“Moreover, many ministers from the current government acknowledged that, while revising the MoU, they specify existing measures, or even include new ones, with the specific purpose of decreasing opposition on policies that they favoured all along. In other words, ministers from the centre right used the intervention as a clear window of opportunity so as to induce a ‘paradigm policy shift’ towards their favourite neo-liberal stances.”
“However, recent surveys asking voters about evaluations of the current MoU (after its seven revisions), and not about the original one, show that two years after the beginning of the enforcement of the MoU an overwhelming majority of the Portuguese (82.5%) defends either denunciation or renegotiation of the MoU.
This bailout, thus, have consequences for the democratic process. Even if it was originally not opposed by a majority of the Portuguese population, few of them might know (given the lack of transparency surrounding negotiations) how the bailout has been used by the government to pass reforms that it wanted all along. Moreover, the crisis and the intervention have divided the voters and their MPs to a large extent; and there is a huge mismatch of view between the rightist voters and their MPs on whether the government is allowed (or not) to renegate its former (2011) electoral commitments. This latter element is particularly worrying. A similar worrying picture (and the same huge mismatch between right-wing MPs and their voters) was found concerning the enforcement of the MoU and the increase in socioeconomic inequalities. Thus, even if some of the reforms taken in the last two years might be virtuous or necessary, the consequences of the bailout are not at all good news for the quality of democracy in Portugal.“
As duas transcrições foram extraídas de um magnífico texto – Austerity Policy and Politics: The Case of Portugal – acabado de publicar na revista Pôle Sud, n.º 39, e os seus autores foram os Professores Catherine Moury (Universidade Nova) e André Freire (ISCTE-IUL, CIES-IUL). Constituindo o resultado de um extenso trabalho de investigação, em que para além de inquéritos, foram entrevistados quase três dezenas de membros do actual e do anterior governo, entre ministros-chave e membros “júnior”, estou certo de que à medida que os anos forem passando e se for escrevendo a história, com os factos e os números que a maioria desconhece, vai haver muita gente a emudecer.

André Freire, cidadão insuspeito de qualquer tipo de simpatias.
Convém não confundir simpatias com trabalho científico reconhecido internacionalmente. É isso que distingue a ciência de um artigo de jornal ou de opiniões avulsas em blogues.
Não há nada como a pessoa se informar antes de formar opiniões.
Não existe verdade em ciências sociais. Nessa tal procura pela «verdade», alguns autores defendem que a formação intelectual é variada e que não pode haver uma única correcta interpretação. Mais importante que a procura pela verdade será as questões a colocar, reconhecendo à partida a inerente subjectividade das respostas do investigador. Ou seja admite-se implicitamente que os pontos de vista diferentes nunca se poderão conciliar para um aperfeiçoamento do conhecimento exacto, isto é, a discussão racional e produtiva é impossível.
Ao conceber que todo o conhecimento, seja ela suportado ou não em severos e exames e testes empíricos, é subjectivo, afirmam o mesmo em relação as factos. Nesta concepção, a teoria é sempre superior aos factos, isto é, eles são vazios de valor sem uma teoria que os suporte. Os factos em si mesmo só existem, enquanto ser significante, em função do observador. Uma maça quer haja ou não observador cairá sempre de uma árvore. Mas, esse facto só possuirá instrução, isto é, só será conhecimento se esse fluxo de informação for impresso através da observação dos nossos sentidos. E, como o próprio Karl Popper reconheceu, todas as observações encontram-se impregnadas de teorias e os nossos próprios sentidos incorporam algo equivalente a preconceitos, pois para eles não é o Sol que se move?
Assim, como sabemos nós se os conhecimentos que adquirimos da maça são uma representação verdadeira do facto? A «escola crítica» responderia que não sabemos, que qualquer interpretação é válida e a escolha entre elas arbitrária. Pelo contrário, Popper afirma que se realizarmos uma exposição das experiências observadas (e previamente questionadas), se as deixarmos abertas à discussão, precisamente a uma discussão com pessoas com diferentes pontos de vista, alcançaremos a virtude de pensar de modo crítico . Ou seja, procederemos a análises mais objectivas, com um maior índice de confiança, de qualidade, de aproximação à verdade. Como tantas vezes afirma Popper é do confronto que advém o progresso do conhecimento, mesmo que contrário ao que nos mostram os nossos sentidos. Ora seja qual for a nossa aproximação, tudo o que é escrito pelos autores que referiu é passível de crítica e refutação, pois (e sublinho) todas as observações encontram-se impregnadas de teorias.
Não sendo um adorador de Popper, comungo no essencial daquilo que ele escreveu e estou de acordo consigo, Miguel R.
É fundamental que o resultado seja posto à prova, que seja “falsificável”, e não há autor que não tenha um quadro teórico de referência.
Mas a discussão científica deve ser vista e mantida nesse patamar, pois só assim os resultados poderão ser discutidos e confrontados. O contrário, designadamente a formação de opiniões apressadas sobre o mérito do trabalho só porque o investigador é visto como sendo de esquerda ou de direita, é pura estupidez. E não é possível discutir com seriedade os pressupostos, o caminho e os resultados de um trabalho quando se tem um preconceito de base relativamente a um investigador.
Foi apenas isso que quis sublinhar. Para mim não há, como nunca houve, verdades imutáveis.
Concordo. Nada tira mérito ao André Freire.
Bem, não é necessário esperar pelo futuro. Passos Coelho emudeceu, Vítor Gaspar fez uma consulta com um otorrinonaringologista e apareceu muito rouco e engasgado, Paulo Portas ultrapassou o vermelho e mandou calar os seus pares, com excepção para o da economia que nos vem dizer que não há razão para euforias. Os banqueiros e os para-banqueiros calaram-se, os patrões já não “botam” a faladura que “botavam”, os empregados não piam e os académicos debruçam-se sobre o vísivel e nada sobre o problema.
O futuro mostrará que com a terra queimada as sementes só germinam com alguma chuva. Venham as bênçãos porque as desgraças estão garantidas.
Muitíssimo oportuno, este teu post.
Para quem se interessa por ciências sociais e políticas este trabalho é de leitura indispensável.
Agradeço a nota. Também me pareceu, Helena.
Bem, desde o princípio que Pedro Passos Coelho anunciou que o seu governo pretendia “ir além da troica”.
Ademais, o próprio memorando de entendimento inicial continha muitas medidas que, pelo seu detalhe, só podiam ter sido lá enfiadas por alguém com um conhecimento antecipado do país, ou seja, parece-me claro que o programa político da troica foi fortemente influenciado por alguns parceiros portugueses, isto é, não foi um programa completamente imposto a partir do exterior.
O que transcreveu não me parece minimante surpreendente e discordo da conclusão (presente na transcrição).
Se perguntar às pessoas se é preciso reduzir gastos, vai ver como a maioria diz-lhe que sim – desde que não lhe afecte (pergunte aos privados se se deve cortar nos salários do funcionarismo público, aos funcionários públicos se se deve cortar nas PPP e aos contrutores civis se se deve reduzir TSU’s e reduzir IRCs). As pessoas leram pouco (e mal) o MoU e o seu conteúdo dava para agradar a todos – afinal, a parte que nos tocava iria, obviamente, ser atenuada.
Quando a realidade chegou e começou a doer… Olhe, é como nas dietas: toda a gente acha bem, e que consegue, e depois aguenta duas semanas e a culpa é da dieta! Que assim não era viver e os vizinhos andavam nas jantaradas.
As asneiras habituais vindas da área esquerda de André Freire.
Para começar fala de aumento da desigualdade quando é precisamente o contrário.
Éum grande problema porque impede quem investe, quem cria, quem inventa de recolher os frutos do seu trabalho.
Mas os socialistas consideram falhanço pessoal que alguém seja bem sucedido sem intervenção deles próprios via estado. Narcisismo.
Estranho chamar incontornável a um texto sonso.