Já vos deve ter acontecido também. A falta de tempo, conjugada com outros assuntos que vão surgindo a requerer uma palavra urgente e necessária, acaba por nos fazer passar à margem de temas que gostaríamos de comentar – com espanto, lamento ou indignação. Ando há semanas para falar aqui de três temas. Que são estes:
Indignação. Achei inqualificável que o PSD/Madeira tenha rompido o consenso parlamentar, demonstrando que nem a morte põe fim aos gestos do mais rasteiro sectarismo. Refiro-me ao voto de pesar pela morte do eurodeputado Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, na Assembleia Regional madeirense, em que uns deputados que se dizem sociais-democratas se abstiveram ou saíram da sala. Simplesmente vergonhoso.
Espanto. Emídio Rangel foi condenado a 300 dias de multa, a uma taxa diária de 20 euros (o que atinge o valor de seis mil euros), e a 50 mil euros por danos não patrimoniais à Associação Sindical dos Juízes Portugueses e ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Por ter dito algo que é do conhecimento comum: as informações de processos em segredo de justiça são transmitidas por fontes judiciais aos jornalistas. (António Barreto fora muito mais contundente, em Fevereiro de 2010, numa entrevista ao Expresso: “Há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça.”) Uma vez mais, nos tribunais de primeira instância, faz-se tábua rasa da liberdade de expressão, direito garantido e protegido pela Constituição, optando-se pela primazia ao direito ao bom nome. Mas o mais escandaloso é o montante da indemnização, ao que suponho inédita e totalmente desproporcionada. Tenho a certeza de que tribunais superiores, em sede de recurso, alterarão este veredicto. E em última instância, se for necessário, o tribunal das comunidades fará prevalecer o exacto sentido das proporções. Como, infelizmente, tem sucedido várias vezes em processos deste género. Com humilhantes condenações ao Estado português.
Lamento. Costumo dizer que aprendemos mais com quem nos critica do que com quem nos elogia. Uma das vozes mais críticas – mas também mais respeitáveis – na imprensa portuguesa é, há muitos anos, a do João Paulo Guerra. Muitas vezes discordei do que escrevia na sua ‘Coluna Vertebral’ do Diário Económico mas habituei-me a respeitar a sua acutilância sempre elegante e a sua mordacidade que nunca resvalava para o cinismo e menos ainda para o insulto. Escrevi em tempos, e reitero, que o considero um dos três melhores cronistas da imprensa portuguesa. Lamento muito que a sua coluna tenha terminado. Espero lê-lo um dia destes num outro jornal qualquer.

Carissimo,
Mais do mesmo, infelizmente.
Forte abraço,
“Mais do mesmo” é a expressão certa. Um abraço, meu caro.
Concordo com tudo, menos com o “espanto”. É evidente que Rangel seria condenado, dado que ofendeu a corporação dos juízes. Quando o juiz julga em causa própria, só se pode esperar – como aconteceu com a recentíssima decisão do Tribunal Constitucional – que saia merda. Portanto, não há nada que espantar. Quem diz mal dos juízes, é naturalmente condenado por atentado ao bom nome dos ditos.
O montante das indemnizações é de tal maneira elevado que deve ter começado por espantar muitos juízes, tenho a certeza disso.
É tudo uma questão de estratégia (”http://economico.sapo.pt/noticias/estrategia_92826.html”)
«Resta saber se a descoberta ainda virá a tempo da época da liberdade de expressão e de imprensa», escreveu o JPG nessa crónica. As forças extremistas, antidemocráticas, galgam terreno um pouco por toda a Europa (as excepções servem só para confirmar a regra). O que há poucos anos nos pareceria um cenário de ficção pode deixar de o ser a curto prazo.
Indignação.
Partilharia da indignação, se não se tratasse dos gangsters da Madeira. Com aquela gente, nada disto surpreende. Pelo contrário, surpreender-me-ia sinceramente que, perante aquele voto de pesar, tivessem procedido de forma civilizada. Ainda por cima, tratando-se do Miguel Portas, que, independentemente das opções políticas de cada um, sempre demonstrou ser uma pessoa séria e educada. Uma grande perda para o País, sem a menor dúvida. Mas, que fazer? É sempre assim, vão-se os melhores e fica a ralé, que, de tão reles e ordinária, nem a doença lhes pega…
Espanto.
Mais uma vez, conhecendo-se minimamente a corporação em causa, não nos deveríamos surpreender. Já por cá andamos há alguns anos e a casca vai engrossando… Só gostaria de saber quando é que este poder, que dos três maiores é o único que não depende do voto, deixa de actuar como um sindicato, no pior sentido do termo, e começa a dedicar-se àquilo que é a verdadeira razão da sua existência: fazer justiça.
Lamento. 10/11/17/as-palavras-de-joao-paulo-guerr a/):
Como disse João Paulo Guerra (http://adevidacomedia.wordpress.com/20
«… em Portugal, este ofício não é para velhos. A memória é por vezes um estorvo. E os jornalistas preferem-se hoje mais que jovens, acima de tudo, descartáveis.»
Para terminar.
Apesar de tudo, conforta saber que ainda há pessoas que se preocupam com estas minudências. É isto que dá esperança…
«Uma revolução tecnológica mudou tudo na minha profissão, só não mudou, antes reforçou, as condições para exercer com paixão e rigor o jornalismo.» Gostei muito destas palavras do JPG.
“Com humilhantes condenações ao Estado português.”
Diria mais, com humilhantes condenações aos contribuintes portugueses. São eles que pagam o comportamento condenável dos agentes do Estado Português.
Diria mais – e diz bem.