Ihor Homeniuk


José Meireles Graça,

Rui Rio foi, durante o consulado de ruptura de Passos Coelho, a reserva do PSD para os tempos da concórdia. Um clássico: O PSD sempre teve oposição interna, sem grande peso até ao dia em que passa para o leme, quando o antigo poder, de peso, passa a não ter muito.

No PS é igual: todo ele é hoje geringoncista, excepto a parte que não é (Seguro, Sérgio Sousa Pinto e outros próceres. Sócrates também, se aquele percalço que há-de ser julgado numa das próximas décadas não o tivesse remetido para as catacumbas da opinião).

Os centristas num e noutro partido podiam trocar de lugares se, por razões circunstanciais, não tivessem calhado em clubes diferentes, e se em questões fracturantes (isto é, as de engenharia social) não se distinguissem por vezes por estarem irremediavelmente à esquerda uns, e fatalmente à direita outros.

Rio sempre achou que o país precisa de reformas. Tal como Passos Coelho, que por isso em determinada altura defendeu a revisão da Constituição mas rapidamente concluiu que o PS não serve para nenhuma reforma que valha a pena, e deixou cair qualquer perspectiva de entendimento.

Rio não deixou. Tendo estabelecido boas relações com Costa quando eram ambos regedores, respectivamente do Porto e Lisboa, meteu na cabeça a ideia de que Costa podia ser o parceiro para a regionalização, uma revolução perigosa pela qual tem grande estimação, reformas da Justiça, sobre a qual tem opiniões sumárias, e gestão da economia, na versão cavaquista, muito diferente no seu socialismo doutoral do socialismo rasteiro e clientelar de Costa e da sua legião de carreiristas e intervencionistas sortidos, incluindo nas madraças da Academia. Onde há aliás várias escolas, que se dividem ferozmente no grau e maneiras de espoliar o contribuinte, ensinar os empreendedores a empreender, os investidores a investir, os gestores a gerir e os cidadãos a pensar sobre ciências económicas, aquela parte da alquimia que consiste num conjunto de tretas cujos autores com elas ganham a vida.

Pois o bom do Rio aplicou as suas luzes ao assassinato de Ihor Homeniuk. E, inevitavelmente, não percebeu o que está em causa. Julga o santo homem que a tortura e o assassinato foram “uma situação concreta que aconteceu e que não revela necessariamente uma deficiência no serviço do SEF. Revela uma deficiência naquele caso concreto”. E sobre o ministro responsável por aldrabices, o silêncio, o arrastar de pés, a prodigiosa inépcia funcional, diz esta coisa extraordinária: “É inegável que não geriu bem este tema mas se tem ou não condições, isso é da estrita responsabilidade do primeiro-ministro”. Ou seja: se Costa, na sua insindicável superioridade, achar que o amigo imprestável serve para nos pastorear na pasta da Administração Interna, ele, que a imprensa designa como líder da oposição, não tem nada a dizer.

Sucede que o SEF não é um serviço impoluto onde um azar infeliz um dia pousou; é um coio de malfeitorias, umas conhecidas e outras que se adivinham, conforme se pode ver, por exemplo, aqui.

Para o peditório indecoroso da extinção do SEF e da reorganização das polícias e suas competências dou nada. Porque o caldo de cultura que naquele serviço desembocou neste caso extremo não desaparece pela mágica de o dissolver numa organização maior. Pelo contrário: a reorganização obscurece a necessidade de uma severíssima inspecção, identificando os Rambos que por lá haja, os invisuais, os coniventes, os procedimentos ilegais, as práticas intoleráveis. Varrendo a testada, que é o mínimo que um país que se reclame de Estado de Direito pode e deve fazer. E depois polícias há várias, e é melhor deixá-las assim: a amálgama só pode resultar em corpos especializados unificados num comando único, o que quer dizer demasiado poder em poucas mãos. É uma receita duvidosa para a eficiência, e segura para o abuso.

Uma nota final: Acredito na boa-fé de Rio, que é da mesma natureza da que o leva tenazmente a confiar em Costa. Só pode ser por se tratar de um homem inteligente que tinha necessidade de o ser bastante mais para conseguir ver o óbvio.

16 comentários em “Ihor Homeniuk”

  1. De uma maneira geral é difícil não concordar mas há um aspecto que me parece menos bem tratado possivelmente por ter ido à boleia de Garcia Pereira.
    É certo que a PIDE tinha as competências hoje no SEF, como igualmente tinha outras como tráfico de pessoas, armas e drogas, e moeda falsa; por isso tinha a representação portuguesa na Interpol. Ora tudo indica que essas actividades estivessem separadas da polícia política pois não me lembro – salvo falha que não excluo mas não considero provável – de terem vindo a público críticas da oposição ou de meios internacionais, desde logo da Interpol, na actuação da PIDE nesses campos.
    Por isso sempre achei uma injustiça ter sido tudo metido no mesmo saco com a figura jurídica da associação de malfeitores e acredito que isso mais os julgamentos em tribunal militar bem como a espantosa fuga de mais de 120 Pides de Vale dos Judeus, se deveu ao desejo dos militares e de muitos políticos de não desejarem um apuramento de responsabilidades nem de proporcionar aos acusados liberdade de falar, o que seria difícil de evitar em tribunais criminais e iria incomodar muita gente já bem instalada na nova ordem política.
    Não se conhecem faltas graves da PIDE na gestão das fronteiras e a insinuação de Garcia Pereira que na origem da cultura de violência do SEF está a admissão primeiro da PSP em 1974, depois no SEF de antigos PIDES, deixa por explicar como foi isso possível pois no SEF são todos ou quase todos inspectores, isto é licenciados e na PIDE seriam pouquíssimos. Por outro lado já se passaram 46 anos desde 1974 e, admitindo a reforma as 66 anos, um actual inspector do SEF para ter sido da PIDE teria de nela ter ingressado com menos de 20 anos.
    Bem sei que se fala em cultura, que poderia ter-se mantido desde os tempos da PVDE embora mudassem os figurantes e que, agora sujeitos a uma realidade imigrante antes inexistente, tenham revelado os maus hábitos latentes.
    Mas a história também contraria essa hipótese.
    Em 1939 Portugal foi sujeito a uma enorme pressão imigratória de refugiados judeus que Salazar não queria por entender que poderiam servir de pretexto para Hitler, possivelmente aliado a Franco, invadir Portugal.
    No entanto, apesar do risco como era entendido, na presença de Salazar, António Ferro instruíu o cap. Agostinho Lourenço, director da PVDE para receber esses refugiados com toda a urbanidade e prestar assistência nos casos em que tal fosse necessário. Isto foi o que aconteceu e está documentado em dezenas de testemunhos, no Museu de Vilar Formoso – Fronteira da Paz.
    Ora isto mostra que os agentes da PVDE, tendo instruções claras, agiram adequadamente. Se agora existe uma cultura de violência no SEF que conclusão tirar?
    Eu concluo que – independentemente das ideias políticas – Salazar e António Ferro eram pessoas de princípios cristãos que assumiam responsabilidades sob pressão, enquanto Cabrita e Costa são pessoas de formação marxista que nem respeitam nem se sabem fazer respeitar. Assobiam para o lado sem assumir.

    1. Francisco Almeida, existe, em comum entre a PIDE e o SEF, uma cultura de violência, de pessoas que têm prazer em torturar e humilhar o seu semelhante.
      Apesar dos seus princípios cristãos, Salazar não se incomodava com o facto de os agentes da PIDE torturarem compatriotas seus. Salazar enviou agentes da PVDE a Berlim, nos anos 1930, para que estes aprendessem as técnicas da Gestapo.

      1. O que é isso de princípios cristãos, Cristina?
        Pessoas cheias desses princípios (e vazias de outros) cometeram as maiores atrocidades ao longo da história.
        Cometeram e ainda hoje cometem, e continuam a ser lobos com pele de cordeiros.
        Boas Festas!
        🎄
        Maria

      2. Tal como em instâncias anteriores, sugiro que leia e não deturpe. Eu fiz a distinção entre as actividades internacionais da PVDE/PIDE e a acção de polícia política que não comentei.
        Mas já que puxou o assunto – a despropósito e fora do tema do post – sempre lhe digo que se quer criticar procedimentos dos anos 30 tem que comparar com outros da época. Se investigar com alguma seriedade, a Gestapo nos anos 30 foi matriz para países que elegeram o comunismo como principal ameaça. Nesses anos 30 a bestialidade do nazismo não era ainda reconhecida. Basta lembrar Chamberlain.
        Mesmo se quiser restringir-se a Portugal, deve comparar a PVDE com a “formiga branca” e a Carbonária do regime anterior.
        Finalmente as torturas mais frequentes da PIDE eram a privação de sono e a estátua. De tudo o que li, incluindo depoimentos dos que tinham interesse em exagerar para justificar as delações que fizeram, espancamentos eram menos frequentes e não recordo ter lido descrição de nenhum com a violência usada em Ihor Homeniuk.

    2. “Eu concluo que – independentemente das ideias políticas – Salazar e António Ferro eram pessoas de princípios cristãos”.

      Outra vez o pangirico. Pelo Tarrafal, Forte de Peniche, e Aljube, concluo que Salazar era pessoa de meios e fins não cristãos. Quanto à alma mater do SEF ser a da PIDE, uma reflexão arabesca e circense. O Estado Novo já está velho para treinamentos.

      1. Meu caro Vorph,
        O que transcreveu foi
        “Eu concluo que – independentemente das ideias políticas – Salazar e António Ferro eram pessoas de princípios cristãos”.
        Faltou o resto:
        “… que assumiam responsabilidades sob pressão, enquanto Cabrita e Costa são pessoas de formação marxista que nem respeitam nem se sabem fazer respeitar.”
        Não fiz a afirmação de que eram pessoas de princípios cristãos ponto final parágrafo. Disse que, naquele caso concreto em que a entrada de judeus na maioria com documentos sem validade – as fichas dadas pela Gestapo depois de lhes confiscarem os documentos – eram considerados um perigo para a segurança nacional, reagiram – ou pelo menos reagiu António Ferro e Salazar aceitou – de acordo com princípios cristãos. Sobretudo realcei que foram dadas instruções concretas à PVDE e que os seus agentes cumpriram. Foi isso e apenas isso que comparei com as actuações ou falta delas de Cabrita e Costa.
        Tal como respondi a Cristina Torrão, neste contexto as referências ao Tarrafal, Forte de Peniche e Aljube são despropositadas.

        1. Só não percebo uma coisa. Se Salazar era amigo dos judeus porque é que Aristides de Sousa Mendes foi desgraçado, por salvar milhares de judeus, pelo Estado Novo?
          Pressão sobre Salazar? Pressão tiveram os dinamarqueses e outros nacionais que vendo os seus países ocupados não pararam de ajudar esses filhos de Sem

          1. Não é difícil de perceber. Salazar tomou a responsabilidade política (assumiu os pessoalmente os ministérios) de manter Portugal fora da II grande guerra.
            Tal como Napoleão tentou conquistar Portugal para garantir o bloqueio naval à Grã-Bretanha https://pt.wikipedia.org/wiki/Bloqueio_Continental admitia-se como possível que Hitler replicasse essa estratégia sobretudo porque contaria com apoio espanhol. Assim era crucial não oferecer a Hitler nenhum pretexto que facilitasse essa acção. Por isso e só por isso, Salazar deu instruções ao corpo diplomático para não conceder vistos aos judeus e a punição a Sousa Mendes foi por desobediência a ordens escritas sobre matéria considerada de segurança nacional.
            Não sei dizer se Salazar gostava ou não de judeus ou se lhes era indiferente. Pelo que sei do seu pensamento, admito que tivesse desconfiança dos judeus ligados à alta finança internacional maxime dos Rotschild mas, a ter tido essa desconfiança, não acredito que a projectasse nos judeus em geral.
            São temas que me atraem e em que há desinformação q.b. mas, apesar de até ficarem bem num “delito de opinião” estão claramente “off topic”.

          2. Que eu saiba, pelos ingleses apenas nos Açores e bem depois. Em 1939 estavam ocupados na sua defesa e sem capacidade para invasões continentais tanto mais que qualquer invasão de ingleses em Portugal continental implicaria imediata invasão espanhola com apoio alemão e o imediato ataque a Gibraltar.
            Se os espanhóis invadissem Portugal seria no quadro da guerra e como aliados dos alemães. Foi a – na minha opinião excelente – política diplomática de Salazar que dissuadiu Franco, que o desejava, com o argumento que intervenções alemãs ou inglesas na península seriam muito prejudiciais.
            Agora o quadro a ter presente em 1939 era que os alemães já tinham retirado os documentos a judeus e divulgavam recorrentemente discursos de ódio. Entretanto já ocupavam Paris e as principais cidades francesas. Por outro lado, a batalha de Inglaterra ainda estava incerta e, lembre-se, só em Dezembro de 1941 é que os americanos entraram na guerra.
            Nesse ano de 1939, a previsão seria a vitória alemã e acolher judeus como política de Estado constituía um risco muitíssimo elevado.

          3. “Não há qualquer documento alemão no sentido de eventuais represálias sobre o caso Aristides Sousa Mendes a sustentar que havia uma razão de Estado (o ostracismo de Mendes) e tem, por isso, um significado de natureza politica e ideológica que é impedir a reconstituição de uma comunidade judaica em Portugal”.
            https://www.google.com/amp/s/www.dn.pt/cartaz/amp/salazar-foi-cumplice-involuntario-do-holocausto-2854139.html

          4. “Não há qualquer documento alemão…”
            Nem imagino que documento poderia existir nem a ausência de documento prova ou reprova coisa nenhuma.
            Se quiser especular sobre documentos, talvez devesse ponderar um plano para a invasão de Portugal elaborado ao pormenor pelo estado-maior espanhol. E esse existiu.
            É óbvio que Salazar não queria em Portugal uma comunidade judaica fugida ao nazismo e que certamente desenvolveria actividades anti-nazis. Isso seria o pretexto para Hitler, que não seria o de exercer represálias mas o muito mais significativo de isolar a Grã-Bretanha. É disparate dar-lhe significado ideológico.
            E já havia uma comunidade judaica em Portugal, cujo líder durante anos foi Moisés Amzalak por quem Salazar tinha estima e a quem autorizou as actividades de apoio a refugiados (veja nas Wikipedias portuguesa e inglesa).
            O link que deixou obriga a registo prévio que não farei mas o relance permitiu ver um título do DN claramente desinformativo e baseia-se num artigo de Manuel Loff cujo activismo esquerdista é notório (p.ex. foi um dos 66 subscritores do abaixo-assinado contra a publicação do livro de Riccardo Marchi).

          5. Orbitamos sobre rotas diferentes. O meu caro defende que para manter o Poder, foi justificável a Salazar manter-se fora do conflito europeu, pois foi apenas isso que Salazar pretendia. Portugal não tinha meios para se opor a uma invasão espanhola, alemã,ou britânica. A conservação do Império, do seu (Salazar) Poder, e não a protecção da população portuguesa foi a única política e prioridade do ditador

  2. questões fracturantes (isto é, as de engenharia social)

    Nas questões fraturantes não se efetua qualquer engenharia social; apenas se dá liberdade às pessoas para cada uma fazer como quiser.

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