrapassa as 700 novas diferenças que eram inexistentes.
          Não seja teimoso empedernido.
          https://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-falsa-unidade-ortografica-25921941

          1. As 700 grafias diferentes que você refere são entre a ortografia portuguesa e a brasileira.
            Tal como já disse à exaustão, eu estou-me marimbando para a forma como os brasileiros pronunciam e escrevem o português. Tanto se me dá que o grafem de forma diferente, como igual.
            O que me interessa é o português de Portugal. E esse tem uma grafia razoavelmente bem definida.
            Aliás, se há livros escritos na nova grafia, é porque ela existe! Se ela é ensinada às crianças, é porque existe!

          2. “Aliás, se há livros escritos na nova grafia, é porque ela existe! Se ela é ensinada às crianças, é porque existe!”

            Belíssimo argumento! É então de concluir que porque existe é boa e inatacável. Não me posso esquecer, da próxima vez que adoecer, de recusar tratamento: “se a doença existe, é porque existe!” – louvando-me no seu raciocínio – donde é coisa boa, a acarinhar.

            E temos agora o AO90/LL – Acordo Ortográfico de 1990, Luís Lavoura: o acordo tem por ambição confessada uniformizar a ortografia em todo o espaço lusófono, mas atenção que agora há uma variante lavourista que manda esse espaço às urtigas e diz que só lhe interessa Portugal. Mais uma variante da uniformização… (e que percurso o seu, neste assunto, Lavoura).

            Está certo.

            Costa

    4. «Em qualquer país civilizado e sério da Europa Central», mas também da Europa Ocidental e Oriental, nos EUA, nos países de língua inglesa e língua francesa em geral, até mesmo nos hispânicos, enfim, no resto do Mundo, não acontece o que acontece(u) em Portugal: literalmente meia dúzia de pessoas decidirem alterar radicalmente a ortografia de um país, com o surpreendente colaboracionismo de muitos governantes, em violação flagrante dos mais elementares princípios culturais, legais e políticos (democráticos). Exemplo (entre outros) de que aquilo que é «oficial» nem sempre é legítimo.

        1. Disparates é o que você não pára de expelir: o Alemão e o Francês não sofreram quaisquer «reformas ortográficas» – houve, sim, recomendações, sugestões de alterações, a uma escala muito menor do que em Portugal, que não eram (não são) «obrigatórias» e que foram recebidas com hostilidade, quando não com indiferença.

    5. O comentário do sôr Lavoura revela um espírito autoritário de açordo com os que engendraram o dito Açordo.
      Felizmente, ainda há neste País MUITAS pessoas, editoras e órgãos de comunicação social que rejeitam liminarmente uma aberração sem qualquer fundamento linguístico-científico.

        1. Esta do “Açordo Ortográfico” é brilhante, é caso para passar a ser a denominação oficial. Quanto ao postal: o que se narra é uma vergonha. Que a oficialíssima editora queira açordar ok, mas que retire o nome. Não há família para obstar a isto?

          1. Eu já sugeri aqui que atribuam ao tal prémio o nome do Professor Malaca Casteleiro: dificilmente haveria homenagem tão apropriada à personalidade em causa.
            Quanto aos familiares, aguardo uma reacção. Por enquanto apenas perplexo.

          2. Também podiam pôr-lhe o nome Cavaco Silva. Em “homenagem” ao primeiro-ministro que “implementou” o (des)acordo para “evitar o desaparecimento da língua portuguesa”.
            E que, no entanto, ainda hoje continua a escrever como sempre escreveu. Bem prega Frei Tomás…

    6. Em países civilizados não há ortografias oficiais nem cobardes submissos que não se envergonhem de “proibir” o que quer que seja.

    7. Acha, então, que deveria voltar a censura e o lápis azul? Iam ter muito que fazer! Há milhões de portugueses a desobedecer ao dito Acordo.Quando as leis são de lesa-pátria, o mínimo que se pede é a desobediência civil. Ainda bem que há tantos portugueses que não ficam cegos só porque lhes dizem que «está na lei». Os tempos mudaram.O país já não é de analfabetos, embora , agora, com este Acordo, queiram fazê-lo regredir para esses tempos de atraso. O que vemos escrito em textos oficiais, jornais e televisões é uma vergonha nacional. Não percebo como pode alguém com um mínimo de cultura suportar a ortografia proposta por este acordo. E fazer esta afronta a um escritor que sempre foi contra o Acordo ortográfico revela baixeza, cinismo e revanchismo contra os não-acordistas à custa de alguém que já cá não está para se defender.

      1. Teresa, como dizia o outro, much ado about nothing. Nunca ninguém foi preso ou censurado por escrever com a ortografia, sintaxe e pontuação que dá na gana. Invocar a “desobediência civil” a propósito disto, dá vontade de rir. De resto, já li maus textos na ortografia de antes do acordo e já li textos maravilhosos na ortografia do acordo. Já agora, qualquer pais, sem excepção, tem uma ortografia “oficial”, que é aquela que se aprende na escola. Um dia destes, temos manifs de miúdos a invocar e desobediência civil, a propósito dos lápis azuis dos professores 😉

        1. Artigo 42º da Constituição da República Portuguesa:

          «Liberdade de criação cultural

          1. É livre a criação intelectual, artística e científica.

          2. Esta liberdade compreende o direito à invenção, produção e divulgação da obra científica, literária ou artística, incluindo a protecção legal dos direitos de autor.»

          A INCM colide com este artigo da nossa lei fundamental.

    8. “em que as editoras se permitem editar livros com uma ortografia diferente da oficial. Em qualquer país civilizado e sério da Europa Central, isto seria proibido.”

      País Totalitário.

      Mas esta pérola é uma bela demonstração da necessidade que certas pessoas têm de proibir o que os outros escrevem e como escrevem.

      Tem de se usar virgulas no sítio certo…brilhante!
      Aí de quem escreva um poema e não respeite a rima.

      Já agora quais são esses fantásticos países?

  5. Caro Pedro Correia.
    Este caso, que soube por quem está muito atento e é meu amigo, foi uma das últimas e variadas gotas dos nossos dias que me levaram a escrever no meu blogue umas breves palavras acerca da questão – falta de vergonha na cara- Cumprimentos.
    António Cabral

    1. Viva, António. Este caso é uma vergonha. Com os dados que foram tornados públicos, não consigo qualificá-lo de outra forma.
      Se quiser deixe aqui a hiperligação para o texto do seu blogue. Julgo que os leitores do DELITO apreciarão.

  6. Aproveito para dizer uma vez mais que o AO não justifica, de maneira nenhuma, tanta polémica, porque não tem nenhuma importância linguística.
    Mas impor o AO em algo atribuível a Graça Moura, isso sim, tem muita importância, porque configura uma abjeta profanação da sua memória.
    Subscrevo, portanto, o post.
    João de Brito

    1. “Uma abjecta profanação da sua memória”: eis o nó do problema, no caso concreto que aqui trago.
      E nisto julgo que quase todos estaremos de acordo, João de Brito.

    2. Portanto reduzir ao mesmo “ótico” e “óptico” (dispense-me do “pára” e “para” e tudo o resto; desde logo e antes de tudo a abjecta submissão de tudo isso), não tem qualquer importância.

      Agradeço-lhe a revelação. Não a posso, todavia, subscrever.

      Costa

        1. Mas não tem para o preclaro Lavoura, como se pode ler acima e já sabíamos.

          O Lavoura não para para pensar, será? E depois dá nisto… Mas não é que se pronuncia “pára”, Lavoura? Não é, para si, o critério fonético o que deve imperar? Então porque se pretende – e você acha muito bem – deixar de escrever assim?

          Curvemo-nos perante a coerência e os ensinamentos preciosos do Lavoura.

          Costa

    1. Agradeço as palavras que aqui exprime e aproveito para felicitar o vosso grupo, meu caro Professor Ivo Barroso. Apesar de não ter conta no FB, mão amiga fez-me chegar entretanto cópia de alguns dos vossos indignados protestos, mais do que justificados.
      Protestos aos quais me associo com idêntica indignação.
      Como se costuma dizer em tantos sectores no nosso País, da política ao futebol, não pode valer tudo.
      Reitero-lhe a minha admiração, que já vem de longe, pela sua determinação neste justo combate. Que era também, como sabemos, um combate do saudoso Vasco Graça Moura.

    1. Efectivamente, o ao90 é a imposição e oficialização do erro, desde logo pelos nulos fundamentos científicos do dito, e ainda pelas facultatividades (isto sim, à la carte) e pelos nefastos efeitos secundários que está a provocar desde há cinco anos, que só não vê quem não quer.

      1. É bem verdade. O caos ortográfico – como se norma e erro se confundissem a todo o momento – instalou-se há cinco anos e não vislumbramos o menor indício de que possa desaparecer. Muito pelo contrário.

    1. Não tenho a menor dúvida quanto à reacção que Vasco Graça Moura exprimiria face a esta inaceitável apropriação do seu nome, Helena. Mais: ninguém se atreveria a dar um passo destes com ele vivo. É caso para perguntar, portanto, porque se atreverão a dá-lo depois de ele nos ter deixado.
      Obrigado pela tua atenção. E pelas tuas palavras.

  7. Uma pergunta de uma pessoa que não percebe nada do assunto: Vasco Graça Moura não tem herdeiros? Ou a INCM tem direitos autorais sobre o escritor? A sério não percebo mesmo. Se o senhor fosse meu familiar, eu não autorizava a utilização do seu nome.

    1. Eu digo mais: excelente pergunta. Como se sabe, o Fernando Pessoa era contra a bárbara reforma ortográfica de 1911, que, entre outras coisas, nos suprimiu o saudoso ípsilon, sem o qual, a partir daí, nada mais se escreveu de jeito em Portugal. Ora, os seus herdeiros (se algum resta) podiam ganhar uma pipa de massa em acções contra o Estado e as editoras que lhe publicam e ensinam as obras há uma data de anos.

        1. Eu estou a falar do princípio da coisa. Pois não é um torpe e abjecto atentado à memória do Pessoa a revisão da sua ortografia? Não merece tal afronta um desagravo à altura?

          1. Será sem dúvida, no puro plano dos princípios. Sucede que entre esse plano e o da vida há por vezes largas diferenças. De exequibilidade, por exemplo. Pelo simples passar do tempo – um século – será admito muito difícil anular os efeitos de 1911. O que não impede que se lhe aponte a crítica certeira.

            O que pretende a sua pouco conseguida ironia, Pedro (Pedro, apenas)? Meter a ridículo os outros, sustentar que como não se age quanto a Pessoa e à reforma de 1911, se perde a autoridade moral para agir quanto a Graça Moura e ao AO9O? Que o erro passado legitima o erro presente, purifica-o, sana-lhe o vício de génese?

            Na verdade se quanto ao primeiro caso será demasiado tarde, isso serve sim para demonstrar a urgência de agir quanto ao segundo: para evitar que a estupidez vença pelo cansaço, o desgaste, o progressivo alheamento, o facto consumado, a sedimentação do erro, tornado norma na mente e hábitos de tantos. Estratégia, aliás, que decerto estará na mente dos açorditas.

            Costa

          2. Ah, o Costa já tinha de facto pensado que editar a poesia e textos do Pessoa de uma forma que ele não defendia, seria de facto uma coisa execrável, mas que, no entanto, já não havia nada a fazer, não é assim? A sério?

            Isto tudo, estas indignações farfalhudas, estes arroubos, fazem-me lembrar o grande e saudoso Calisto Elói, sei lá eu porquê…

          3. Registo a sua erudição literária (você lá saberá porque sentiu esse irreprimível desejo de a manifestar) e o insulto a que lhe não darei o gosto de responder.

            Costa

  8. Sobre este assunto permita-me, caro Pedro, que refira três breves pontos:
    1 – A minha profunda homenagem ao homem de letras que foi a pessoa que refere, com a qual politicamente não me identificava.
    2 – Acho que, à semelhança do que o Pedro diz, é de grande mau-gosto no Prémio, merecido, que tem o seu nome as condições de candidatura serem as que refere, quando foi pública a posição contrária do homenageado. Porém, à semelhança do que aqui já foi dito, será um caso para os seus herdeiros se pronunciarem.
    3 – Confesso que não não tenho uma posição definida sobre o Acordo Ortográfico. Se por um lado me custa mudar a grafia que aprendi a escrever (para mim um egípcio será sempre um habitante do Egipto), entendo que Portugal não deve ter sobre a língua uma posição neo-colonial. A afirmação internacional da língua portuguesa, nomeadamente como língua de trabalho das Nações Unidas, far-se-á seguindo o modelo europeu ou brasileiro?
    Trabalho numa instituição que tem a primeira edição do Dícionário da Academia das Ciências de Lisboa, do qual como sabe só foi publicada a letra A. Ao contrário do inglês, por via, entre outras razões, da tradução da Bíblia para esta língua e a sua permanente leitura, obrigou que esta língua, independentemente dos diversos regionalismos mantivesse uma ancora, uma matriz. A língua portuguesa não, nunca teve essa ancora, e desde muito cedo, como diz, presumo, o Pe. António Vieira houve do outro lado do Atlântico um modo brasílico de falar. O dilema está numa de duas coisas a qual acho que seja a razão deste Acordo: deixar esse «brasilico» evoluir para uma língua autónoma língua portuguesa europeia e africana, ou uniformizar essa língua?
    Confesso que não lhe sei responder, caro Pedro

    1. Meu caro: não faz qualquer sentido mencionar termos como “neocolonial” no que se refere à língua.
      Se fizesse, países como Angola e Moçambique não estariam hoje na primeira linha da defesa da norma ortográfica do português europeu, recusando a norma brasileira.
      Essa questão, de resto, não se põe noutras línguas europeias faladas em diversos países e continentes, como o espanhol/castelhano, o inglês ou o francês.
      Jamais imaginaríamos os EUA a imporem a sua norma ortográfica aos ingleses, por exemplo, em nome do combate ao “neocolonialismo”.

      A questão ortográfica português/brasileiro nos documentos é uma falsa questão – daquelas que volta e meia são suscitadas por cá sem qualquer fundamento.
      As maiores diferenças entre a língua portuguesa falada e/ou escrita em Portugal (e PALOP) e no Brasil são de vocabulário, de pronúncia, de sintaxe. Veja o futebol: cá (e em África) é canto, no Brasil é escanteio; cá é guarda-redes, lá é goleiro, cá é equipa, lá é time.

      Não há nem haverá uniformidade. Mas isso não é problema: é uma vantagem. Qualquer língua só se valoriza e qualifica com a diferença.

      1. E não é só isso, Pedro. Nesta problemática do AO90 há de facto quem tenha uma atitude (neo)colonial (e até fascista): os próprios «acordistas», que querem impor o dito cujo aos países africanos de língua oficial portuguesa por receio que estes adopt(ass)em as suas próprias ortografias, como admitiu, há alguns anos, Fernando Cristóvão.

        E deve-se sempre salientar como é, mais do que ridículo, falso o problema da «afirmação internacional da língua portuguesa, nomeadamente como língua de trabalho das Nações Unidas, (ser feita) seguindo o modelo europeu ou brasileiro». Reino Unido e EUA são ambos membros do Conselho de Segurança, e não consta que um tenha abdicado da sua ortografia a favor da do outro.

        1. De acordo, Octávio. Esse foi um falso pretexto invocado pelo então PM Cavaco Silva para dar o pontapé de saída neste processo que o devia envergonhar a vários títulos. Sobretudo ao acentuar que essa seria uma condição de sobrevivência da língua portuguesa, sem a qual “daqui a cem anos deixaria de existir”, conforme revelou recentemente Santana Lopes.

  9. O denominado AO é uma aberração que serviu interesses nada transparentes! Foi feito à pressa, por meia dúzia de intelectuais que pretenderam apoderar-se daquilo que não lhes pertence – a Língua Portuguesa.
    Se há coisa que pertence a um Povo, é a sua língua! Porque não se fez um Referendo sobre uma matéria que é da essência ?
    A utilização vergonhosa de Vasco Graça Moura da forma que foi feita, é inqualificável, e de uma baixeza total! É um acto de cobardia fazer uso de alguém! Muito mais quando, infelizmente, já não está entre nós para se defender!
    Firmino Fonseca.

  10. Indecoroso , abominável ….
    Acto vil e covarde porque o escritor infelizmente já não se pode defender porque não está entre nós ….
    Como seu leitor e admirador, repudio vivamente tamanha trapaça …

      1. Um acto bem ao estilo dos socialistas — costumam degladiar-se entre si para ter maneira de fazer estas golpadas e estas velhacarias.

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