Falo ao telefone com uma lisboeta que não conheço de lado nenhum sobre assuntos de trabalho. Saliento um ponto qualquer. Ela replica: «Ó querido, mas isso queria eu!» Fico um tudo-nada perturbado, não apenas pelo «ó querido» mas pela frase completa e, acima de tudo, pelo tom em que é pronunciada. Sinto-me como se tivesse acabado de descobrir estar metido num casamento semi-gasto, no qual subsiste alguma ternura mas onde já não se esconde a impaciência. Ainda por cima, casado com uma mulher que, repito, nem conheço pessoalmente e que usa expressões como «ó querido». Mas depois, durante o resto da conversa, que dura mais do que o necessário porque ela tem que dizer tudo pelo menos três vezes (um defeito mais português do que feminino), o meu problema é mesmo conter a vontade de a tratar do mesmo modo. É que «ó querida, eu percebi à primeira» vem tão a propósito… Mas resisto. Ainda era acusado de assédio sexual. Ou, no mínimo, de machismo.
(Republicado, cá por coisas.)

E provavelmente serias, pois. Qualquer conversa mais solta entre maiorias e minorias qualitativas pode ser mal entendida… Para veres como a vida pode ser injusta (eheheh)
“Minorias qualitativas”? Mas não há mais mulheres do que homens?
Teve mas é muita sorte por ser “uma” lisboeta. Não teria sido antes outra coisa qualquer à procura de assédio?
Nah, era só mesmo lisboeta.
Lisboetas e portuenses são substancialmente diferentes.
Eu (em Lisboa) trato bastantes conhecidas e amigas, com frequência, por “querida”, sem as estar a assediar e sem que elas se queixem de seja o que fôr.
Repare também que as mulheres vestirem-se de certa forma pode ser considerado extremamente provocante nuns países, noutros perfeitamente vulgar.
Certo. Mas são precisamente essas diferenças que podem gerar mal-entendidos.
Em Lisboa, há alguma tendência para tratar os outros como se fossem grandes amigos não o sendo – o que retirará algumas importância às palavras que se dizem. No Porto é-se mais neutro e directo.
A igualdade de género tem destas coisas: uns são mais ‘iguais’ do que outros. A elas fica-lhes bem o “Ó querido!…”; já neles isso poderá cheirar, de facto, a esturro… a assédio sexual. Coisas!
Ou, se não a assédio sexual, a condescendência.
É um sinal, seja ela de onde for. A grande arte é saber captar os sinais.
Nah. Só se for um sinal da forma como as palavras são frequentemente usadas sem atender ao seu significado.
Este texto divertiu-me!
Pois é, homem sofre…

Cada vez mais, cada vez mais… 🙂