Ihor Homeniuk


José Meireles Graça,

Sobre Ihor Homeniuk, o não-preto, não-imigrante de balsa, não-refugiado, não-cigano, não-muçulmano, disse o que, a meu ver, convinha. E, a certo ponto, preopinava:

“Em Portugal o princípio da responsabilidade objectiva está consagrado na doutrina, mas em nenhum outro lugar: é longa a lista de responsáveis que não apenas não se deixam abater pelas desgraças que ocorrem sob a sua tutela mas que são inclusive reconduzidos, como aconteceu por exemplo com o lamentável Costa que presidiu à cegueira contumaz do Banco de Portugal, ou promovidos, como tinha acontecido com o seu antecessor, um desastre que hoje goza a tranquila reforma a que fez jus com uma carreira de dislates cá dentro, e obediência obsequiosa lá fora”.

Estava, é claro, a falar do ministro da administração interna, “uma nulidade gordurenta e palavrosa”, e da directora do Serviço Nacional de Estrangeiros e Fronteiras.

Esta senhora (que, aliás, ao ter estado calada até agora deu de si as melhores indicações) vem, quando questionada sobre se tinha posto o lugar à disposição do ministro da Administração Interna, que tutela o SEF, ou se tinha pensado demitir-se, dizer o seguinte:

“Não. É uma responsabilidade à qual eu não podia fugir. Por muito duro que seja o momento com que tive que lidar, abandonar não adiantaria nada e não iria introduzir nenhuma mudança positiva, que eu achava que era possível introduzir para que este trágico e hediondo acontecimento não seja nunca esquecido e nos catapulte para garantir que nenhum Ihor volta a sofrer o que este cidadão ucraniano sofreu nas instalações do SEF.”

Ou seja: sob sua direcção, três patifes assassinaram sob tortura, no desempenho de funções públicas e por causa delas, um homem; não o poderiam ter feito se a cultura do serviço e do lugar não criasse o ambiente para estas coisas serem possíveis e naturais; e o responsável máximo descobre agora que é necessário introduzir uma “mudança positiva”, e julga-se a pessoa indicada para a produzir.

Julga mal. Porque se é preciso morrer uma pessoa para os responsáveis descobrirem o que fazer para evitar assassínios no desempenho das funções, isso significa que sofre de indesculpável ignorância. E nem preciso conhecer a senhora, ou o serviço, ou a gente deplorável que lá trabalha (que me perdoem as excepções: há sempre flores no meio do entulho) para imaginar a miríade de pequenos abusos que criam o caldo de cultura para os grandes. Cristina Gatões percebe isto? Se percebesse, tinha-se demitido.

5 comentários em “Ihor Homeniuk”

  1. Eu acho mais digno que a personagem coloque imediatamente o lugar à disposição, crie as condições necessárias para que o caso não se repita, puna quem deve ser punido, e então se demita.

    1. Não, gente daquela camada do PS —e do mundinho de favores e recompensas a que pertence— não se manca nunca. Mais digno seria que alguém a exonerasse imediatamente.

  2. O mais grave nem é o assassínio. O mais grave é o encobrimento que dele foi feito. Porque o assassínio envolveu três membros do SEF, mas o encobrimento envolveu uma dezena deles. Três ovelhas negras, existem em qualquer instituição. Uma dezena delas, todas a colaborar, é que mostram que elas não são ovelhas negras – são a própria cultura da instituição.
    A Cristina Gatões diz que somente agora se apercebeu do encobrimento. Já há muito se deveria ter apercebido, e tirado as devidas ilações.
    Ela faz parte da corporação.

  3. O mais escandaloso, a meu ver, é que num mundo onde se pede desculpa (e/ou se é demitido) por mariquices como escrever a palavra “mariquices”, ninguém, em todo o colossal edifício do Estado Português, se lembrou de dar uma palavrinha à família de um cidadão que foi morto enquanto se entrava à guarda desse Estado.

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