Indignidades


Sérgio de Almeida Correia,

A riqueza nunca me afligiu. Sempre convivi bem com ela mesmo quando tinha muito pouco. Porém, não deixo de pensar sobre o sentido que terá a elaboração dos rankings dos mais ricos, dos mais opulentos, dos mais ostensivos na exibição. O voyeurismo é um passatempo de todos os tempos a que sempre se dedicaram alguns pobres de espírito. Mas num momento como este, que Portugal e uma boa parte do mundo cruzam, em que a pobreza cresce a olhos vistos, em que a imprensa relata casos de crianças que chegam à escola sem pequeno-almoço, e outras ainda nem sequer adolescentes que se limitam a ter uma exígua refeição diária, faz algum sentido anunciar aos quatro ventos, como ainda há dias se dizia na rádio, que a fortuna de 870 milionários portugueses cresceu 715 mil milhões de euros, apesar da crise económica?

Saber, segundo revelava um relatório da UBS, que há mais 85 milionários no meu país devia ser motivo de satisfação. Lamento que não seja esse o caso. As novas teorias da relativização da pobreza substituíram a velha teoria da relatividade. Não sei se alguém saberá hoje qual o quadrado da distância que separará aqueles novos milionários dos novos pobres, nem se existe alguma relação proporcional entre ambas. São equações que me ultrapassam. Saber que os ricos estão mais ricos ou que aumentou o número de milionários só pode ser motivo de satisfação numa sociedade civilizada quando esse crescimento corresponde a um enriquecimento global, a uma diminuição do número de miseráveis, de sem-abrigo e de pobres em geral. Uma sociedade que se compraz a atribuir prémios de mérito a ricos que enriquecem num ambiente de miséria, desconstrução social e desestruturação dos laços de solidariedade em que assenta uma comunidade, é uma sociedade em estado terminal. E não é preciso um tipo chamar-se Mário ou Francisco para percebê-lo. Basta abrir os olhos. A pobreza e a forma como ela cresce em Portugal, perante a indiferença de uma casta de serventuários do poder, é que me aflige e nos torna a todos ainda mais indignos do chão que pisamos.

A Exame e outras revistas e jornais de negócios e de economia deviam dedicar-se à elaboração de rankings dos mais pobres. Deviam dá-los a conhecer, dar-lhes as capas das melhores revistas, o melhor papel, os melhores fotógrafos, o melhor espaço na comunicação social. Essa gente merece. A luta que diariamente travam pela sobrevivência vale mais do que o conforto de qualquer gabinete. E podia ser que dessa forma aparecessem uns quantos “Amorins” para os irem tirando da pobreza.

Uma sociedade que se alheia da pobreza que medra no seu meio está condenada a desaparecer. E temo que o que se siga não seja melhor, porque o problema não se resolve com bancos alimentares. As pessoas ainda sentem. Felizmente.

20 comentários em “Indignidades”

    1. Nuno,

      Isso depende da forma como as coisas se façam. Melhor do que ninguém, os bons jornalistas sabem-no bem.

  1. Não gosto muito do recurso a citações, mas não resisto:

    “E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

    Almeida Garret

  2. claro que faz sentido, Sérgio.

    quanto mais não seja, para que não existam dúvidas de que há sempre alguém a lucrar (e de maneira) com a crise e com o aumento da pobreza.

    não estamos todos a ficar “pobrezinhos” com a crise, como nos querem fazer crer os governantes.

  3. Caro Sérgio,
    este é dos melhores textos que li sobre o assunto. Parabéns.

    Sobre as equações, a gravidade antiga foi substituída pela relatividade moderna, e apresentam-na num ícone com a língua de fora. Qualquer referencial passou a valer, para se perder um referencial absoluto. Aparece como distorção decretada por inquisidores modernaços, que aprenderam como queimar a informação e não os livros.
    Autorizam a conservação da matéria e energia, mas não explicam para onde vai a informação que se perde no último sopro que aqui damos.
    Essa informação não se perde nos fornos incineradores, sobe para outras contas, onde já não há física, mas onde não se perde a matemática, nem a lógica.
    Cumprimentos.

  4. Sérgio, eles não ficam mais ricos APESAR da crise.
    Ficam mais ricos POR CAUSA da crise.

    Acha que as reduções de salários, de indemnizações de despedimento, flexibilização das leis laborais, reduções de IRC, isenções de IMI para os fundos imobiliários, PPP’s, privatizações de monopólios naturais são benéficos para quem?

    Já o disse e reafirmo: Este governo tem uma agenda extremista de condenação à miséria da generalidade da população em nome da salvação da elite.

    E depois ainda se admiram dos sinais de violência…

  5. Concordo em absoluto com o texto.

    Contudo:

    Parece-me que não cabe às revistas e jornais que refere, a exposição publicada da miséria. Não é esse o seu objecto editorial. Cabe sim aos jornais diários e às televisões.

  6. Absolutamente de acordo, Sérgio. Publicar esta lista só serve para acirrar ainda mais os ânimos, além de que me parece uma afronta a quem passa dificuldades. Num país próspero, em que pelo menos as necessidades básicas da maioria estivessem garantidas, não me faria nenhuma confusão a publicação de listas de milionários. É um passatempo para voyeuristas, como dizes. Mas no estado em que estamos, para quê??

  7. Belíssimo post.
    Penso que se podem fazer trabalhos (jornalísticos) sérios e com bastante interesse, sem molestar ninguém, abordando todo o tipo de carências por que estão a passar muitas famílias portuguesas. Há crianças a sofrer o inimaginável. O bom jornalismo que se chegue à frente.

  8. Dou-lhe os parabéns pelo belíssimo texto que escreveu. Sinto uma mágoa enorme, por ver que a rua é o lar daqueles que nada têm. Essa mágoa, magoa a sensibilidade de qualquer um que olha o outro, como um ser igual a si mesmo. Dói saber que a fome alastra, os despejos são a ordem do dia e a caridade começa a falhar porque também esses que a praticavam já pouco têm. Sim, esses super ricos, são incapazes de praticar a caridade e se o fazem todos vão saber que a fizeram. Repare-se: o continente ” Belmiro de Azevedo” colabora com o banco alimentar, mas sempre a lucrar porque nem aí, é capaz de arcar com o iva. Afinal colabora em quê? Em deixar que estejam ali? Que grande benemérito!….Olhamos estes senhores que enriquecem à custa daqueles que empobrecem e que mostram não ter um pingo de sensibilidade, pelos que nada têm. São donos de corações de pedra, corações duros como o ferro, corações frios como o gelo, corações ausentes a quem a pobreza nada diz e onde o pobre nunca tem entrada. Concordo plenamente que é chegada a hora de essas revistas e jornais fotografarem a miséria humana e mostrarem ao mundo o que se vive neste país de ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez pobres, onde o ordenado mínimo é 485€ e que um professor ganha menos que o ordenado mínimo na Irlanda.

  9. “Nevoeiro”

    Que tipo de sociedade
    Temos nós em Portugal
    Por cotas é especialidade
    E roubá-la não faz mal

    Está na massa do sangue
    Deste povo bem latino
    Por isso que não se zangue
    Ao não passar de pequenino

    De pequenino e mesquinho
    Nos objectivos grandiosos
    Que estão todos no passado

    Nevoeiro faz o povo ceguinho
    Por actos e feitos valorosos
    Viva D.Sebastião regressado.

  10. Todos os textos que defendem a igualdade de resultados são um hino ao tribalismo e em favor da opressão aos diferentes.

    É ainda significativo que o autor queira que um Amorim “ajude”, e não que os pobres sejam capazes.
    Parece que a Escola Única chamada em newspeak estalinista de Escola Publica não resolve as dores dos Soci@listas…

    PS: os índices dos mais ricos são feitos com base na valorização do seu património e só foram possíveis com base nas medidas de especulação financeira e distorção da economia feitas pelo FED, BCE que provocaram brutal inflação nas bolsas com pouca relação com o estado da economia.

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